domingo, 20 de dezembro de 2009

Papel A Mais a Quatro Vozes (III)

Na sessão de lançamento de Papel a Mais, em 27 de Novembro de 2009, na Casa dos Açores, uma das exposições que causou mais impacto junto da interessada audiência foi a de Esaú Dinis, sociólogo, professor do ensino superior e, sobretudo, amigo de juventude de Manuel Medeiros e, simultaneamente, um dos mais atentos leitores da sua poesia, que cita, refere e lê com frequência em alguns dos muitos encontros e seminários em que é convidado a participar. É esse texto que aqui se divulga.

Era ema vez um livreiro que gostava de ler e se fez mediador da leitura, enquanto escrevia poemas para se salvar

Uma livraria tem o seu quê de religioso e se não é só para iniciados, é pelo menos para amadores, para gente sem pressas, que sabe encontrar tempo para percorrer lombadas, acariciá-las, abrir um ou outro livro, um ritual de comunhão.”

Luísa Dacosta: Um olhar NaufragadoDiário II, in: Papel a Mais (221)

Vivo no meio dos livros. Alto preço// paguei por esta escolha” (267)

Aceitei a incumbência de descobrir, entre os papéis de um livreiro, elementos que revelassem a persistência de um tempo que ficou lá atrás, semeado nas décadas de 50 e 60, e lá longe, em terra e mar dos Açores, tendo por eixo principal o “banho de fraternidade”, que Manuel Pereira, que não Resendes Ventura, viveu, em boa companhia, no Seminário de Angra.

Presumi a dificuldade e congeminei vários fios que me levassem por dentro do papel a mais.

Já o tempo passara, quando, sem que tivesse de forçar as palavras, encontrei declarações peremptórias. Afinal tudo estava demasiado à vista!

Comecemos por “Uma Introdução a Papel a Mais”, datada de 29 de Outubro de 2003.

Não sou capaz de entrar no coro das manhãs submersas de Vergílio Ferreira (…) Também havia problemas típicos no meu Seminário e no meu tempo, mas muitos de nós não podemos subscrever sem reticências algumas imagens de Caetano Valadão Serpa em Uma Pessoa Só É Pouca Gente.

Para além de todos os erros e críticas, o nosso tempo do Seminário foi um tempo riquíssimo. Fecundo e maravilhoso até, em certos aspectos e momentos. A música, o teatro, aqueles Natais, também o desporto. E o ambiente intelectual? O Pensamento (…) e mais o Euntes, e mais a Academia Bernardo Vasconcelos, e mais o escutismo (…) Pedir mais e melhor? “Uma pessoa só é pouca gente”, nisso estamos de acordo. Sexualidade humana transtornada, celibato dos padres como tabu, deformações atávicas suportadas por gerações sucessivas de crianças e jovens educados em seminários, são temas que é bom afrontar, mas para mim as coisas boas superaram as negativas.” (Papel a Mais:32)

E está dito para o período vivido em Angra, que vai de 1946 a 1959, doze anos de Seminário e um de Pós Seminário.

Na página seguinte, resume o período que vai de 1959 até 1968, agora já na sua outra ilha, a de S. Miguel.

E, para que conste, ficou assim registado:

Posso repetir aqui que foi o tempo melhor da minha vida? Acabou, mas quase acabei comigo de tanto me esforçar para que não acabasse. (…). Quantos passos dei na vida que hoje não daria!? Esse, porém, o mais difícil de todos, deixar de ser padre, até hoje o considero correcto e inevitável. Vou repetir: que bela experiência os meus anos de Ponta Delgada e o meu ano de Rabo de Peixe e Calhetas.” (Papel a Mais:33)

O que parecia difícil, estava, por demais, manifesto.

Quando, em 2008, cinquenta anos depois, Resendes Ventura, reencontra, em Angra, os colegas de curso de Manuel Pereira, pôde resumir numa frase aquele espírito: “Fizemo-nos juntos de crianças a homens e num ambiente de grande qualidade.” (223)

Facilitado o trabalho, não desisti de tentar ir mais longe, perguntando-me o que resta daquele “banho de fraternidade” (66 e 225).

Em Papel a Mais, há um novelo de emoções, onde ressoam saudades em cascata, fervilha uma ladainha de nomes – pessoas muitas e sempre mais pessoas, por vezes replicadas em diferentes contextos - , pululam memórias num crescendo e regista-se a nascença do sonho literário e intelectual do futuro livreiro que gostava de ler, mas sempre foi escrevendo poemas, como um outro sacerdócio.

Nesta superação ou talvez antes transmutação estará, por hipótese, o segredo de uma vida.

Seria capaz de o afirmar, evocando a experiência francesa de padres operários com quem, em Paris, no final dos anos 60 e boa parte da década seguinte, compartilhei esperanças, reflexão e convívio. Um deles, também entregue aos livros como revisor de provas das edições Lafon, à beira dos 100 anos, ainda estudava a sua bíblia e textos sagrados de outras religiões. Um outro, camionista de pesados, esperou pela reforma para, a pé, do meio da França, palmilhar em peregrino o caminho de Santiago.

Podia confirmá-lo, com o Diário de um pároco de aldeia, cuja recensão Manuel Pereira apresentou nas páginas do nº 41 do Pensamento (31.03.1955). Na verdade, George Bernanos termina o seu romance com as últimas palavras do agonizante protagonista: “ Que importa? Tudo é graça.” (Qu’est-ce que cela fait? Tout est grâce.).

No mesmo registo, se insere a novela São Manuel Bom, Mártir (Difel, 1999), um texto existencialista, onde Miguel Unamuno retrata o drama de um sacerdote incapaz de acreditar na imortalidade, mas que dá esperança de vida eterna aos seus paroquianos aldeões. O próprio Unamuno considerava-a como súmula filosófica e teológica da sua reflexão sobre o “sentimento trágico do quotidiano”.

A este propósito, e identificando proximidades, lembro que Manuel Pereira, referindo-se ao primeiro contacto com os sonetos de Antero de Quental, paixão dos 15 anos, confessou: “o pessimismo de Antero e a sua angústia entraram-me pela alma dentro juntamente com a técnica do soneto.” (27). Imagino o eco pela vida fora de haver sonhado na adolescência com o “Palácio da Ventura”, e descobrir ao fim “silêncio e escuridão – e nada mais!”

Evoco este São Manuel Bom, Mártir, porque, pelo Natal de 2005, o recebi “com a amizade de Manuel Pereira”, a que juntou um dos seus “rabiscos”, que por vezes são asas e aqui foi chaveta alada, semelhantes aos que iluminam Papel a Mais. Como mensagem escreveu a palavra “tardiamente”, desenhada com a expressividade de uma revelação ainda atempada. Vislumbrei a revelação incontida de um segredo mais do que profundo.

Retenho deste episódio, em aproximação autobiográfica, o predomínio da conduta concreta das obras sobre as palavras, porque estas são insignificantes para cimentar uma profissão de fé. Aliás, Unamuno a este propósito é esclarecedor: “Nem o povo sabe o que é a fé nem porventura se preocupa muito”. (1999:81)

Para o evidenciar, faço nova ligação directa a Papel a Mais, transcrevendo uma referência aos primeiros difíceis tempos de Lisboa, aonde Manuel Pereira chegou em Agosto de 1968: “Foram esses meses da revista (A-Z) que me salvaram a vida. Deu para ocupação, pão, remédios, renda de quarto, experiência, tempo para me curar e pensar. E para ler e escrever, conhecer o meio editorial, livreiro, intelectual e político, e sobretudo para fazer e reunir amigos.” (34)

Para aqui chegar foi preciso que se impusesse o imperativo categórico da sobrevivência, como um despojamento.

Mas, para tentarmos ir mais longe nesta procura, o melhor será citar Luísa Dacosta, já que Manuel Pereira com ela se identifica para assumir uma leitura religiosa, para não dizer litúrgica, da função livraria.

Transcrevo o essencial: “Uma livraria tem o seu quê de religioso e se não é só para iniciados, é pelo menos para amadores, para gente sem pressas, que sabe encontrar tempo para percorrer lombadas, acariciá-las, abrir um ou outro livro, um ritual de comunhão.” (221)

Cheguei aqui depois de ter descoberto que Papel a Mais, profusamente recheado de muita poesia (60 poemas, e eu, dos novos, gosto particularmente do conjunto “Longevidade”), apenas acolhe três dos 31 poemas publicados em Passos de Viagem, de 1963, livrinho que representa a substância da produção poética de Angra e Ponta Delgada, se lhe juntarmos os sete poemas que saíram no Pensamento. (Suplemento do Jornal A União, 46 números, publicados entre 5 de Dezembro de 1953 e 16 de Junho de 1956).

Reli todos os poemas que cobrem os anos de Angra e Ponta Delgada até à data da publicação, em 1963. Verifiquei que ficaram pelo caminho os que exprimem um ambiente mais religioso ou místico, como “Rumo”, “Prece”, “Encontro”, “Perdido”, “A Tua Voz” e “Breve Canção para Maria”. Nem sequer o premonitório “Rumo Inviolado” é citado, apesar de implorar: “Por entre os farrapos da minha materialidade//Faz que brote, Senhor, uma violeta de amor.”- e a prece haveria de cumprir-se em neta de nome Violeta!

Posso adiantar que a explicação que adivinho se encontra no Post-Scriptum, intitulado “Elogio da Redundância”, datado de 31 de Janeiro de 2009.

Cito: “Vivi o meu tempo. Estar à espera de melhores tempos para então viver e ser feliz? Não pude conformar-me com essa visão messiânica da existência humana. Por hoje posso dizer que valeu a pena assumir e manter o esforço de desembarcar de todos os mitos.” (246)

Irei por isso concentrar-me somente nos poemas “Adolescente”, “Quando chover” e “Canção para o Mar” (este perde a estrofe do meio, de que gosto muito, para acolher duas estrofes de “Encantamento”), para atentarmos nesse “esforço de desembarcar de todos os mitos.”

Pedi ao amigo comum, Olegário Paz, para os trazer aqui de viva voz.

Adolescente *

O ninho
Perdido
Ficou

A ave
Pequena
Sumiu-se

A tarde
Espera

Calada

A brisa
Inquieta
Tremeu

* Nas versões anteriores,
sem título, apenas “...”

Quando Chover **

Quando chover
Apanha na mão as gotas do beiral

E fica-te
Olhando o ruído abstracto
Das gotas pelo chão

Fica-te apenas
- Não digas nada –
Encostado ao umbral
Da tua porta aberta

** Publicado no Pensamento,
e também no Diário de Notícias

Canção para o Mar***

Criei-me de olhos no mar,
Foi o mar que me embalou,
O seu tamanho e sonhar
No peito o mar mos gravou.

Que eu escute o marulho
Ciciando leve
E me abandone a este
Encantamento breve.

Uma nuvem só
No azul do ar;
Fixaram-se os olhos
No azul do mar.

Bendito mar meu amigo
Que me ensinaste a sonhar
Ficarás sempre comigo
Minha vida a embalar!

*** Integra duas estrofes do
poema “Encantamento”

Por alguns minutos, deixemos repousar os poemas, palavras, ecos, metáforas, seus silêncios e evocações. Que fique na pele, somente, o arrepio da brisa sobre o ninho vazio após o voo adolescente da ave pequena. Que se olhe, apenas, o ruído abstracto das gotas pelo chão. Que se escute o marulho do mar ciciando leve dentro do peito em ondulação de embalar.

Vamos antes sentir o contraste destes poemas despidos de qualquer “imperativo de consciência” e o rosário de apelos que saltam de Papel a Mais.

Comecemos por estes que seleccionei, entre muitos: “Sem cultura não há progresso e sem leitura não há cultura. Foi esta fórmula que construí para base do meu trabalho.” (22-3). “A opção pela leitura encheu-me a vida.” (18) “Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram.” (24). “Talvez se possa já considerar o livro como bem de primeira necessidade.” (235)

Esquecido tudo isso, que representa a parte mais substancial desta segunda metade da vida de Manuel Pereira, concentremo-nos, uma última vez, nos três poemas que restam do tempo/ambiente, ”feliz” e sem lágrimas, de Angra e Ponta Delgada.

A minha convicção é a de que a Poesia permitiu que sobrevivesse à saída da Ilha nesse Agosto de 1968, plantando-a na alma, sobrevivesse às lembranças que doem do processo da CULDEX e da construção da CULSETE, sobrevivesse às angústias da devolução dos livros, ao sufoco dos manuais escolares e à hesitação das feiras de Santiago, sobrevivesse aos mal-entendidos dos projectos, à crueza dos balancetes e do fisco, também ao cigarro que vicia e desculpa, aos bancos que espreitam, à metamorfose do Manuel Pereira em Senhor Medeiros e depois Resendes Ventura, e sobrevivesse até à ambivalência semântica dos papéis que se recusam a ser papel a mais.

É tempo de me aproximar do fim, ligando a mística da livraria com a do poema. Eis a confissão: “Creio no poema como a forma perfeita e suprema da revelação: porque creio na palavra como fonte de criação dos mundos novos de cuja existência nunca pudemos abdicar.” (309)

O grito “Poesia ou Nada!” (283-4), que, por várias vezes, irrompe em Papel a Mais, significa que sublima o desnudamento, a entrega, o sacrifício, a angústia, todos os abandonos e recusas, mesmo que reconheça que “foi menos servir a Poesia do que querer que ela me ensinasse a viver” (249), e mesmo que reafirme “ do que sou nunca saí” (262). E tudo isso, como plataforma para emergir “Sou apenas um homem//Nada mais que um homem//…//Mas a guerra que é minha//É a guerra do verde//E do mar e do pão//Do amor e do saber” (144-5), “...sempre um homem//sulcando espaços infinitos//na vastidão imensa dos destinos!” (92)

Não creio inventar se disser que, para atravessar desertos e mares, precisou de tomar o nome do avô Ventura, mestre de romeiros, e de traduzir em poemas dessacralizados as “salvas” guardadas na “gaveta dos versos do avô”. Foram o viático que permitiu que o humano, demasiado humano, de “passos de viagem” sobrevivesse em “papel a mais”, porque “inventar o que sou com o que faço//é o terreno próprio da liberdade.” (256)

E termino por onde comecei:

Era uma vez um livreiro que gostava de ler e se fez mediador de leitura, enquanto escrevia poemas para se salvar.

Queluz, 27 de Novembro de 2009

Esaú Dinis

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Amigos e «Papel a Mais» (V)

João Francisco Envia, figura muito querida dos setubalenses, por procurar, à sua maneira, preservar a memória de Setúbal e de alguns dos seus ilustres filhos, depois de ter participado na book party de Papel a Mais, em 6 de Dezembro de 2009, redigiu as singelas quadras que se publicam a seguir, pelo que significam de amizade pela figura do livreiro e poeta Manuel Medeiros. Em algumas palavras que acompanham o poema diz com simplicidade: “Amigo Manuel Pereira Medeiros, desculpe-me a falta de alinhamento deste poema, próprio da idade [90 anos], mas quis oferecer-lho, escrito por minhas já pouco seguras mãos, como uma manifestação da amizade pelo meu amigo”.

Papel a mais?

Papéis a mais não serão
Como diz Resendes Ventura
São valores que ficarão
P’ra uma geração futura.

Livreiro de grande valor
E escritor de qualidade
Poeta de coração com ardor
Poetando amor e verdade.

Este açoriano de mérito
Que Setúbal tal conquistou
Maravilhoso e feérico
Na opção que este tomou,

Esta Princesa do Sado
Bastante se valorizou
Tendo no seio tal amado
Que a ela muito a gratificou.

Manuel Medeiros, o nome
Deste carácter desejado
Celebridade de renome
Por todos solicitado.

Sabor e gosto de entender
Conhecimentos e ciência
Este ilustre tem mui saber
Define qualidade e essência.

E para esta ode terminar
E pela honra que lhe dei
Estar, em dia de livro a lançar
Maior honra, pelo que comprei.

10 – XII – 2009

João Francisco Envia

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Papel A Mais a Quatro Vozes (II)

Na sessão de 27 de Novembro de 2009, na Casa dos Açores, a Professora de Literatura Margarida Braga Neves, amiga de Manuel Medeiros e frequentadora habitual da Culsete, apresentou com grande competência – como é sempre seu timbre – e muita simpatia a «Escrita Amiga» em Papel a Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores, precisamente a parte do livro que contém os textos dos escritores amigos. É o texto então lido, que apresentamos a seguir.

Resendes Ventura, «”A constelação dos afectos”»

Cabe-me a grata função de apresentar a quinta parte do livro que aqui nos trouxe hoje. Coligida sob o sugestivo título de “Escrita amiga”, ela é antecedida por um agradecimento intitulado “Gratidão”, onde R. V. dá conta do desejo de, através destas inéditos, “homenagear a escrita e os escritores” num livro que deste modo (se) torna comum. Subjacente à pluralidade de vozes que no livro ecoam há um intenso desejo de comunidade – recordemos a propósito a fortuna da palavra comunidade em autores de linhagens tão diversas como Luiz Pacheco ou Maria Gabriela Llansol – desejo de comunidade enquanto qualidade do que é comum (a linguagem) e também desejo de comunhão, ou seja, acto ou efeito de comungar, de dar ou receber o sacramento – aqui o sacramento da palavra. E ainda participação comum, conjunto, reunião de vozes que se dispõem ao longo de um volume único embora polifónico que é simultaneamente partilha e dádiva. Porque este Papel a mais – importa sublinhar – se constrói sob o signo da partilha. Partilha daquilo que poderia permanecer apenas na esfera íntima e privada (e essa seria uma opção inteiramente legítima, embora possamos admitir que os papéis de um livreiro são sobretudo os papéis de outros), mas que aqui se dá a ver num gesto de abertura à comunidade mais ampla dos leitores, convidando-os ao diálogo que Papel a mais insistentemente convoca.

“Escrita amiga” recorta-se igualmente sobre o horizonte da amizade e da cumplicidade, e nele se coligem não apenas palavras mas também imagens, como o casal de leões de sugestão exótica da autoria do desenhador José Ruy, que constitui uma espécie de prólogo às viagens referidas ou sugeridas no primeiro núcleo de textos – o dos textos de criação em prosa ou em verso. Entre estes, e antes de mais, como que a dar o tom dos restantes, o de Matilde Rosa Araújo que reivindica a intemporalidade própria do “fraterno milagre” de uma funda amizade: “Não sei do tempo quando a amizade existe no meu coração” (p.159).

Seguem-se dois poemas de Teresa Rita Lopes, o segundo dos quais, intitulado “A constelação dos afectos”, bem poderia servir de mote a esta secção dos Papéis de um livreiro. Também o poema se coloca sob o signo do Cronos, o tempo devorador, o que explica a tonalidade melancólica causada por esse tempo veloz que passa e pesa sobre o corpo “cada vez mais escravo da lei da gravidade”, não dando ensejo para “cumprir vagarosamente sabiamente/ todas as fases que nos conduziriam à serenidade” (p.162). E assim “À idade do fogo/ das paixões devia seguir-se a da água e a do ar”, mas na realidade o que se segue é “a sombria fase das cinzas” inexorável declive face à infância plena de inocência e de papagaios de papel.

Também o contributo de Maria Alberta Menéres assume a forma da poesia. O poema tem por título “Que mar?” e inicia-se com os seguintes versos: “Uma janela aberta para longe/ [que] desperta em nós o dom de perguntar.” (p.166). Perguntar pela caravela, pelo pescador atento, pelo bando de gaivotas e, finalmente, pela água que “sendo a mesma, afinal,/ varia por ser igual” (p.167). Perguntar enfim para poder navegar porque “a navegar/se aprende a não vergar/ à força da miragem”. Mas, afinal, a verdadeira viagem, matriz de todas as viagens, é a infindável viagem interior: “Com vento de feição/ é por dentro da gente/ que prossegue a viagem” (p.168).

De Luísa Ducla Soares o breve poema intitulado “Há uma ilha” sobre uma ilha “no meio do papel/ com o seu vento/ mar e solidão”, a ilha onde, por acaso ou talvez não, mora um homem que nos faz lembrar alguém que muito bem conhecemos: um homem que “Vende livros/ou faz os sonhos/voarem/ de mão em mão?” (p.169).

É também de viagem, do gosto pela aventura no fulgor incandescente da juventude que falam, dois poemas em prosa de Silva Duarte, respectivamente “ A casa verde [1]” e a sua versão revista e aumentada “A casa verde [2]”. Casa de cujo telhado – e é de notar aqui o movimento ascendente – se abrangia “a cidade clara de cores e o rio luminoso que a banhava com amor súbdito” (p.172), cidade e rio que constituem uma antevisão dos horizontes rasgados do vasto mundo, entrevisto a partir do miradouro situado no terraço da casa, patamar das múltiplas viagens a haver: “Grande era o balançar da tua alma de navegante drapejavam as velas com fúria e teu braço vogava dum lado para o outro no terraço” (p.174).

Por seu lado n’ “O livreiro de Esmirna”, de Avelino Sousa, o impulso para a viagem consubstancia-se num verdadeiro corpo-a-corpo com a Turquia, que é aqui sinédoque do Oriente. Estamos perante o relato pormenorizado da chegada matinal de um vendedor de livros que se assemelha estranhamente a “um rolo de pergaminho” e que, depois de descer da motoreta azul a desconjuntar-se, monta a sua banca às portas do mercado. Arrumados os livros fica “embebido nos seus pensamentos” (p.177), mergulhado numa longa cisma de que o desperta “algum raro cliente”. No final, “Talvez se acabe por transformar em livro. Era uma morte que ele certamente almejaria: ser um livro”.

O contributo de Urbano Tavares Rodrigues é composto por uma breve evocação do arquipélago: são os “Açores do meu encantamento”. A magia, o mistério e a atmosfera nostálgica perfilam-se sobre as neblinas baixas das ilhas e da “cidadezinha milagrosa de Angra do Heroísmo” (p.179), aqui invocadas sob o signo da literatura, remetendo para leituras que deixaram um sulco indelével na memória do Autor – sulco onde afloram os nomes de Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio e João de Melo (curiosamente o nome de Raul Brandão não é referido, mas tratar-se-

-á talvez de um lapso freudiano...). São estes autores, mais os rostos, palavras e vozes de amigos, os “Açores do meu encantamento, onde tão lentamente cresce a árvore da vida e a água, sob a chuva, tem o perfume da melancolia.” (p.180).

Segue-se um breve poema de Eduíno de Jesus intitulado “Último edital”, em que o tempo se cumpre voraz.

Breve é também o contributo de Urbano Bettencourt, intitulado precisamente “Breves & brevíssimas”, três fragmentos em que aflora um humor fino e corrosivo sobre aquilo que podemos designar ironicamente como mundo literário, ou, talvez mais exactamente, uma vida literária feita de chavões e de lugares-comuns.

O texto de Onésimo Teotónio Almeida, “Companheiro de jornada”, é o testemunho, sob forma epistolar, de uma longa amizade iniciada ainda nos anos cinquenta, no seminário de Angra, e nas lides desse período de aprendizagem e de partilha de experiências e de pessoas, que recorda sem traumas e com carinhosa bonomia. Na clausura desses anos de afectos um lugar se avoluma, espaço de liberdade porque lugar de conhecimento. Referimo-nos, como é bom de ver, à biblioteca do Seminário: “meu favorito lugar de aprendizagem no meio de velharias ressuscitadas do pó», como diz Onésimo (p.186). Mas os encontros entre Onésimo e Resendes Ventura prosseguiram, sempre pontuados pelos livros: primeiro nas livrarias de Ponta Delgada, depois já em Lisboa onde vem encontrar o amigo “mergulhado em livros”, de tal modo que lhe apeteceu pedir-lhe “emprego para poder desfrutar deles nos intervalos de atendimento aos clientes, como me pareceu que tu fazias” (p.187). Segue-se uma nova etapa no relacionamento entre ambos, desta feita em Setúbal onde começa a esboçar-se uma posição radicalmente antagónica:” Tu vendendo livros para viver, embora querendo ficar com eles, e eu comprando-os para sobreviver.” (p.188). E a concluir, de novo o contraponto, entre o professor preso a pilhas de volumes, enquanto o livreiro fica cada vez mais livre porque os espalha num gesto que tem muito de partilha: “Tu ao menos foste distribuindo livros por Setúbal inteira espalhando o perfume das flores pela cidade. Tu podes por isso Sorrir esta certeza.» (p.188).

O segundo núcleo de “Escrita amiga” é composto por duas cartas. A primeira é uma carta do poeta Armando Côrtes-Rodrigues – um dos de Orpheu, aí tendo publicado com o pseudónimo de Violante de Cisneyros – a um irmão de Manuel Medeiros, agradecendo-lhe o convite para a Papelaria Xavier, onde, afirma, passou um dos melhores dias da sua vida. A segunda é uma carta de Sebastião da Gama a Manuel Botas [Manuel Valente], carta a um ex-aluno encorajando-o a aproximar-se de uma jovem gentil e delicada, o que nos traz ao terceiro e último núcleo desta secção que tem como figura polarizadora Sebastião da Gama.

Sebastião da Gama, cuja evocação ocorreu na Primavera de 1986, em Setúbal, Estremoz e Serra da Arrábida, e é composta pelos testemunhos de dois condiscípulos na Faculdade de Letras de Lisboa – sobre Sebastião da Gama pedagogo por Maria de Lourdes Belchior e sobre Sebastião da Gama poeta por Fausto Lopo de Carvalho, que nele inclui um poema inédito de 1946. A concluir esta quinta parte de Papel a mais, a belíssima oração lida por Matilde Rosa Araújo na mesma sessão de homenagem ao autor de Pelo sonho é que vamos. Deste modo se acentua a luminosa teia de afectos potenciada pelo efeito de continuidade e de circularidade entre o texto de abertura e o de fecho, ambos de Matilde Rosa Araújo – ligados pela poesia e pela vocação pedagógica que dela emana.

A oração leva por título “Sebastião, a que é que sabe a vida?” e nela Matilde Rosa Araújo olha para trás e nesse olhar retrospectivo colhe a presença frágil, mas inteira e ao mesmo tempo luminosa de Sebastião da Gama, prematuramente desaparecido aos 27 anos, para exaltar a juventude e o júbilo que dele irradiavam: “ Eras moço não pela idade mas porque em ti havia a aventura da vida, uma aventura feita de ventura que caminhava sobre o abismo. Era essa a tua alegria.” (p.201). A alegria contagiante de Sebastião poeta e de Sebastião professor porque ambos eram um só: “Sebastião, ser poeta e ser professor foram duas vertentes serenas mas apaixonadas do teu amar, do teu estar com os outros.” (p.203). Memória ainda do ser criança e do ser jovem nas volutas de uma caligrafia que tarda a desprender-se da infância: “Era tão lindo o trazer-nos os teus versos! Com que ternura eles vinham escritos naquela caligrafia clara de curvas de afectos com algo ainda de mão de menino» (p.203). Uma comunhão com a poesia que, segundo Matilde Rosa Araújo, o crescimento e a escola vão corroendo e que urge por isso contrariar. Porque “hoje, a tua lição continua. O tal núcleo poético de que tu foste corajosamente a lição viva, todos os dias.”(p.207). Nessa celebração do “núcleo poético da pessoa humana” se contém o essencial da lição de Sebastião da Gama – lição maior perfilhada pelo autor do livro que nos reúne aqui hoje e que por ela se vem batendo com denodo e galhardia.

Margarida Braga Neves

Novembro de 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Amigos e «Papel a Mais» (IV)

Artur Goulart, amigo e companheiro de Manuel Medeiros desde a infância, acompanhando desde sempre as suas actividades, também ele homem da escrita, apesar de ter dado a outras artes (e continuar a fazê-lo) o melhor da sua energia, empenho e tempo, esteve nas duas sessões de apresentação de Papel a Mais, não sem algum sacrifício pessoal, como está habitualmente e desde sempre nos encontros, lançamentos e outros momentos de animação do livro na Culsete. Sempre em companhia da Isabel, claro. Ainda na noite do passado dia 6 de Dezembro, sob o efeito do convívio em que participou activamente, escreveu esta belíssima crónica.

Apresentação de Papel a Mais na Culsete

Caros bloguers,

Chegados a Évora, após o Book Party da Culsete, de que já terão visto as primeiras imagens no respectivo blogue, já jantados, postos em dia telefonemas e e-mails urgentes, eis-me a dar notícias. Entrámos na Culsete, vindos de Évora, cerca das 16 horas. Caía uma chuvinha miúda e impertinente, muito animadora para um interior aconchegado. A Culsete expandida ao máximo com o corredor central e o espaço lateral frente ao balcão. Cadeiras não em filas mas ao redor dos espaços preparadas quiçá para um tête-a-tête. Junto à montra, uma mesa baixa com o Moscatel, os refrescos, os doces e os secos. Começou a chegar gente de Setúbal, e não só, e a casa foi enchendo. Reconheci o premiadíssimo poeta Helder Moura Pereira, a arquitecta Teresa Almeida, a popular ex-vereadora da cultura Paula Costa, o jornalista Américo Brito, o fotógrafo Humberto de Sousa, a médica e feminista Anita Vilar [que acabou de terminar a sua antologia sobre Mariana Angélica de Andrade, a mulher de Cândido de Figueiredo], João Envia, o decano escritor e divulgador das glórias de Setúbal, Victor Serra, fundador e grande animador do Círculo Cultural de Setúbal, Luis Guerra, da Assírio e Alvim e, claro, o editor da Esfera do Caos, Francisco Abreu. Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros, Viriato Soromenho Marques, Jaime Gama e Alda Taborda, Carlos Frescata e Carlos Faria chegaram a meio do Party, assim como Margarida Braga Neves, uma das apresentadoras do livro em Lisboa. Dos mucifalenses, além de mim e da Isabel, o Antonino Ávila, o Costa Garcia e, já perto do intervalo, o Olegário e a São, e o Bartolomeu. Já agora, antes do começo, apareceu um antigo colega meu de Roma, Carlos Dinis Cosme, reformado e ex-director do Arquivo Distrital de Setúbal. Veio ao livro, e já com ele debaixo do braço teve de sair para esperar a mulher que vinha de viagem. Entretanto, o Manuel ia dando autógrafos. Damião foi, como de costume, o fotógrafo de serviço, muito bem assessorado pela Hélia. A Patrícia estava às vendas.

Às 16,50, a Fátima deu início ao acontecimento, e digo acontecimento porque, de quanto disse, tudo iria acontecendo, sem alinhamento definido, sem mesa de honra, apenas ao fundo da sala o livreiro/autor com o inseparável chapéu (sem bengala). Começou com chave de oiro, a Ana Júlia, acompanhada à viola pelo marido, o Henrique, cantou com a sua bela e sentida voz uma sua composição com poema do pai – Curta e Breve – do livro Mãe d' Alma (p. 25).

Coube-me entrar em cena em segundo lugar. Resumo: Como amigo e companheiro de muitas lides durante o tempo do Seminário, seria sempre suspeito de cair no elogio fácil. Apesar disso, enalteci o livro, sobretudo a história de uma vida / livraria, com inúmeros convites à reflexão sobre os livros, a leitura, as livrarias, os livreiros. Da poesia, convidei à leitura para poderem apreciar a qualidade do poeta. Reclamei por ele se chamar livreiro velho, porque ele, Manuel Medeiros, pode ser velho e continuará a sê-lo, mas o livreiro, não. Esse, quando o é verdadeiramente, como é o caso, é sempre um ressuscitado, porque com os livros só transmite vida, nada de envelhecimentos. A Isabel leu o final de um poema do Manel a corroborar tal facto. Terminei com a leitura do final de uma crónica que escrevi em 2001, a propósito do Manuel, com o título «Ser Livreiro».

Um setubalense, figura carismática do meio, homem do teatro e das letras, Luis Filipe Estrela, leu com correcto vigor um poema do Manuel. Depois, o popular artista do TAS Fernando Guerreiro declamou outro poema, que foi distribuído em folhas volantes que nos aguardavam na livraria, poema publicado em Mãe d’Alma com o título «Foi um sonho» (p. 71), que o poeta alterou um pouco.

CORAGEM DE VIVER
Poema de entre 15 e 6

De nada e o nosso amor fizemos tudo quanto
das nossas mãos nasceu e foi um sonho

Agora que nos queimem e sepultem
esses restos mortais que desprezamos
cercados de leis e de jogadas
sensato respeitar conveniências
estritos cumprimentos do dever

Sem nada e o nosso amor se é que tivermos
de abraçar nossos filhos e o dia
de dar nosso desejo pequenino
ao grande coração da vida-o-mar

talvez seja verdade que ser livre é ter
coragem de viver nosso momento e acabar
tão pobres nus e mais pequenos
do que fomos à hora de nascer

R. V.

Por dedicação à Fátima
na Book Party de Papel a Mais
Setúbal, 6 de Dezembro de 2009/AV

A Fátima leu um e-mail dum amigo do Manuel, António Cravo, escrito de propósito para este Book Party [texto já publicado neste blogue] e que lhe tecia rasgados elogios como poeta / livreiro. O Manuel fechou a primeira parte com breves apontamentos sobre cada um dos intervenientes.

Intervalo para os comes e bebes e para mais autógrafos. Entretanto, como já disse, chegaram o Olegário e o Bartolomeu mai-la a sua guitarra. Muita conversa e, afianço aos meus amigos que, tal como prometera, bebi um cálice (?) de Moscatel por cada um dos clubistas ausentes. Quando saírem as fotos terão a prova disso.

Recomeçou com uma excelente voz setubalense, Irene Costa, habituée das sessões da Culsete, a cantar «O Rio Azul», considerado por muitos o Hino de Setúbal, acompanhada, por fim, por alguns dos presentes. O Manuel falou do Jaime Gama e dos tempos idos de Ponta Delgada, com algumas referências inéditas. Seguiu-se o Bartolomeu com várias das suas canções. Chamou o Olegário para cantar «A Saudade» de São Jorge como ele bem sabe. Carlos Almeida Santos, um advogado que viveu algum tempo em Angra, com uma boa voz cantou «O meu bem», terceirense. O Manuel, já pela assistência, em conversa com uma senhora setubalense e, a propósito do que foi dizendo, o Olegário recitou o poema «Horizonte» (p.273).

HORIZONTE

se escrevo uma palavra
sem sequer saber quem sou
entenderei o que ela diz
ou em que rio vou
e que apelo é este apelo
que me leva
a que mar?

escrevo sem escrevê-la
esta palavra que inscrevo
no intento de entendê-la

que apelo fez rio a água
apelo que a faz correr
que não é água nem rio
nem sou eu nem quanto escrevo?

há mistério no meu rio
o mistério de assim ser
sem um antes ou depois
da condição de correr

neste mistério a palavra
que escrevo sem escrevê-la?
nele é que sou e escrevo
mesmo sem saber quem sou?

apelo que dá o ser
esconde o nada que sou
já meu rio o revelou
no perto que está da foz

mas que nome tem o mar
a que não vai e eu vou?

nasci num mar que me deu
um horizonte sem fim
nunca ninguém respondeu
melhor do que ele às perguntas
que nascem dentro de mim

Tudo terminou com mais autógrafos, onde o livreiro / poeta com a sua bela caligrafia foi lançando amáveis dedicatórias pelo rosto dos livros.

Com pena, tivemos que ir embora e muitos outros foram saindo, como já previa o esquema organizativo da festa, de outra forma não teriam podido entrar todos os que estiveram na Culsete. Uma calorosa e emotiva festa com gente e livros. E termino com uma frase do mestre livreiro poeta: "como se está bem aqui e como é verdade que isto aqui está a ser uma pequena livraria onde se vive e convive em livraria" (p. 240).

Abraços para todos

Artur Goulart

Fotografias da Book Party

É agora a vez de apresentar as fotografias da Book Party Papel a Mais que decorreu na Livraria Culsete, em 06 de Dezembro de 2009.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fotografias do Lançamento na Casa dos Açores

Apresentamos finalmente as fotografias do lançamento do Papel a Mais, na Casa dos Açores, em 27 de Novembro de 2009.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Amigos e «Papel a Mais» (III)

Vindo de Murtosa, chegou até à organização da book party o texto que agora se publica e que foi lido durante a apresentação em Setúbal do livro Papel A Mais. O seu autor, António Cravo, é um setubalense há muito radicado na zona de Aveiro, mantendo o contacto com a sua terra através de livros, blogues e da Culsete. Manuel Medeiros ouviu-o com emoção.

Carta a Manuel Medeiros em 6 de Dezembro de 2009

Caro Manuel, entre nós diz-se poeta aquele que publica poesia, não o que fez um poema de toda a sua vida. Por isso o Manuel poderia não ser poeta na asserção comum do termo, mas é certamente “o poeta”. Inventou uma nova profissão: agricultor de livros/semeador de palavras.

Mas, será só poeta aquele que publicou obra admirada e premiada, muita? Mais uma vez, o Manuel, do pouco que publicou, em duas simples estrofes, revela o quão grande é. Imensa a dimensão do poeta quando escreve:

“Nestas mãos vazias

trago a vida toda”

ou

“Tenho só

Este corpo

Para ser”

Bela sementeira, Manuel. Nada mais precisava escrever para que o seu nome ficasse para sempre ligado à memória de quem ama poesia. São palavras gravadas a cinzel fino no mármore branco da memória, esse onde retemos o que mais amamos depois de muito ter lido.

Num livro onde poderia inscrever o seu nome, sobejamente conhecido, preferiu remeter para as suas raízes o nome do autor: o apelido do avô materno e do paterno. Somados, fazem o Manuel maior ainda.

Papel a mais, sim, mas o que sobra para além das letras.

Deixe-me sonhar, Manuel, imaginar um livro de poemas, com folhas ajustadas ao espaço ocupado pelas palavras. Um livro poupadinho, o livro ele próprio poema. Impossível hoje? Sim. Insonhável? Fica o desafio.

Não me sendo possível estar consigo hoje fisicamente, acredite, Manuel, que está comigo, não sei até quando. Certamente nos encontraremos, nessa terra que é minha e tão sua fez que, mais que filho, irmão de Setúbal será.

Queria terminar dizendo que há homens que conhecemos assim sobre o tarde e que amanhecem os dias onde não estiveram connosco.

Abraço e silêncio. Tudo o mais é emoção.

O seu amigo

António Cravo

domingo, 6 de dezembro de 2009

Book Party terminou… Por hoje!

A noite caiu e já terminou, por hoje, a festa dedicada ao Papel a Mais. A casa esteve cheia e o RV apreciou. A sua feição disse tudo… Obrigado a todos.

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A «Pó dos Livros» na Book Party

Jaime Bulhosa (ao centro na fotografia), da Pó dos Livros, e Luís Guerra, da Assírio e Alvim, tal como outros amigos, vieram à Book Party cumprimentar o Livreiro Velho, o tal, o Manuel Pereira, também o Manuel Medeiros e já agora também o Resendes Ventura.

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Bartolomeu Dutra ao vivo na Book Party

Bartolomeu Dutra, músico picoense, actuou na Book Party.

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RV autografa na Book Party

Tem o seu exemplar à mão? RV está com a sua caneta na mão.

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Comes e bebes no Book Party

Aqui trata-se da alma mas também do corpo. Que comece o convívio…

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Música na Book Party

A Ana Júlia e o Henrique acabam de actuar. Do poema de RV “Curta e breve”…

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Book Party em directo

A Book Party Papel a Mais já está a decorrer.

Lá fora chove mas aqui dentro há festa e está quente.

Ainda aí está? Venha com calma mas não demore porque não tarda a casa estará cheia.

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Papel a Mais a Quatro Vozes (I)

Prometemos publicar neste blogue os quatro textos que foram lidos durante a apresentação de Papel a Mais, no passado dia 27 de Novembro, na Casa dos Açores. Vamos começar a fazê-lo hoje, não pela ordem em que foram lidos, mas à medida que nos vão chegando. O primeiro a apresentar-se é o texto do livreiro sensação do momento, Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros, lido na sessão pelo dinâmico amigo Luís Guerra, da Assírio & Alvim. Faltam os gestos, os olhares, a entoação, que tanto os enriqueceram. Mas ficam as palavras e os múltiplos significados que encerram.

NA PROFISSÃO

É contrariado e com desgosto, pelas razões que já devem ter sido explicadas, que não posso estar presente na apresentação do livro Papel a Mais, não podendo deste modo homenagear, presencialmente como gostaria, Manuel Medeiros, um homem da cultura e grande mestre livreiro.

Na profissão de livreiro, como na vida, devemos ter pontos de referência, exemplos que, pelas suas características e qualidades extraordinárias, devemos tentar seguir. Manuel Medeiros é para mim, sobretudo enquanto livreiro, um desses modelos. Embora não tenha tido o privilégio de trabalhar directamente com ele, sempre, e durante toda a minha vida de livreiro, ouvi o seu nome e o seu trabalho ser repetidamente evocado como o paradigma daquilo que é e deve ser um livreiro.

Devo recordar: – Ainda eu não sabia ler e já Manuel de Medeiros era livreiro.

O que é e deve ser, então, um livreiro?

A resposta a esta pergunta é fácil, se eu puder responder simplesmente: um livreiro deve ser aquilo que Manuel Medeiros é.

Se calhar, é melhor eu explicar isto a quem não é do meio.

Se atendermos apenas à definição, redutora, de que um livreiro é aquele que vende livros, então, não valeria a pena estarem aqui. Eu acrescentaria, por oposição a esta ideia, a de que um livreiro não vende livros. O livreiro vende: aventuras, viagens e A Volta ao Mundo em Oitenta Dias; continentes, países e Cidade Proibida; romances, paixões, dramas e Sexus; pré-história, história, idade média e A Divina Comédia; batalhas, Guerra e Paz; reis, rainhas, O Príncipe e O Conde de Monte Cristo; pintores, escultores e O Arquitecto; música, versos e poemas; sonhos, auto-ajuda, artes divinatórias e outras mentiras; constituições, leis, decretos-lei e portarias. Tudo isto e muito mais, numa pequena caixa chamada livro.

No entanto, um livreiro não pode ter como finalidade única o comércio, seja ele de livros ou de outra coisa qualquer, nem perseguir apenas o lucro na sua actividade profissional. Como Manuel Medeiros diz no seu livro Papel a Mais, que neste momento está a ser apresentado, e cito, «entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro», isto é, e volto a citar, «o escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro “publica” a leitura». É nesta última finalidade, a da «publicação da leitura» – que, por extenso, quer dizer promoção, divulgação e incentivo da leitura na persecução da criação de novos leitores –, que o livreiro (se pretender reclamar para si um papel importante como agente cultural), também tem de se focar. Doutra forma não será um livreiro, mas apenas um comerciante de livros, com toda a consideração que este possa merecer. Se assim for, não contribui de forma decisiva, como deve ser sua obrigação profissional, para o aumento e melhores hábitos de leitura, tão necessários à nossa sociedade. Manuel Medeiros explica a ideia com uma frase, que eu considero fundamental, e passo a citar: «Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram. Esta lei projectada na leitura colectiva permite ver quanto tempo leva uma recuperação profunda dos níveis de leitura numa sociedade». - Podemos concluir, perante este raciocínio, que ainda temos muito trabalho pela frente, mas essa é outra história e não cumpre agora desenvolvê-la.

Continuando. O livreiro é um autodidacta: ainda não há nenhum curso que o possa formar. Ou seja, claro que se pode e deve dar formação a uma pessoa que quer trabalhar numa livraria ou que, enquanto gestor ou empresário, pretende criar uma livraria. Porém, ser livreiro é outra coisa. Para se ser livreiro é necessário muito mais, como já afirmámos, do que simplesmente saber vender livros (para isso existem alguns truques e cursos) – tem de se saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, ler o interior de muitos, interessar-se por quem os escreve e porque os escreve daquela maneira. Tem de se conhecer toda a cadeia do livro, desde que nasce na mão do autor até chegar à mão do leitor, tem de se saber, por fim, vendê-lo honestamente.

Posto isto, é possível entender porque é que muitas vezes se diz que já não há livreiros como antigamente, ou que são uma espécie em vias de extinção, ou que as grandes superfícies acabaram com eles, ou que o «livreiro» que nos atendeu não sabe o que está a fazer, etc., etc. De facto, tudo isto é verdade. Mas acontece, simplesmente, porque o livreiro é uma figura rara, difícil de encontrar, e mais ainda agora que o retalho livreiro que desde há vinte anos não pára de crescer não foi acompanhado, como devia ter sido, de forma proporcional, pela criação e formação de novos livreiros, no sentido que a palavra «livreiro» deve ter. Por isso afirmo, com muita pena e para mal dos índices de leitura deste país: existiram, existem e continuarão a existir (se nada se fizer em contrário) muito poucos livreiros como Manuel Medeiros que, ao contrário de muitos, tem cumprido a sua função de livreiro, exemplarmente, ao longo de 40 anos, divulgando o livro, criando novos e jovens leitores, melhores hábitos de leitura e maior desenvolvimento cultural para Portugal.

Obrigado pelo exemplo.

O aprendiz de livreiro

Jaime Bulhosa

Amigos e «Papel a Mais» (II)

É  agora a vez de Olegário Paz, activo colaborador do blogue de Manuel Medeiros Chapéu e Bengala, enviar o seu testemunho sobre o lançamento de Papel a Mais no dia 27 de Novembro, na Casa dos Açores. Obrigado. Volte sempre!

Lançamento de Papel a Mais

Papel a Mais teve, ontem, Sexta-feira, uma estreia de arromba. Mucifal em peso, inclusive o Weber que tinha vindo a Lisboa participar numa homenagem a Melo Antunes. E não só, pois lá estava boa parte do pessoal que costuma ir às actividades semanais da Casa dos Açores e muitos setubalenses amigos de Manuel, além de gente ligada ao mundo da edição, escritores, editores e outros agentes do meio do livro. Abriu e conduziu a sessão Paulo Enes da Silveira em nome do presidente, e foram tomando a palavra uns após outros, o editor Francisco Abreu, Eduíno de Jesus, Margarida Braga Neves, Luís Guerra que haveria de ler um interessante texto do livreiro Jaime Bulhosa, retido em casa por questões de saúde, acolitados pelo Simas com leitura de poemas que seleccionou, e o Esaú Dinis a pedido de quem também eu li as três pequenas poesias que sendo das primeiras que Manuel Pereira compôs atravessaram o tempo e chegaram a Papel a Mais, pela mão de Resendes Ventura. Explorando mais este ou aquele aspecto do livro, a tónica comum foi o comprazimento pela sua publicação. No fim, o ‘velho livreiro’ agradeceu sensibilizado a todos, desde os presentes na sessão de lançamento aos que colaboraram no livro e tudo fizeram para que fosse publicado, em especial à Fátima Medeiros, sua mulher.

Uma pequena nota de pormenor: Esaú, abriu e fechou o seu discurso com a frase «Era uma vez um livreiro que gostava de ler e se fez mediador da leitura, enquanto escrevia poemas para se salvar» e confessou, à maneira de introdução. «Aceitei a incumbência de descobrir, entre os papéis de um livreiro, elementos que revelassem a persistência de um tempo que ficou lá atrás, semeado nas décadas de 50 e 60, e lá longe em terra e mar dos Açores, tendo por eixo principal o “banho de fraternidade”, que Manuel Pereira, que não Resendes Ventura, viveu, em boa companhia, no Seminário de Angra.»

Olegário Paz

BOOK PARTY «PAPEL A MAIS»

6 de Dezembro, Domingo, entre as 16 e as 19 horas

Na Livraria Culsete

capa Papel a Mais, o livro de Resendes Ventura, o alter-ego do livreiro Manuel Medeiros, está a despertar cada vez maior interesse. Depois do lançamento em Lisboa, chegou a vez dos leitores setubalenses poderem senti-lo e lê-lo juntos. Por estarmos em período festivo decidimos organizar uma book party no espaço da Culsete, no próximo dia 6 de Dezembro, Domingo, entre as 16 e as 19 horas. Convidamo-lo, pois, a aparecer e a trazer amigos e, em clima informal, folhear, ler e ouvir ler Papel a Mais, trocar opiniões e pontos de vista, pedir um autógrafo ao autor e conversar com ele, tomar uma bebida, trincar qualquer coisa, posar para uma foto, ouvir música, passar os olhos e as mãos por outros livros, sentir a pulsação de uma livraria aberta só para viver a festa do aparecimento do novo livro do livreiro.

Culsete, Av. 22 de Dezembro, 23 A/B, Setúbal; Telf.: 265526698; e-mail: culsete@iol.pt