segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Amigos e «Papel a Mais» (III)

Vindo de Murtosa, chegou até à organização da book party o texto que agora se publica e que foi lido durante a apresentação em Setúbal do livro Papel A Mais. O seu autor, António Cravo, é um setubalense há muito radicado na zona de Aveiro, mantendo o contacto com a sua terra através de livros, blogues e da Culsete. Manuel Medeiros ouviu-o com emoção.

Carta a Manuel Medeiros em 6 de Dezembro de 2009

Caro Manuel, entre nós diz-se poeta aquele que publica poesia, não o que fez um poema de toda a sua vida. Por isso o Manuel poderia não ser poeta na asserção comum do termo, mas é certamente “o poeta”. Inventou uma nova profissão: agricultor de livros/semeador de palavras.

Mas, será só poeta aquele que publicou obra admirada e premiada, muita? Mais uma vez, o Manuel, do pouco que publicou, em duas simples estrofes, revela o quão grande é. Imensa a dimensão do poeta quando escreve:

“Nestas mãos vazias

trago a vida toda”

ou

“Tenho só

Este corpo

Para ser”

Bela sementeira, Manuel. Nada mais precisava escrever para que o seu nome ficasse para sempre ligado à memória de quem ama poesia. São palavras gravadas a cinzel fino no mármore branco da memória, esse onde retemos o que mais amamos depois de muito ter lido.

Num livro onde poderia inscrever o seu nome, sobejamente conhecido, preferiu remeter para as suas raízes o nome do autor: o apelido do avô materno e do paterno. Somados, fazem o Manuel maior ainda.

Papel a mais, sim, mas o que sobra para além das letras.

Deixe-me sonhar, Manuel, imaginar um livro de poemas, com folhas ajustadas ao espaço ocupado pelas palavras. Um livro poupadinho, o livro ele próprio poema. Impossível hoje? Sim. Insonhável? Fica o desafio.

Não me sendo possível estar consigo hoje fisicamente, acredite, Manuel, que está comigo, não sei até quando. Certamente nos encontraremos, nessa terra que é minha e tão sua fez que, mais que filho, irmão de Setúbal será.

Queria terminar dizendo que há homens que conhecemos assim sobre o tarde e que amanhecem os dias onde não estiveram connosco.

Abraço e silêncio. Tudo o mais é emoção.

O seu amigo

António Cravo

2 comentários:

  1. Um belo texto do meu amigo António Cravo!
    Viva a poesia, o texto, a escrita, os livros, a cultura, a educação...o papel a mais!!!

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  2. Li este trecho de António Cravo, piano, piano, e gostei muito. O Manuel Medeiros merece-os - ao texto e ao autor, seu amigo.
    André Moa

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