sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Papel a Mais a Quatro Vozes (I)

Prometemos publicar neste blogue os quatro textos que foram lidos durante a apresentação de Papel a Mais, no passado dia 27 de Novembro, na Casa dos Açores. Vamos começar a fazê-lo hoje, não pela ordem em que foram lidos, mas à medida que nos vão chegando. O primeiro a apresentar-se é o texto do livreiro sensação do momento, Jaime Bulhosa, da Pó dos Livros, lido na sessão pelo dinâmico amigo Luís Guerra, da Assírio & Alvim. Faltam os gestos, os olhares, a entoação, que tanto os enriqueceram. Mas ficam as palavras e os múltiplos significados que encerram.

NA PROFISSÃO

É contrariado e com desgosto, pelas razões que já devem ter sido explicadas, que não posso estar presente na apresentação do livro Papel a Mais, não podendo deste modo homenagear, presencialmente como gostaria, Manuel Medeiros, um homem da cultura e grande mestre livreiro.

Na profissão de livreiro, como na vida, devemos ter pontos de referência, exemplos que, pelas suas características e qualidades extraordinárias, devemos tentar seguir. Manuel Medeiros é para mim, sobretudo enquanto livreiro, um desses modelos. Embora não tenha tido o privilégio de trabalhar directamente com ele, sempre, e durante toda a minha vida de livreiro, ouvi o seu nome e o seu trabalho ser repetidamente evocado como o paradigma daquilo que é e deve ser um livreiro.

Devo recordar: – Ainda eu não sabia ler e já Manuel de Medeiros era livreiro.

O que é e deve ser, então, um livreiro?

A resposta a esta pergunta é fácil, se eu puder responder simplesmente: um livreiro deve ser aquilo que Manuel Medeiros é.

Se calhar, é melhor eu explicar isto a quem não é do meio.

Se atendermos apenas à definição, redutora, de que um livreiro é aquele que vende livros, então, não valeria a pena estarem aqui. Eu acrescentaria, por oposição a esta ideia, a de que um livreiro não vende livros. O livreiro vende: aventuras, viagens e A Volta ao Mundo em Oitenta Dias; continentes, países e Cidade Proibida; romances, paixões, dramas e Sexus; pré-história, história, idade média e A Divina Comédia; batalhas, Guerra e Paz; reis, rainhas, O Príncipe e O Conde de Monte Cristo; pintores, escultores e O Arquitecto; música, versos e poemas; sonhos, auto-ajuda, artes divinatórias e outras mentiras; constituições, leis, decretos-lei e portarias. Tudo isto e muito mais, numa pequena caixa chamada livro.

No entanto, um livreiro não pode ter como finalidade única o comércio, seja ele de livros ou de outra coisa qualquer, nem perseguir apenas o lucro na sua actividade profissional. Como Manuel Medeiros diz no seu livro Papel a Mais, que neste momento está a ser apresentado, e cito, «entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro», isto é, e volto a citar, «o escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro “publica” a leitura». É nesta última finalidade, a da «publicação da leitura» – que, por extenso, quer dizer promoção, divulgação e incentivo da leitura na persecução da criação de novos leitores –, que o livreiro (se pretender reclamar para si um papel importante como agente cultural), também tem de se focar. Doutra forma não será um livreiro, mas apenas um comerciante de livros, com toda a consideração que este possa merecer. Se assim for, não contribui de forma decisiva, como deve ser sua obrigação profissional, para o aumento e melhores hábitos de leitura, tão necessários à nossa sociedade. Manuel Medeiros explica a ideia com uma frase, que eu considero fundamental, e passo a citar: «Quando uma inteligência e uma sensibilidade lêem um livro, lêem-no com todos os livros que já leram. Esta lei projectada na leitura colectiva permite ver quanto tempo leva uma recuperação profunda dos níveis de leitura numa sociedade». - Podemos concluir, perante este raciocínio, que ainda temos muito trabalho pela frente, mas essa é outra história e não cumpre agora desenvolvê-la.

Continuando. O livreiro é um autodidacta: ainda não há nenhum curso que o possa formar. Ou seja, claro que se pode e deve dar formação a uma pessoa que quer trabalhar numa livraria ou que, enquanto gestor ou empresário, pretende criar uma livraria. Porém, ser livreiro é outra coisa. Para se ser livreiro é necessário muito mais, como já afirmámos, do que simplesmente saber vender livros (para isso existem alguns truques e cursos) – tem de se saber dignificá-los, amá-los, conhecer a sua história, ler o interior de muitos, interessar-se por quem os escreve e porque os escreve daquela maneira. Tem de se conhecer toda a cadeia do livro, desde que nasce na mão do autor até chegar à mão do leitor, tem de se saber, por fim, vendê-lo honestamente.

Posto isto, é possível entender porque é que muitas vezes se diz que já não há livreiros como antigamente, ou que são uma espécie em vias de extinção, ou que as grandes superfícies acabaram com eles, ou que o «livreiro» que nos atendeu não sabe o que está a fazer, etc., etc. De facto, tudo isto é verdade. Mas acontece, simplesmente, porque o livreiro é uma figura rara, difícil de encontrar, e mais ainda agora que o retalho livreiro que desde há vinte anos não pára de crescer não foi acompanhado, como devia ter sido, de forma proporcional, pela criação e formação de novos livreiros, no sentido que a palavra «livreiro» deve ter. Por isso afirmo, com muita pena e para mal dos índices de leitura deste país: existiram, existem e continuarão a existir (se nada se fizer em contrário) muito poucos livreiros como Manuel Medeiros que, ao contrário de muitos, tem cumprido a sua função de livreiro, exemplarmente, ao longo de 40 anos, divulgando o livro, criando novos e jovens leitores, melhores hábitos de leitura e maior desenvolvimento cultural para Portugal.

Obrigado pelo exemplo.

O aprendiz de livreiro

Jaime Bulhosa

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