sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Amigos e «Papel a Mais» (IV)

Artur Goulart, amigo e companheiro de Manuel Medeiros desde a infância, acompanhando desde sempre as suas actividades, também ele homem da escrita, apesar de ter dado a outras artes (e continuar a fazê-lo) o melhor da sua energia, empenho e tempo, esteve nas duas sessões de apresentação de Papel a Mais, não sem algum sacrifício pessoal, como está habitualmente e desde sempre nos encontros, lançamentos e outros momentos de animação do livro na Culsete. Sempre em companhia da Isabel, claro. Ainda na noite do passado dia 6 de Dezembro, sob o efeito do convívio em que participou activamente, escreveu esta belíssima crónica.

Apresentação de Papel a Mais na Culsete

Caros bloguers,

Chegados a Évora, após o Book Party da Culsete, de que já terão visto as primeiras imagens no respectivo blogue, já jantados, postos em dia telefonemas e e-mails urgentes, eis-me a dar notícias. Entrámos na Culsete, vindos de Évora, cerca das 16 horas. Caía uma chuvinha miúda e impertinente, muito animadora para um interior aconchegado. A Culsete expandida ao máximo com o corredor central e o espaço lateral frente ao balcão. Cadeiras não em filas mas ao redor dos espaços preparadas quiçá para um tête-a-tête. Junto à montra, uma mesa baixa com o Moscatel, os refrescos, os doces e os secos. Começou a chegar gente de Setúbal, e não só, e a casa foi enchendo. Reconheci o premiadíssimo poeta Helder Moura Pereira, a arquitecta Teresa Almeida, a popular ex-vereadora da cultura Paula Costa, o jornalista Américo Brito, o fotógrafo Humberto de Sousa, a médica e feminista Anita Vilar [que acabou de terminar a sua antologia sobre Mariana Angélica de Andrade, a mulher de Cândido de Figueiredo], João Envia, o decano escritor e divulgador das glórias de Setúbal, Victor Serra, fundador e grande animador do Círculo Cultural de Setúbal, Luis Guerra, da Assírio e Alvim e, claro, o editor da Esfera do Caos, Francisco Abreu. Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros, Viriato Soromenho Marques, Jaime Gama e Alda Taborda, Carlos Frescata e Carlos Faria chegaram a meio do Party, assim como Margarida Braga Neves, uma das apresentadoras do livro em Lisboa. Dos mucifalenses, além de mim e da Isabel, o Antonino Ávila, o Costa Garcia e, já perto do intervalo, o Olegário e a São, e o Bartolomeu. Já agora, antes do começo, apareceu um antigo colega meu de Roma, Carlos Dinis Cosme, reformado e ex-director do Arquivo Distrital de Setúbal. Veio ao livro, e já com ele debaixo do braço teve de sair para esperar a mulher que vinha de viagem. Entretanto, o Manuel ia dando autógrafos. Damião foi, como de costume, o fotógrafo de serviço, muito bem assessorado pela Hélia. A Patrícia estava às vendas.

Às 16,50, a Fátima deu início ao acontecimento, e digo acontecimento porque, de quanto disse, tudo iria acontecendo, sem alinhamento definido, sem mesa de honra, apenas ao fundo da sala o livreiro/autor com o inseparável chapéu (sem bengala). Começou com chave de oiro, a Ana Júlia, acompanhada à viola pelo marido, o Henrique, cantou com a sua bela e sentida voz uma sua composição com poema do pai – Curta e Breve – do livro Mãe d' Alma (p. 25).

Coube-me entrar em cena em segundo lugar. Resumo: Como amigo e companheiro de muitas lides durante o tempo do Seminário, seria sempre suspeito de cair no elogio fácil. Apesar disso, enalteci o livro, sobretudo a história de uma vida / livraria, com inúmeros convites à reflexão sobre os livros, a leitura, as livrarias, os livreiros. Da poesia, convidei à leitura para poderem apreciar a qualidade do poeta. Reclamei por ele se chamar livreiro velho, porque ele, Manuel Medeiros, pode ser velho e continuará a sê-lo, mas o livreiro, não. Esse, quando o é verdadeiramente, como é o caso, é sempre um ressuscitado, porque com os livros só transmite vida, nada de envelhecimentos. A Isabel leu o final de um poema do Manel a corroborar tal facto. Terminei com a leitura do final de uma crónica que escrevi em 2001, a propósito do Manuel, com o título «Ser Livreiro».

Um setubalense, figura carismática do meio, homem do teatro e das letras, Luis Filipe Estrela, leu com correcto vigor um poema do Manuel. Depois, o popular artista do TAS Fernando Guerreiro declamou outro poema, que foi distribuído em folhas volantes que nos aguardavam na livraria, poema publicado em Mãe d’Alma com o título «Foi um sonho» (p. 71), que o poeta alterou um pouco.

CORAGEM DE VIVER
Poema de entre 15 e 6

De nada e o nosso amor fizemos tudo quanto
das nossas mãos nasceu e foi um sonho

Agora que nos queimem e sepultem
esses restos mortais que desprezamos
cercados de leis e de jogadas
sensato respeitar conveniências
estritos cumprimentos do dever

Sem nada e o nosso amor se é que tivermos
de abraçar nossos filhos e o dia
de dar nosso desejo pequenino
ao grande coração da vida-o-mar

talvez seja verdade que ser livre é ter
coragem de viver nosso momento e acabar
tão pobres nus e mais pequenos
do que fomos à hora de nascer

R. V.

Por dedicação à Fátima
na Book Party de Papel a Mais
Setúbal, 6 de Dezembro de 2009/AV

A Fátima leu um e-mail dum amigo do Manuel, António Cravo, escrito de propósito para este Book Party [texto já publicado neste blogue] e que lhe tecia rasgados elogios como poeta / livreiro. O Manuel fechou a primeira parte com breves apontamentos sobre cada um dos intervenientes.

Intervalo para os comes e bebes e para mais autógrafos. Entretanto, como já disse, chegaram o Olegário e o Bartolomeu mai-la a sua guitarra. Muita conversa e, afianço aos meus amigos que, tal como prometera, bebi um cálice (?) de Moscatel por cada um dos clubistas ausentes. Quando saírem as fotos terão a prova disso.

Recomeçou com uma excelente voz setubalense, Irene Costa, habituée das sessões da Culsete, a cantar «O Rio Azul», considerado por muitos o Hino de Setúbal, acompanhada, por fim, por alguns dos presentes. O Manuel falou do Jaime Gama e dos tempos idos de Ponta Delgada, com algumas referências inéditas. Seguiu-se o Bartolomeu com várias das suas canções. Chamou o Olegário para cantar «A Saudade» de São Jorge como ele bem sabe. Carlos Almeida Santos, um advogado que viveu algum tempo em Angra, com uma boa voz cantou «O meu bem», terceirense. O Manuel, já pela assistência, em conversa com uma senhora setubalense e, a propósito do que foi dizendo, o Olegário recitou o poema «Horizonte» (p.273).

HORIZONTE

se escrevo uma palavra
sem sequer saber quem sou
entenderei o que ela diz
ou em que rio vou
e que apelo é este apelo
que me leva
a que mar?

escrevo sem escrevê-la
esta palavra que inscrevo
no intento de entendê-la

que apelo fez rio a água
apelo que a faz correr
que não é água nem rio
nem sou eu nem quanto escrevo?

há mistério no meu rio
o mistério de assim ser
sem um antes ou depois
da condição de correr

neste mistério a palavra
que escrevo sem escrevê-la?
nele é que sou e escrevo
mesmo sem saber quem sou?

apelo que dá o ser
esconde o nada que sou
já meu rio o revelou
no perto que está da foz

mas que nome tem o mar
a que não vai e eu vou?

nasci num mar que me deu
um horizonte sem fim
nunca ninguém respondeu
melhor do que ele às perguntas
que nascem dentro de mim

Tudo terminou com mais autógrafos, onde o livreiro / poeta com a sua bela caligrafia foi lançando amáveis dedicatórias pelo rosto dos livros.

Com pena, tivemos que ir embora e muitos outros foram saindo, como já previa o esquema organizativo da festa, de outra forma não teriam podido entrar todos os que estiveram na Culsete. Uma calorosa e emotiva festa com gente e livros. E termino com uma frase do mestre livreiro poeta: "como se está bem aqui e como é verdade que isto aqui está a ser uma pequena livraria onde se vive e convive em livraria" (p. 240).

Abraços para todos

Artur Goulart

1 comentário:

  1. alegria de ver nos escaparates das livrarias o "papel a mais". ouvir francisco josé viegas elogiá-lo e ao homem por detrás dele, alegria ainda.

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