terça-feira, 17 de novembro de 2009

O PORQUÊ DA NECESSIDADE DE LER PAPEL A MAIS

Na sua génese, Papel a Mais estava pensado para ser um livro de poesia, reunindo alguma da produção poética de Resendes Ventura de 1993 até 1998, completando-se com o conjunto «3 Rédea-soltas».

Com o adiamento da publicação, sentiu o autor necessidade de se explicar num texto introdutório, «Papeis de um Livreiro – uma Introdução a Papel a Mais», onde, entre elementos biográficos de carácter mais pessoal, R.V. vai discorrendo sobre a sua condição de livreiro desde 1969, num país de grande atraso cultural e fracos índices de leitura, onde tem sido difícil implementar elementos reguladores que permitam um acesso eficaz de todos à leitura.

As reflexões sobre a problemática do livro e da leitura e a evocação de muitos dos escritores e editores que passaram pela sua livraria continuam em «Post-
-Scriptum Redundante a Papel a Mais», no texto «Elogio da Redundância», escrito já em 2009, pouco antes de se iniciar a publicação da obra.

Papel a Mais é claramente um livro de afectos, afectos manifestados de diversas formas. Neste sentido tem especial destaque uma parte do livro designada por «Escrita Amiga»: surgindo entre o núcleo principal da obra e o «Post-Sriptum Redundante», encontramos um conjunto assinalável de textos inéditos de escritores relevantes, amigos do autor, que desta forma manifestam o seu apoio a esta edição. São textos que, de diversas formas, foram oferecidos a R.V. Estão assinados por Armando Cortes-
-Rodrigues, Avelino de Sousa, Eduíno de Jesus, Fausto Lopo de Carvalho, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Maria de Lourdes Belchior, Matilde Rosa Araújo, Onésimo Teotónio Almeida, Sebastião da Gama, Silva Duarte, Urbano Bettencourt, Urbano Tavares Rodrigues e Teresa Rita Lopes. José Ruy colabora com uma ilustração.

Cada parte do livro separa-se da seguinte através de um desenho da autoria de Resendes Ventura, daqueles que o autor vai deixando espalhados nas páginas dos diversos cadernos que sempre o acompanham, criados entre 2002 e 2008, a fase mais produtiva dos seus «traços a tinta negra».

A parte final do livro, «Recortes Datados», reúne vários textos que R.V. escreveu para jornais, para colectâneas, para evocações ou como prefácios, ajudando a completar o seu retrato de homem de causas e valores.

Conhecedor profundo dos meandros do livro, já que em 2009 completa quarenta anos de actividade livreira, reflectindo, muitas vezes publicamente, sobre as questões do livro em Portugal nas suas diversas dimensões, o autor dá um precioso contributo para o estudo deste sector, dando a ver/ler a posição e a voz do livreiro, esse agente cultural importantíssimo e, infelizmente entre nós, quase sempre ignorado e votado ao ostracismo pelo poder, pelas instituições e seus decisores.

Papel a Mais é, pois, um livro a ser lido por aqueles que gostam de poesia, mas, acima de tudo, deve ser lido por todos os agentes culturais e institucionais que se movem no meio do livro e da leitura e desejam fazer sobre ela uma reflexão séria: decisores do poder central e local, livreiros, bibliotecários, jornalistas culturais e críticos literários, editores e distribuidores livreiros, investigadores do livro e da leitura, promotores, animadores e mediadores de leitura, professores e educadores, enfim, todos os que se interessam pelo livro, procurando que o número de leitores seja algo em permanente crescimento.




Algumas frases retiradas de Papel a Mais sobre a problemática do livro e da leitura:

«Quando se sente a falta de leitura como quem sente fome, talvez se possa já considerar o livro um bem de primeira necessidade. Sempre conheci pessoas que se alimentavam de leitura como quem se alimenta de pão. Inclusive gente de aldeia para quem nada significava o grau de escolaridade e o que simplesmente contava era terem aprendido a ler. A cada um a sua história de leitura.»

«A leitura exige tempo. Tanto a leitura individual como a colectiva. Não é assim tão simples e imediato tirar disto as conclusões possíveis e necessárias. Uma pessoa de meia-idade que sempre leu pouco e por mais que agora leia poderá fazer a mesma leitura de um livro que uma outra habituada a ler desde criança e que leu muito, bem e bom? Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram. Esta lei projectada na leitura colectiva permite ver quanto tempo leva uma recuperação profunda dos níveis de leitura numa sociedade.»

«Uma das minhas mais sorridentes esperanças no futuro do nosso país e em especial da região de Setúbal, visto que o contributo da Culsete foi por aqui, está no indesmentível desenvolvimento da leitura e da literatura infanto-juvenis. Uma esperança já confirmada. Como é que posso agradecer a alegria que me dão as crianças dos anos setenta que agora são pais e me trazem os filhos a quem contam, aqui na livraria, os seus encontros de então com o livro e a leitura proporcionados pela nossa actividade?»

«Se ler é criar estamos muito perto da nascente do espírito crítico. Esta é a minha principal razão de crença na leitura como condição de verdadeiro progresso humano».