quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Papel A Mais a Quatro Vozes (II)

Na sessão de 27 de Novembro de 2009, na Casa dos Açores, a Professora de Literatura Margarida Braga Neves, amiga de Manuel Medeiros e frequentadora habitual da Culsete, apresentou com grande competência – como é sempre seu timbre – e muita simpatia a «Escrita Amiga» em Papel a Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores, precisamente a parte do livro que contém os textos dos escritores amigos. É o texto então lido, que apresentamos a seguir.

Resendes Ventura, «”A constelação dos afectos”»

Cabe-me a grata função de apresentar a quinta parte do livro que aqui nos trouxe hoje. Coligida sob o sugestivo título de “Escrita amiga”, ela é antecedida por um agradecimento intitulado “Gratidão”, onde R. V. dá conta do desejo de, através destas inéditos, “homenagear a escrita e os escritores” num livro que deste modo (se) torna comum. Subjacente à pluralidade de vozes que no livro ecoam há um intenso desejo de comunidade – recordemos a propósito a fortuna da palavra comunidade em autores de linhagens tão diversas como Luiz Pacheco ou Maria Gabriela Llansol – desejo de comunidade enquanto qualidade do que é comum (a linguagem) e também desejo de comunhão, ou seja, acto ou efeito de comungar, de dar ou receber o sacramento – aqui o sacramento da palavra. E ainda participação comum, conjunto, reunião de vozes que se dispõem ao longo de um volume único embora polifónico que é simultaneamente partilha e dádiva. Porque este Papel a mais – importa sublinhar – se constrói sob o signo da partilha. Partilha daquilo que poderia permanecer apenas na esfera íntima e privada (e essa seria uma opção inteiramente legítima, embora possamos admitir que os papéis de um livreiro são sobretudo os papéis de outros), mas que aqui se dá a ver num gesto de abertura à comunidade mais ampla dos leitores, convidando-os ao diálogo que Papel a mais insistentemente convoca.

“Escrita amiga” recorta-se igualmente sobre o horizonte da amizade e da cumplicidade, e nele se coligem não apenas palavras mas também imagens, como o casal de leões de sugestão exótica da autoria do desenhador José Ruy, que constitui uma espécie de prólogo às viagens referidas ou sugeridas no primeiro núcleo de textos – o dos textos de criação em prosa ou em verso. Entre estes, e antes de mais, como que a dar o tom dos restantes, o de Matilde Rosa Araújo que reivindica a intemporalidade própria do “fraterno milagre” de uma funda amizade: “Não sei do tempo quando a amizade existe no meu coração” (p.159).

Seguem-se dois poemas de Teresa Rita Lopes, o segundo dos quais, intitulado “A constelação dos afectos”, bem poderia servir de mote a esta secção dos Papéis de um livreiro. Também o poema se coloca sob o signo do Cronos, o tempo devorador, o que explica a tonalidade melancólica causada por esse tempo veloz que passa e pesa sobre o corpo “cada vez mais escravo da lei da gravidade”, não dando ensejo para “cumprir vagarosamente sabiamente/ todas as fases que nos conduziriam à serenidade” (p.162). E assim “À idade do fogo/ das paixões devia seguir-se a da água e a do ar”, mas na realidade o que se segue é “a sombria fase das cinzas” inexorável declive face à infância plena de inocência e de papagaios de papel.

Também o contributo de Maria Alberta Menéres assume a forma da poesia. O poema tem por título “Que mar?” e inicia-se com os seguintes versos: “Uma janela aberta para longe/ [que] desperta em nós o dom de perguntar.” (p.166). Perguntar pela caravela, pelo pescador atento, pelo bando de gaivotas e, finalmente, pela água que “sendo a mesma, afinal,/ varia por ser igual” (p.167). Perguntar enfim para poder navegar porque “a navegar/se aprende a não vergar/ à força da miragem”. Mas, afinal, a verdadeira viagem, matriz de todas as viagens, é a infindável viagem interior: “Com vento de feição/ é por dentro da gente/ que prossegue a viagem” (p.168).

De Luísa Ducla Soares o breve poema intitulado “Há uma ilha” sobre uma ilha “no meio do papel/ com o seu vento/ mar e solidão”, a ilha onde, por acaso ou talvez não, mora um homem que nos faz lembrar alguém que muito bem conhecemos: um homem que “Vende livros/ou faz os sonhos/voarem/ de mão em mão?” (p.169).

É também de viagem, do gosto pela aventura no fulgor incandescente da juventude que falam, dois poemas em prosa de Silva Duarte, respectivamente “ A casa verde [1]” e a sua versão revista e aumentada “A casa verde [2]”. Casa de cujo telhado – e é de notar aqui o movimento ascendente – se abrangia “a cidade clara de cores e o rio luminoso que a banhava com amor súbdito” (p.172), cidade e rio que constituem uma antevisão dos horizontes rasgados do vasto mundo, entrevisto a partir do miradouro situado no terraço da casa, patamar das múltiplas viagens a haver: “Grande era o balançar da tua alma de navegante drapejavam as velas com fúria e teu braço vogava dum lado para o outro no terraço” (p.174).

Por seu lado n’ “O livreiro de Esmirna”, de Avelino Sousa, o impulso para a viagem consubstancia-se num verdadeiro corpo-a-corpo com a Turquia, que é aqui sinédoque do Oriente. Estamos perante o relato pormenorizado da chegada matinal de um vendedor de livros que se assemelha estranhamente a “um rolo de pergaminho” e que, depois de descer da motoreta azul a desconjuntar-se, monta a sua banca às portas do mercado. Arrumados os livros fica “embebido nos seus pensamentos” (p.177), mergulhado numa longa cisma de que o desperta “algum raro cliente”. No final, “Talvez se acabe por transformar em livro. Era uma morte que ele certamente almejaria: ser um livro”.

O contributo de Urbano Tavares Rodrigues é composto por uma breve evocação do arquipélago: são os “Açores do meu encantamento”. A magia, o mistério e a atmosfera nostálgica perfilam-se sobre as neblinas baixas das ilhas e da “cidadezinha milagrosa de Angra do Heroísmo” (p.179), aqui invocadas sob o signo da literatura, remetendo para leituras que deixaram um sulco indelével na memória do Autor – sulco onde afloram os nomes de Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio e João de Melo (curiosamente o nome de Raul Brandão não é referido, mas tratar-se-

-á talvez de um lapso freudiano...). São estes autores, mais os rostos, palavras e vozes de amigos, os “Açores do meu encantamento, onde tão lentamente cresce a árvore da vida e a água, sob a chuva, tem o perfume da melancolia.” (p.180).

Segue-se um breve poema de Eduíno de Jesus intitulado “Último edital”, em que o tempo se cumpre voraz.

Breve é também o contributo de Urbano Bettencourt, intitulado precisamente “Breves & brevíssimas”, três fragmentos em que aflora um humor fino e corrosivo sobre aquilo que podemos designar ironicamente como mundo literário, ou, talvez mais exactamente, uma vida literária feita de chavões e de lugares-comuns.

O texto de Onésimo Teotónio Almeida, “Companheiro de jornada”, é o testemunho, sob forma epistolar, de uma longa amizade iniciada ainda nos anos cinquenta, no seminário de Angra, e nas lides desse período de aprendizagem e de partilha de experiências e de pessoas, que recorda sem traumas e com carinhosa bonomia. Na clausura desses anos de afectos um lugar se avoluma, espaço de liberdade porque lugar de conhecimento. Referimo-nos, como é bom de ver, à biblioteca do Seminário: “meu favorito lugar de aprendizagem no meio de velharias ressuscitadas do pó», como diz Onésimo (p.186). Mas os encontros entre Onésimo e Resendes Ventura prosseguiram, sempre pontuados pelos livros: primeiro nas livrarias de Ponta Delgada, depois já em Lisboa onde vem encontrar o amigo “mergulhado em livros”, de tal modo que lhe apeteceu pedir-lhe “emprego para poder desfrutar deles nos intervalos de atendimento aos clientes, como me pareceu que tu fazias” (p.187). Segue-se uma nova etapa no relacionamento entre ambos, desta feita em Setúbal onde começa a esboçar-se uma posição radicalmente antagónica:” Tu vendendo livros para viver, embora querendo ficar com eles, e eu comprando-os para sobreviver.” (p.188). E a concluir, de novo o contraponto, entre o professor preso a pilhas de volumes, enquanto o livreiro fica cada vez mais livre porque os espalha num gesto que tem muito de partilha: “Tu ao menos foste distribuindo livros por Setúbal inteira espalhando o perfume das flores pela cidade. Tu podes por isso Sorrir esta certeza.» (p.188).

O segundo núcleo de “Escrita amiga” é composto por duas cartas. A primeira é uma carta do poeta Armando Côrtes-Rodrigues – um dos de Orpheu, aí tendo publicado com o pseudónimo de Violante de Cisneyros – a um irmão de Manuel Medeiros, agradecendo-lhe o convite para a Papelaria Xavier, onde, afirma, passou um dos melhores dias da sua vida. A segunda é uma carta de Sebastião da Gama a Manuel Botas [Manuel Valente], carta a um ex-aluno encorajando-o a aproximar-se de uma jovem gentil e delicada, o que nos traz ao terceiro e último núcleo desta secção que tem como figura polarizadora Sebastião da Gama.

Sebastião da Gama, cuja evocação ocorreu na Primavera de 1986, em Setúbal, Estremoz e Serra da Arrábida, e é composta pelos testemunhos de dois condiscípulos na Faculdade de Letras de Lisboa – sobre Sebastião da Gama pedagogo por Maria de Lourdes Belchior e sobre Sebastião da Gama poeta por Fausto Lopo de Carvalho, que nele inclui um poema inédito de 1946. A concluir esta quinta parte de Papel a mais, a belíssima oração lida por Matilde Rosa Araújo na mesma sessão de homenagem ao autor de Pelo sonho é que vamos. Deste modo se acentua a luminosa teia de afectos potenciada pelo efeito de continuidade e de circularidade entre o texto de abertura e o de fecho, ambos de Matilde Rosa Araújo – ligados pela poesia e pela vocação pedagógica que dela emana.

A oração leva por título “Sebastião, a que é que sabe a vida?” e nela Matilde Rosa Araújo olha para trás e nesse olhar retrospectivo colhe a presença frágil, mas inteira e ao mesmo tempo luminosa de Sebastião da Gama, prematuramente desaparecido aos 27 anos, para exaltar a juventude e o júbilo que dele irradiavam: “ Eras moço não pela idade mas porque em ti havia a aventura da vida, uma aventura feita de ventura que caminhava sobre o abismo. Era essa a tua alegria.” (p.201). A alegria contagiante de Sebastião poeta e de Sebastião professor porque ambos eram um só: “Sebastião, ser poeta e ser professor foram duas vertentes serenas mas apaixonadas do teu amar, do teu estar com os outros.” (p.203). Memória ainda do ser criança e do ser jovem nas volutas de uma caligrafia que tarda a desprender-se da infância: “Era tão lindo o trazer-nos os teus versos! Com que ternura eles vinham escritos naquela caligrafia clara de curvas de afectos com algo ainda de mão de menino» (p.203). Uma comunhão com a poesia que, segundo Matilde Rosa Araújo, o crescimento e a escola vão corroendo e que urge por isso contrariar. Porque “hoje, a tua lição continua. O tal núcleo poético de que tu foste corajosamente a lição viva, todos os dias.”(p.207). Nessa celebração do “núcleo poético da pessoa humana” se contém o essencial da lição de Sebastião da Gama – lição maior perfilhada pelo autor do livro que nos reúne aqui hoje e que por ela se vem batendo com denodo e galhardia.

Margarida Braga Neves

Novembro de 2009

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