domingo, 31 de janeiro de 2010

Francisco Belard escreve sobre «Papel a Mais»

Francisco  Belard escreve na Revista Ler de Janeiro de 2010 um artigo sobre o Papel a Mais. Muito interessante e bem apanhada, também, é a caricatura feita a Manuel Medeiros. Aqui fica a transcrição.

UM LIVREIRO ESCRITOR

Se me perguntam como é, podem ouvir «Um homem metido num chapéu e pendurado num cigarro.» Não foi em Setúbal que ouvi isto, mas na Casa dos Açores, dito por uma amiga do homem do chapéu, «tão setubalense como eu», comentou ele, açoriano, setubalense de adopção. Ele é Manuel Medeiros, o livreiro da Culsete. Setúbal tem que ver com os Açores? Tem pelo menos, e não é pouco, M. Medeiros, que em 1970 trocou a ínsula pela península (de Setúbal) e em 1973, com 37 anos, abriu a livraria na cidade onde se fixara em 1970. Culsete? Nome estranho; primeira sílaba de cultura e sete de Setúbal. Veio atrás de outra empresa. Culdex, galeria de exposições e divulgação cultural, falhada em 1973. É escasso o espaço na Avenida 22 de Dezembro, escondido para quem só conhece a Avenida Luísa Todi, mas grande o trabalho do livreiro e dos que o ajudam ali e noutros locais (como foi a Feira de Sant’Iago). É raro encontrar livreiros como este, que leu e releu muito, que lê aos 73 anos com sentido crítico, dizendo o que pensa, sabendo o papel da sua profissão, não redutível ao «merceeiro de livros», e publicando, ou seja tornando pública, a leitura. Que conhece cantos e recantos do sector, da escrita à edição, distribuição, promoção e animação que fazem parte do incentivo a ler. A par disso escreve, e bem. Medeiros é desde jovem «agente cultural», como se diz, sem subsídios (que merece, mas podiam «distorcer a verdade do mercado», como também se diz), leitor quase omnívoro, escritor, livreiro, animador cultural.homem metido chapeu pendurado cigarro

Tudo isto e muito mais se percebe em Papel a mais, de Resendes Ventura (Esfera do Caos, 2009). Não é só «rol de memórias», é recolha de poemas e outros textos seus e de escritores que o apreciam ou que ele admirou; assim o livro inclui inéditos de Matilde Rosa Araújo, Teresa Rita Lopes, Maria Alberta Menéres, Luisa Ducla Soares, Silva Duarte, Avelino de Sousa, Urbano Tavares Rodrigues, Eduíno de Jesus, Urbano Bettencourt, Onésimo Teotónio de Almeida, Armando Côrtes-Rodrigues, «o Patriarca», Maria de Lourdes Belchior, Fausto Lopo de Carvalho e Sebastião da Gama, além da ilustração de José Ruy (e Resendes Ventura fez desenhos e vinhetas para o seu livro). Outro apoio, aligeirando o risco do editor Francisco Abreu ao publicar a obra, foi do Governo Regional dos Açores, que o autor obteve por mérito próprio e clarividência de Carlos César. Resendes Ventura é açoriano de Água Retorta, «sudeste da ilha de São Miguel, entre as altitudes que levam o Pico da Vara desde a Tronqueira até ao mar». Observa-se esta coisa rara, o livreiro que reflecte sobre décadas de actividade reconhecida por leitores de vários grupos sociais, escritores, editores, etc., numa cidade grande mas não «capital cultural». Quem é Resendes Ventura? É um nome literário que o livreiro M. Medeiros usou e retoma. Provém de nomes dos avós, materno e paterno: Manuel José de Resendes e Manuel Ventura de Medeiros. Quanto a ele, que revela parte das leituras de formação, continuou a aprendizagem na idade madura, não lhe passando ao lado Jauss, Zumthor, Barthes, Steiner, Manguel O que noutros seria recordatório vaidoso é nele ensejo para comentar a política do livro, destacando nomes como Fernando Guedes, Artur Anselmo e José Afonso Furtado, entre outros, saudando a ruptura histórica de 1985-1986 com o Plano de Leitura Pública, lamentando que além da rede de bibliotecas se descurasse a função livreira. A Culsete abriu a 1 de Outubro de 1973, salvo erro quando nasceu um dos filhos do autor, Nuno Miguel Medeiros, hoje cientista social com obra publicada em torno do livro e da sociologia da leitura. Coincidências? Talvez elas sejam uma espécie de relações em que o acaso só resolve uma parcela da estranheza possível. As págs. 15-62,218-249 e 285-307 ilustram bem, pelo que guardam de autobiografia pessoal e profissional enquanto retratam figuras e factos, o sentido da obra de Resendes Ventura, ou Manuel Medeiros. Conheci este tardiamente. Um bom conversador, não de banalidades. Em cada conversa aprendo coisas, sem conseguir ensinar nada. O que conta da experiência livreira (nele uma missão cívica) e da política da leitura é lição para todos. «Metido num chapéu e pendurado num cigarro»? Talvez, às vezes. Mas muito mais do que isso.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

74 anos de experiência

Manuel Medeiros anda por aí a viver e aprender há 74 anos. Vai daí, apeteceu-nos este, hoje:

AO FIM DO DIA
QUADRAS POPULARES COM SENTIDO
NO VIVIDO E APRENDIDO

Estou vivo e nada mais
e é assim que me defino:
já me dão papel a mais
as quadras do meu destino.

Não olhes pra mim tão certo
de que falo sem sentido,
posso estar falando perto
do melhor a ser vivido.

Há sempre a palha e o grão
que é preciso distinguir,
da palha não fazes pão
nem tentes daí fugir.

Quando já tiveres vivido
muitos anos a viver,
terás então aprendido
que há manhã e anoitecer.

É belo o sol da manhã
que convida a caminhar
muito bela a vida sã
enchendo o dia a passar.

Vem a noite e ainda deve
a vida saber-nos bem?
– Sinto que o dia foi breve,
mas vivi-o, estou-lhe além!

No além da nossa vida
pode haver grande sentido
em fazer da despedida
o aprender no aprendido.

Se muito a vida vivi
e me dá papel a mais
bem percebo que há aqui
um entra que logo sais.

Por isso é este o meu tino:
se pouco posso fazer
neste dar ao meu destino
sua luz do anoitecer,

entrego-me à liberdade
de fazer o meu melhor
naquilo que mais verdade
contiver do meu amor.