domingo, 29 de novembro de 2009

Amigos e «Papel a Mais» (I)

Um amigo e leitor de Resendes Ventura enviou-nos um poema em que comenta a sessão de lançamento de Papel a Mais. É o primeiro, aquele que vai abrir a porta a todos os outros que desejem fazê-lo. Obrigado, André Moa.

LANÇAMENTO DO LIVRO PAPEL A MAIS
de Resendes Ventura

Senhor Resendes Ventura,
Já comecei a leitura
Do seu grande calhamaço.
Já pus de parte os jornais,
Agora é «PAPEL A MAIS»,
Mais nada. Nada mais faço.
Fiquei preso pelo beicinho,
Com a boca a salivar.
Assim, qualquer bocadinho
É para o saborear.

Senhor Resendes Ventura,
Porque é boa criatura,
Vou-lhe pedir um favor:
Diga ao seu Manuel Livreiro,
Entre todos o primeiro,
Que é mui grande o seu valor.
Por isso merece bem,
Apesar dos mil cadilhos,
A boa mulher que tem,
Os bons netos, os bons filhos.

Eu sei que ele já sabe,
Por mais que se menoscabe
E com pouco se conforme,
Que os amigos o estimam
E que à uma o encimam,
Pois seu valor é enorme.
E bem lho pode lembrar,
Senhor Resendes Ventura,
Mas de manso, devagar,
Não dê a fome em fartura.

Seu valor, seu coração,
Sua alma e razão,
Sua prosa e poesia,
Sua caneta e voz
Enchem-nos a todos nós
De incontida alegria.
A poesia, essa é sua,
A livraria é para ele.
Tanto lá trabalha e sua,
Que ficou só osso e pele.

Agora para ti, Manel:
Nunca é de mais o papel
Quando se sabe usá-lo!
É de mais para um anónimo.
Mas para o teu pseudónimo,
Quando lê-lo é um regalo?!
Tu e Resendes Ventura
(Ele que é o teu reverso)
Só fazeis boa figura
Seja em prosa, seja em verso.

Demonstrou-o o Eduino
Com seu humor fundo e fino.
Assim como o Esaú
Que em prosa de bom recorte
Te enalteceu arte e sorte.
Vinha tudo no baú…!
No livro, quero eu dizer.
Como bem nos informou:
Foi só procurar e ler
Os retalhos que juntou.

E juntou-os muito bem,
Como talvez mais ninguém
O poderia fazer.
Com a ajuda do Olegário
Que abriu o teu sudário
P’ra três poemas teus ler.
O Simas também o fez.
E não falo dos demais
Que falaram, pois, bem vês:
Já gastei «PAPEL A MAIS».

Mais uma, para terminar:
No domingo não vou estar
Quando fores exaltado
Como tu, Manel, mereces,
Entre cânticos e preces,
No teu recanto sagrado.
Vou estar presente, sem estar
(Sou deus sem ubiquidade)
P’ra te poder abraçar
Com prazer e amizade.

Sarabá, grande Manuel Medeiros,
Digo Resendes Ventura,
Digo, Bom amigo!

André Moa
Digo José Guilherme
Digo este teu admirador,
Digo mais: este teu grande amigo.

Lançamento de «Papel a Mais»

Na passada sexta-feira, dia 27, na Casa dos Açores de Lisboa, aconteceu o lançamento de Papel a Mais. A Casa estava a rebentar pelas costuras, dado que muitos dos amigos de Manuel Medeiros não quiseram deixar de estar com ele nesse momento. Os anfitriões foram impecáveis e tudo fizeram para que todos se sentissem bem. Os apresentadores da obra, o editor e os leitores de poesia, todos amigos de longa data do velho livreiro e poeta, conseguiram prender a assistência através da qualidade e da emoção que puseram nas suas palavras. Foi em clima de alegria e amizade que todos estiveram com todos. Sorrisos de felicidade eram visíveis em todos os rostos. Diz quem sabe que as portas da Casa se fecharam depois das duas horas da manhã. E ainda houve quem, por longos minutos, se tivesse deixado ficar na beira do passeio em amena cavaqueira.

Vamos procurar trazer para aqui os textos lidos na sessão, bem como outros escritos com ela relacionados. Para já aqui ficam duas fotos do acontecimento. Outras serão apresentadas em breve.

DSC02316 Resendes Ventura, aliás Manuel Medeiros, usando da
palavra, ladeado por Margarida Braga Neves e Paulo Enes da Silveira.

DSC02315Esaú Dinis falando sobre Papel a Mais e o seu
autor. A seu lado Eduíno de Jesus, a grande alma cultural da Casa dos Açores

domingo, 22 de novembro de 2009

Outro poema

Aqui fica mais um poema de Papel a Mais.

Hodometria

Magro filósofo. Poeta pobre.
Por inimigo, o tempo: resistir-lhe
sem perder o respeito
devido ao vencedor.

Agricultor de sonhos:
no terreno comum
da nossa estupidez e coisa pouca
mourejar procura e sementeira
da luz essencial.

Obedecer às leis da natureza,
vestido como sou
de condição humana.
Das outras, aceitar
as que em mim não destruam
o respeito possível
às funções do poder.

Ser, apenas. E sabê-lo
enquanto a consciência perdurar
em corpo e tempo reunidos:
movimento eterno do efémero
que me trouxe e me leva.

No cerne, amor.
O resto, casca.

Lúcido querer?
Prático labor?
Silêncio, guerras, paixões?
-Um só destino: amor.

R.V.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Convite

Aqui fica o convite para a sessão de lançamento de Papel a Mais. Apareça!

convite

Mais um poema do livro

Mais um poema de Papel a Mais

Imensidão

Poema arrabidino

Teu canto
sem princípio e sem fim:
todas as coisas existindo
para além de si mesmas.

Um sol no alto quase a pino
dando à luz um repouso
nas sombras das ramagens
sob os verdes entre os verdes sobre o chão.

Teu silêncio
diante de um espelho que te dá
em imagem do mundo
o sonho que trazias.

Em “sobrevive!”
quem virá esta esperança redimir
de ter amado tanto o impossível?

Pouco! Muito pouco sempre um homem
sulcando espaços infinitos
na vastidão imensa dos destinos!

Por isso enquanto
a teia de tudo obedecer
à lei do movimento em que respiras
teu canto há-de ser em ti a vida.

Sem fim. E mesmo sem princípio.
R.V.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um poema do livro

Um poema de Papel a Mais:

Herança

O tempo de vencer e ser vencido
o tempo inútil
acabará
No resto semeei
olhos de espera
para o sossego tépido da tarde
em frente ao mar das ilhas

R.V.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Autoretrato

Um desenho de RV, onde se lê:

"Autoretrato
com camuflagens
com as devidas camuflagens"

09

O PORQUÊ DA NECESSIDADE DE LER PAPEL A MAIS

Na sua génese, Papel a Mais estava pensado para ser um livro de poesia, reunindo alguma da produção poética de Resendes Ventura de 1993 até 1998, completando-se com o conjunto «3 Rédea-soltas».

Com o adiamento da publicação, sentiu o autor necessidade de se explicar num texto introdutório, «Papeis de um Livreiro – uma Introdução a Papel a Mais», onde, entre elementos biográficos de carácter mais pessoal, R.V. vai discorrendo sobre a sua condição de livreiro desde 1969, num país de grande atraso cultural e fracos índices de leitura, onde tem sido difícil implementar elementos reguladores que permitam um acesso eficaz de todos à leitura.

As reflexões sobre a problemática do livro e da leitura e a evocação de muitos dos escritores e editores que passaram pela sua livraria continuam em «Post-
-Scriptum Redundante a Papel a Mais», no texto «Elogio da Redundância», escrito já em 2009, pouco antes de se iniciar a publicação da obra.

Papel a Mais é claramente um livro de afectos, afectos manifestados de diversas formas. Neste sentido tem especial destaque uma parte do livro designada por «Escrita Amiga»: surgindo entre o núcleo principal da obra e o «Post-Sriptum Redundante», encontramos um conjunto assinalável de textos inéditos de escritores relevantes, amigos do autor, que desta forma manifestam o seu apoio a esta edição. São textos que, de diversas formas, foram oferecidos a R.V. Estão assinados por Armando Cortes-
-Rodrigues, Avelino de Sousa, Eduíno de Jesus, Fausto Lopo de Carvalho, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Onésimo Teotónio Almeida, Sebastião da Gama, Silva Duarte, Urbano Bettencourt, Urbano Tavares Rodrigues e Teresa Rita Lopes. José Ruy colabora com uma ilustração.

Cada parte do livro separa-se da seguinte através de um desenho da autoria de Resendes Ventura, daqueles que o autor vai deixando espalhados nas páginas dos diversos cadernos que sempre o acompanham, criados entre 2002 e 2008, a fase mais produtiva dos seus «traços a tinta negra».

A parte final do livro, «Recortes Datados», reúne vários textos que R.V. escreveu para jornais, para colectâneas, para evocações ou como prefácios, ajudando a completar o seu retrato de homem de causas e valores.

Conhecedor profundo dos meandros do livro, já que em 2009 completa quarenta anos de actividade livreira, reflectindo, muitas vezes publicamente, sobre as questões do livro em Portugal nas suas diversas dimensões, o autor dá um precioso contributo para o estudo deste sector, dando a ver/ler a posição e a voz do livreiro, esse agente cultural importantíssimo e, infelizmente entre nós, quase sempre ignorado e votado ao ostracismo pelo poder, pelas instituições e seus decisores.

Papel a Mais é, pois, um livro a ser lido por aqueles que gostam de poesia, mas, acima de tudo, deve ser lido por todos os agentes culturais e institucionais que se movem no meio do livro e da leitura e desejam fazer sobre ela uma reflexão séria: decisores do poder central e local, livreiros, bibliotecários, jornalistas culturais e críticos literários, editores e distribuidores livreiros, investigadores do livro e da leitura, promotores, animadores e mediadores de leitura, professores e educadores, enfim, todos os que se interessam pelo livro, procurando que o número de leitores seja algo em permanente crescimento.




Algumas frases retiradas de Papel a Mais sobre a problemática do livro e da leitura:

«Quando se sente a falta de leitura como quem sente fome, talvez se possa já considerar o livro um bem de primeira necessidade. Sempre conheci pessoas que se alimentavam de leitura como quem se alimenta de pão. Inclusive gente de aldeia para quem nada significava o grau de escolaridade e o que simplesmente contava era terem aprendido a ler. A cada um a sua história de leitura.»

«A leitura exige tempo. Tanto a leitura individual como a colectiva. Não é assim tão simples e imediato tirar disto as conclusões possíveis e necessárias. Uma pessoa de meia-idade que sempre leu pouco e por mais que agora leia poderá fazer a mesma leitura de um livro que uma outra habituada a ler desde criança e que leu muito, bem e bom? Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram. Esta lei projectada na leitura colectiva permite ver quanto tempo leva uma recuperação profunda dos níveis de leitura numa sociedade.»

«Uma das minhas mais sorridentes esperanças no futuro do nosso país e em especial da região de Setúbal, visto que o contributo da Culsete foi por aqui, está no indesmentível desenvolvimento da leitura e da literatura infanto-juvenis. Uma esperança já confirmada. Como é que posso agradecer a alegria que me dão as crianças dos anos setenta que agora são pais e me trazem os filhos a quem contam, aqui na livraria, os seus encontros de então com o livro e a leitura proporcionados pela nossa actividade?»

«Se ler é criar estamos muito perto da nascente do espírito crítico. Esta é a minha principal razão de crença na leitura como condição de verdadeiro progresso humano».

RESENDES VENTURA

Resendes Ventura é o nome literário de Manuel Pereira Medeiros, que o criou para a sua escrita quando em 1968 saiu dos Açores, onde assinava como Manuel Pereira. Nasceu a 14 de Janeiro de 1936 na freguesia de Água Retorta, concelho de Povoação, na ilha de São Miguel, Açores, e reside em Setúbal desde 1970, onde continua a trabalhar na livraria que fundou, a Culsete, um dos pólos culturais relevantes da cidade. Aos 10 anos saiu da casa materna e foi estudar para o Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira. Foi no Seminário que despertou para a escrita, começando a colaborar em jornais e a escrever poesia. Em Agosto de 1959 foi ordenado padre, missão em que se empenhou até 1968, trabalhando como professor de Religião e Moral no Liceu Antero de Quental, em Ponta Delgada, até 1967. Em 1969, já em Lisboa, iniciou a sua actividade livreira na Livraria Nosso Tempo. Tem escrito inúmeros artigos, dispersos por jornais e revistas (Pensamento, Euntes, Correio dos Açores, Diário dos Açores, Correio da Horta, O Telégrafo, O Dever, A-Z, Missões, Livros de Portugal, O Setubalense, Actual, Jornal de Setúbal, entre outros) e tem colaborado com diversas estações de rádio onde já manteve rubricas fixas sobre livros (Rádio Pal, Rádio Voz de Setúbal, Rádio Azul). Tem escrito prefácios, textos de divulgação e alguns de polémica, num exercício consciente de cidadania. Títulos de poesia publicados: Passos de Viagem, Ponta Delgada, 1963; O Mudo Encanto (plaquette), Setúbal, 1987; Coisas Amadas, Setúbal, 1988; Das Ilhas o Grande Mar e os Longos Percursos do Ilhéu (plaquette), Setúbal, 1991; Mãe dAlma, Setúbal, 1993. Está representado nas seguintes antologias: Antologia Poética dos Açores, dois volumes, selecção de Ruy Galvão de Carvalho, Angra do Heroísmo, 1979; Setúbal Terra de Poetas e Cantadores, Setúbal, 2001; A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, Setúbal, 2002. Em Papel a Mais, o presente título de Resendes Ventura, convivem textos poéticos, textos biográficos, textos de opinião, textos de digressão literária e de especulação filosófica, lado a lado com textos de alguns escritores amigos: Armando Côrtes-Rodrigues, Avelino de Sousa, Eduíno de Jesus, Fausto Lopo de Carvalho, José Ruy, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Onésimo Teotónio Almeida, Sebastião da Gama, Silva Duarte, Urbano Bettencourt, Urbano Tavares Rodrigues, Teresa Rita Lopes.