domingo, 14 de fevereiro de 2010

«Uma ilha em Setúbal»

É com este título que a revista Os Meus Livros de Fevereiro de 2010 publica uma página sobre a Culsete e Manuel Medeiros, por Jaime Delgado. E diz assim:

DSCF2735 Uma ilha em Setúbal

Manuel Medeiros diz da sua livraria que “é um jardim”. E basta entrar para sentir o perfume dos livros.

Quem frequenta as tertúlias literárias sabe que em Setúbal há uma casa onde elas têm um lugar muito especial. Criada em 1973, a livraria Culsete é uma casa que reflecte bem a postura de Manuel Medeiros. Também é conhecido como Resendes Ventura. Mas isso, já lá iremos... Um dos aspectos que imediatamente saltam à vista do visitante é a arrumação dos livros, alinhados, não por género (como é mais vulgar), por autor (como muitos de nós fazemos em casa) mas por... editoras.

O que significa isto é que o ritual passa por consultar o livreiro, aqui uma espécie de curandeiro por detrás do balcão, sabedor do seu espólio e capaz de sugerir o livro que nasce de uma conversa ao acaso. Estamos num espaço generalista. Aqui, encontra Dan Brown, José Rodrigues dos Santos, José Saramago, mas também as propostas da & etc, edições antigas de Cortázar, da Fundação Calouste Gulbenkian ou da Antígona. O livro é o centro das atenções, destinado a diferentes perfis de leitores.

Manuel Medeiros começou a sua actividade na Culdex, também em Setúbal, três anos desta aventura. Era uma Cooperativa livreira, movimento que nasceu nos anos 60 e perdurou até meados da década seguinte, conjunto de livreiros associados para levar a cabo a sua actividade, mas também “um autêntico movimento cultural”, salienta.

DA ILHA PARA A PENÍNSULA

Nasceu nos Açores, veio para Lisboa e daí para Setúbal, onde “só havia uma livraria”. Depois de estudar a cidade, gizou o seu negócio. Os contornos foram dados pela conjuntura: “o atraso era enorme devido ao baixo nível de instrução da população, da falta de identificação da população com a cidade”, explica-nos.

A dinamização cultural é um dos grandes trunfos deste espaço. Urbano Tavares Rodrigues, Baptista-Bastos e Mário Ventura (na imagem) protagonizaram uma conversa inesquecível, mas também já foram visita Gonçalo M. Tavares, Mário de Carvalho e muitos outros. Recentemente, muitas das suas histórias e reflexões foram passadas livro. “Papel a Mais”, é o título algo irónico do volume editado pela Esfera do Caos (e assinado Resendes Ventura), onde cabem décadas de experiência e de saber. Além da sua prosa inclui ainda diversos textos inéditos de Matilde Rosa Araújo, Urbano Tavares Rodrigues, Sebastião da Gama ou o seu conterrâneo (e grande contador de histórias) Onésimo Teotónio de Almeida. E lá está o livro na sua livraria, bem à vista e em mais do que um sítio... ¶

(na fotografia inferior: Trio de força – Mário Ventura, Urbano Tavares Rodrigues e Baptista-Bastos.)