domingo, 29 de dezembro de 2013

ESCRITA AMIGA– [De presépios gosto], Teresa Rita Lopes

 

Iniciamos um novo projeto neste blogue, a Escrita Amiga, textos originais ou pouco divulgados de amigos da Culsete. Começamos com o tradicional poema de Natal que a nossa querida Teresa Rita Lopes costuma enviar aos amigos nesta época. Este é o deste ano. Continuação de Boas Festas com poesia.

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De presépios gosto

desde menina.

De construir por minhas mãos um pequenino mundo a meu jeito.

A moda do Pai Natal só veio mais tarde

assim como a da Árvore de Natal.

Com ele nunca engracei

postiço das barbas até à barriga.

Quem trazia presentes à minha infância era o Menino Jesus

- cedo percebi que era uma maneira de dizer

como as fadas.

Como podia alguém como eu descer pela chaminé sem se sujar nem se aleijar?!

Da Árvore de Natal só gosto por ser árvore e verde.

(Pensar que as há de plástico!)

Hoje tenho presépios pela casa toda

todo o ano!

Que vou comprando por onde ando.

O meu Menino Jesus gosta de ser muitos

e de diferentes sítios como o Pessoa!

No Natal limito-me a actualizá-los com musgo.

E líquenes. E pinhas que trouxe ontem da Fonte do Sol.

Povoo esse mini-mundo também com conchas que combinam com a cor do barro rosado do presépio de Viana.

Mas do que mais gosto é do musgo:

cheira a terra molhada

a verde

a vida.

Sorrio para o Menino (o mesmo em todos os presépios)

e digo-lhe:

Bem hajas por vires todos os anos festejar com os homens o dia dos teus anos!

Invento para ti mundos simples e pacíficos para eles se envergonharem das suas ambições e guerras.

Ámen.

Teresa Rita Lopes

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ainda o Dia da Livraria e do Livreiro 2013

 

Por diversas razões que não cabem agora aqui, não tínhamos tido ainda oportunidade de publicar o texto que o nosso amigo António Alberto Alves, da Livraria Traga Mundos, enviou para ser lido no Encontro Livreiro Especial, realizado no passado dia 30 de Novembro, Dia da Livraria e do Livreiro. Aqui fica então, com as nossas desculpas pelo atraso.

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Em Agosto de 2011 reiniciei actividade em Portugal, depois de uma ausência de 4 anos em Kiel (Alemanha) e de 5 anos como voluntário em Cantchungo (Guiné-Bissau), com a ideia de abrir uma livraria regional (temática) em Vila Real (Trás-os-Montes e Alto Douro).

Nos preparativos e pesquisas para organizar e montar o projecto, procurei solicitar informação e aconselhamento nas livrarias independentes e deparei com o blogue Encontro Livreiro. Telefonei para a livraria Culsete e falei com Manuel Medeiros. Para quem conhece o Livreiro Velho, sabe que recebi uma doutrinação crua e pertinente, lúcida e sem rodriguinhos – também me remeteu para Bruno Malheiros, pela sua experiência recente de abrir uma livraria: a Capítulos Soltos, em Braga. Foi assim que, a 5 de Novembro de 2011, abri pela primeira vez a porta da Traga-Mundos – livros e vinhos, coisas e loisas do Douro...

A 21 de Março de 2012 foi com naturalidade que viajei para Setúbal, para participar no III Encontro Livreiro, uma realização anual na livraria Culsete. Com cinco meses de actividade, foi muito importante ter encontrado um ambiente informal de partilhas e aprendizagens, com diversas personagens do mundo livreiro, sobretudo pelo imenso carisma de Manuel Medeiros – foi como carregar baterias de motivação.

A 7 de Abril de 2013 voltei a viajar para Setúbal, para participar no IV Encontro Livreiro, na livraria Culsete. Novamente, foi muito importante continuar a apreender o ambiente informal de partilhas e ideias, testemunhos e aprendizagens, convívios e amizades – desta vez fiquei a conhecer um pouco melhor toda a força e perseverança de Fátima Medeiros.

Hoje, não posso estar presente. É o Dia da Livraria e do Livreiro... e nem sequer posso estar presente no espaço da Traga-Mundos! Depois de ontem terminar a tertúlia “Adolfo Rocha / Miguel Torga: O Médico, o Escritor, o Poeta, o Homem do Doiro” pelo Prof. Dr. Alfredo Mota, fiquei como é habitual a arrumar o espaço da loja: recolher as cadeiras, recolocar as mesas e o estirador, bem como todos os livros e produtos em exposição, no fundo da loja. Fiquei ainda a seleccionar e a embalar todos os livros para a solicitação do dia seguinte. Saí e caminhei para onde tinha o carro estacionado, conduzi para parar próximo da loja e carregar as caixas de papelão. Eram 2 horas da manhã... Hoje, cheguei às 8h30 ao Teatro Municipal de Vila Real, para descarregar as caixas e montar uma banca de livros no evento “O Valor dos ‘Simples’ – A Natureza à Mesa”, onde ficarei das 9h00 às 20h00 – não poderei ser anfitrião nem assistir ao atelier de escrita criativa, que Daniela Costa irá realizar das 17h00 às 19h00 na Traga-Mundos... Pelo que pude depreender nas entrelinhas da leitura de “Papel A Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores”, Manuel e Fátima Medeiros viveram incontáveis situações como esta ao longo dos seus 40 anos de Livreiros, também de carregarem livros para inúmeros recantos e eventos, na sua incansável missão de promover o Livro e a Leitura – e hoje por aí, vocês poderão ter oportunidade de ouvir (re)contar dessa infatigável odisseia, sendo sempre um exemplo para todos nós.

Da minha parte, para declarar a importância do casal Medeiros para o que hoje faço e para o que é a Traga-Mundos, recordo um testemunho que foi deixado pela setubalense Vanessa Amorim: «Em Setembro andava eu por Vila Real quando entrei numa livraria. Conversando com o livreiro eu acabei por dizer que era de Setúbal e, então, a sua reacção imediata foi qualquer coisa como: "A terra da Culsete, do Sr. Medeiros que me incentivou a abrir este espaço!" e um sorriso abriu-se na sua cara. Acho que este episódio diz muito da importância deste grande livreiro setubalense.»

Daqui, de Vila Real, envio um forte abraço de solidariedade para Fátima & Família Medeiros.

Vila Real, 30 de Novembro de 2013

António Alberto Alves (Traga-Mundos - Vila Real)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Honoris Causa da Universidade de Aveiro Atribuído a Onésimo Teotónio Almeida

 

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[14 de Julho de 2013, Onésimo Teotónio Almeida na Culsete]

Na passada segunda-feira, 16 de Dezembro, pelas 15 horas, o auditório da Reitoria da Universidade de Aveiro foi certamente pequeno para receber todos os amigos que participaram na cerimónia da atribuição do Doutoramento Honoris Causa ao escritor, filósofo e personalidade das mais relevantes da nossa esfera intelectual, Onésimo Teotónio Almeida. Também fomos convidados, mas infelizmente não nos foi possível comparecer.

Parabéns, Onésimo. Foi mais do que merecido. Estamos muito felizes por ti. Felizes e orgulhosos. E a enviar-te o nosso abraço mais apertado. Esperemos que as nossas instituições reconheçam cada vez mais quem és e o que tens feito.

domingo, 15 de dezembro de 2013

A NOITE ENLOUQUECEU O SILÊNCIO, novo livro de Manuel Medeiros

 

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Já está disponível para venda o novo livro de Resendes Ventura / Manuel Medeiros, A Noite Enlouqueceu o Silêncio. Trata-se de uma coletânea de 23 poemas curtos escritos entre 1987 e 2013, que o autor incluiu nos originais publicáveis. A seleção e o trabalho textual de edição esteve a cargo da companheira do poeta, como acontecera nos dois livros anteriores,  Mãe d’Alma e Papel a Mais. A edição pertence à DDLX, de José Teófilo Duarte, e é o terceiro volume da coleção «Muito cá de casa», assumindo o nome das sessões organizadas por Teófilo Duarte na Casa da Cultura, em Setúbal, sempre nas noites de sexta-feira.

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O lançamento aconteceu na passada sexta-feira, 13 de Dezembro, o que certamente será sinal de bom augúrio para o livro. Perante um auditório de gente muito lá de casa, Viriato Soromenho Marques, amigo de longa data do poeta livreiro, fez a apresentação do livro, o que deu um toque de altíssimo nível à sessão. Contamos publicar em breve esse  texto. O editor, que enriqueceu o livro com uma ilustração de sua autoria, e António Ganhão moderaram a sessão. Fátima Ribeiro de Medeiros disse também algumas palavras acerca do livro e do seu autor. As palavras do poeta ouviram-se pela voz de Graziela Dias e Eduardo Dias,  que emprestaram a sua sensibilidade aos textos, alguns nada fáceis de dizer, confirmando as suas qualidades de diseurs.

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Os interessados em adquirir o livro podem usar este meio ou o e-mail da Culsete para o pedir (culsete@gmail.pt). Imediatamente o faremos chegar por via postal.

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Esta poesia toca as temáticas recorrentes do poeta, afinal as grandes temáticas da poesia e da literatura. O amor, a morte, as contradições humanas, a experiência de uma vida vivida em muitas dimensões e a natureza, o cosmos, passam por estas páginas, assinadas por um poeta que é também um homem de pensamento, para quem as questões metafísicas estão sempre sobre a mesa, ao lado das coisas pueris. Para abrir o vosso apetite, aqui ficam dois poemas:

Último lume

Dos gravetos que restam

Faz um último lume

No silêncio das coisas

Confirmando o destino.

 

A noite enlouqueceu o silêncio

A noite enlouqueceu o silêncio.

Amaram-se.

Quem neste sono adormeceu depois?

 

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[Fotos gentilmente cedidas por Artur Goulart]

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Há que (...) pegar em espingardas. As dos livreiros, são os livros... e a cultura

 

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Na impossibilidade de estar presente na justa homenagem aos livreiros da Culsete, não quero deixar de marcar a data com os votos de felicidade, endereçando os parabéns pela coragem e sacrifício de 40 anos à frente de um local de culto.

Abrir uma livraria independente de interesses financeiros é obra. Sendo, como é o caso, um projecto apenas familiar, é uma obra impagável.

Quando as livrarias, como os trabalhadores, são miseravelmente atacados por quem de cultura apenas ouviu o nome, ao ponto de acabar com o respectivo Ministério e remeter os assuntos para uma Secretaria de Estado fantasma, há que tomar este exemplo e, não só não baixar os braços, mas, acima de tudo, pegar em espingardas. As dos livreiros, são os livros… e a cultura.

Bem-hajam, Fátima e Manel, que está aí, agasalhadinho na nossa memória, a esfregar as mãos de contente… e a escrever, a escrever, a escre… a esc… a es… a…

Abraço fraternal

Joaquim Gonçalves (A das Artes - Sines)

[Mensagem enviada ao Encontro Livreiro Especial de 30 | Novembro | 2013 e publicada inicialmente no blogue ISTO NÃO FICA ASSIM!]

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

MEMÓRIAS E AFETOS

 

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Mil novecentos e setenta e três foi ano de grandes e humildes nascimentos em Setúbal: o da Culsete e o meu. A Culsete tornar-se-ia um símbolo da difusão cultural numa cidade em plena mutação societária. E eu uma das suas mais ferozes visitadoras. Abandonada a sua vocação de centro produtor de conservas, não mais Setúbal conseguiu encontrar um rumo de plenitude, mantendo-se numa indecisão exasperadora até hoje. E onde a economia e a cidadania hesitam, estremece a cultura, em maré cálida e estagnada. Mas o casal Medeiros, arrostando o futuro, decidiu inverter o rumo previsível das coisas. E criou a Culsete como quem ampara um filho no momento do nascimento: com afeição, cuidado e ternura.

Aí comprei todos os manuais de uma vida escolar longa. E depois conheci o Nuno. O filho mais velho da Fátima e do Manuel sentou-se, por decisão administrativa, a meu lado numa das velhas escrivaninhas de madeira da já então denominada Escola Secundária de Bocage. Tínhamos quinze anos e a eternidade ainda era nossa. Tornou-se num dos meus melhores amigos, contribuindo para o cimentar dessa dedicação as caminhadas a pé desde a escola até ao edifício onde se alberga, ainda hoje, esse espaço emblemático da nossa literatura, dado que a casa de meus pais também se situa nas imediações. A partir daí, a livraria deixou de ser para essa jovem adolescente de outrora apenas local de aquisição de livros (um dos seus objectos preferidos), mas sítio de exercício activo da amizade, de lanches e brincadeiras. Disse-me o Nuno, há poucos meses, que já nessa altura eu manifestava predilecção por “palavras difíceis”. Devo tê-las aprendido nas páginas da Culsete.

Foi, portanto, com naturalidade que compareci no sábado passado à cerimónia de comemoração do Dia da Livraria e do Livreiro realizada, com a presença de bons amigos, nas instalações da livraria. Sei que a Fátima Medeiros continuará com empenho uma obra que foi inicialmente sua e do seu marido após a triste ausência deste. E só posso desejar que a Culsete continue a contribuir para o enriquecimento civilizacional de uma cidade que não é só o meu local de nascimento. É também uma referência, uma paixão e um solo muito amado.

Sandra Neves

Escritora e jurista

[Texto escrito após participação no Encontro Livreiro Especial de 30 de Novembro de 2013 e publicando anteriormente no blogue ISTO NÃO FICA ASSIM!]

NOVO LIVRO DE RESENDES VENTURA / MANUEL MEDEIROS SERÁ LANÇADO DIA 13

Na próxima sexta-feira, dia 13, às 22 horas, na Casa da Cultura, em Setúbal, será lançado um novo livro de Manuel Medeiros, o poeta Resendes Ventura. Trata-se de uma pequena compilação de poemas curtos, todos inéditos, da responsabilidade da DDLX, isto é, de José Teófilo Duarte. A apresentação da pequena coletânea estará a cargo de Viriato Soromenho Marques. Graziela Dias e Eduardo Dias lerão os poemas. António Ganhão moderará a sessão.

Apareça! Ouvir ler e falar de poesia é sempre um prémio. Se conheceu o livreiro Manuel Medeiros aproveite para conhecer melhor o poeta Manuel Medeiros.

 

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O PORQUÊ DE EU VIR À CULSETE



























Gostaria de dizer, não sendo de Setúbal, nem morando cá, porque venho sempre que me é possível a esta livraria, nascida dos sonhos e da perseverança do casal Medeiros, unido pelos mesmos ideais, pelo mesmo amor aos livros e pelas mesmas competências intelectuais.

Pois o que me traz e sempre trouxe é a dinamização, são os eventos culturais. Nesta área a Dra. Fátima supera-se a si própria, na preparação, organização e condução dos encontros literários, quer sejam em forma de apresentação de livros, sejam tertúlias, sempre bem sucedidas, onde pontua a boa prosa, a boa poesia, a boa música e porque não o moscatel da sua Setúbal.

Com uma dinâmica entusiasta feita de saber, faz a apresentação dos convidados e de improviso ou com o seu trabalho de casa muito bem preparado dá início às sessões. É só usufruir.

Os dias dedicados às crianças nunca são esquecidas na Culsete, datas em que escritores para crianças nunca faltam.

A propósito, orgulho-me de ter aprendido muito com Fátima e com o seu livro Do Fruto à Raiz, resultado de parte da sua investigação para a sua tese de mestrado. Autores portugueses de livros para crianças e a sua obra chegaram ao meu conhecimento, como Ana de Castro Osório de quem tinha um livro, mas desconhecia completamente ter sido grande investigadora e pioneira como autora de livros portugueses para crianças, ou Sidónio Muralha sobre quem nunca ouvira falar, talvez pelo seu exílio desde cedo e esquecimento em Portugal. Este ano reeditado tem sido muito divulgado e ainda bem, pois é um livro de poemas maravilhosos. Foi interessante a descoberta tardia, já que em criança só por via oral me chegaram os contos e aos 12 anos já lia outro tipo de livros. Evidente que com a filha chegaram livros infantis, mas excepcionando talvez o Aquilino, eram todos de autores estrangeiros. Mas mesmo sobre Hans Christian Andersen, foi na Culsete que me aproximei mais dele, aos seus maravilhosos recortes em papel, ao seu diário interessantíssimo da viagem a Portugal e à sua passagem por Setúbal. E que dia bonito, aquele em que foi plantado o Abeto, e que contente e orgulhosa estava a família Medeiros pelo tanto que contribuíram para essa comemoração. Estive cá!!!


Setúbal | Culsete | 30 de Novembro de 2013


Maria Fernanda Pinto

In Isto não fica assim!

A CULSETE, FÁTIMA RIBEIRO DE MEDEIROS E EU



























A minha primeira experiência no contacto com as escolas para divulgar o meu trabalho, aconteceu a partir de 1984 quando realizei em Quadrinhos Os Lusíadas de Luís de Camões.
Tinha já assistido a palestras de colegas meus para o público infanto-juvenil e da dificuldade da assistência em perceber do que se falava, já que esta desconhecia totalmente os processos usados pelos profissionais. Lembrei-me então de passar a diapositivos o conteúdo desta obra que acabara de editar, tal como a Peregrinaçao de Fernão Mendes Pinto, para poder projetar as imagens e dissertar em face delas.
Foi quando recebi, através da Editorial Notícias onde fazia parte dos quadros da empresa, um convite da Livraria Culsete, em Setúbal, para fazer uma ação numa escola. A Culsete promovia pequenas feiras de livro em instituições escolares e convidava autoras e autores para falar com as crianças, que desta maneira verificavam que quem escreve e desenha são pessoas normalíssimas, sem pedestais sob os pés.
A simpática e dinâmica «livreira», Fátima Ribeiro de Medeiros, deslocou-se ao meu ateliê, na Amadora, para verificar o material que eu tinha para apresentar, antes de me levar à escola. Aprendi então com esta Senhora a gerir os tempos de intervenção e a conseguir captar e manter a atenção das crianças.
Também pela sua mão conheci o seu esposo, Dr. Manuel Medeiros, que me acompanhou depois noutras sessões, em Setúbal e Sesimbra. Fiquei amigo deste casal e dos seus filhos, muito novos então, porque partilhávamos do mesmo sonho: conseguir novos leitores de todos os escalões etários, a Culsete pela via da divulgação das obras conscientemente aconselhadas à pessoa certa, sem a preocupação de vender mais um livro, eu pela via dos Quadrinhos, como uma charneira de ligação à obra original, no caso de Os Lusíadas, Peregrinação, O Bobo de Alexandre Herculano ou Os Autos de Gil Vicente. Esta mútua colaboração manteve-se ao longo dos anos, até hoje. Sempre admirei esta equipa excecional e principalmente o importante papel da Dra. Fátima na organização tanto nos lançamentos de novos livros como de tertúlias de grande valor cultural, conseguindo a presença de figuras destacáveis pelo seu valor intelectual e humano. Não destaco aqui nomes pois não conseguindo mencionar todos, corria o risco de omitir algum, o que não desejo.
Tive na amiga Fátima Medeiros uma assídua leitora de tudo o que fui fazendo nestas décadas, o que significa para mim uma honra. Como algum livreiro pode aconselhar um livro se não o leu primeiro? No entanto, encontrei pelo menos um, em Lisboa, que não sabia quem era Fernão Mendes Pinto. E não era jovem. Mas esta «livreira» de corpo e ALMA não se fica por «ler»; analisa, disseca, numa entrega total como uma missionária. E lutando tantas vezes contra ventos e marés negras, contra o desalento e a desgraça, sempre firme e coerente na sua determinação.
Não aprendi com a Culsete apenas a orientação das sessões nas escolas, fui constatando o crescimento de uma família unida e coesa, e mais tarde colaborei com os filhos, já formados, explicando em aulas a técnica que criei e aplico no meu trabalho.
Será de grande injustiça pensar-se que a Fátima Medeiros terá agora a árdua tarefa de manter a Culsete, depois da partida do nosso amigo Manuel Medeiros que sempre admirei muito. Digo injustiça, pois a Fátima esteve sempre à frente desta notável «Casa dos Livros», em todas as organizações e iniciativas culturais. Portanto o que esperamos é que esta «Distinta Livreira» que se manteve ao lado e também à frente do «Livreiro Velho» continue o que sempre fez, com a mestria e a mesma dedicação.
Tantos foram os convites para eventos na Culsete que todos nós recebemos, com textos de apresentação escritos e preparados pela Fátima, que organizava as próprias sessões mas que generosamente assinava em nome de Manuel Medeiros. Este gesto sublinha ainda mais a admiração que todos devemos à «Distinta Livreira».
Proponho, pois, que passemos a chamar-lhe assim.


Setúbal | Culsete | 30 de Novembro de 2013


José Ruy

In Isto não fica assim!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Ser livreiro é criar leitores

O Encontro Livreiro pediu-me que escrevesse este texto neste dia e eu não sou livreira. Aceitei sem hesitar, como sempre, sobretudo porque acredito que este dia não deverá ser, no limite, sobre os livreiros e sim sobre os leitores. É essa a minha condição aqui, de leitora. No entanto há uma definição que o Manel Medeiros dava dos livreiros onde dizia que estes publicam a leitura. Nesse sentido considero-me livreira sim, porque quando me é impossível definir o meu projecto com os livros a única definição possível é que tento criar leitores. Vários tipos de leitores, diferentes tipos de leitores. Mas nunca maus leitores. E não me venham dizer que não há isso de maus leitores, há, claro que sim. Os livros têm connosco um papel fundamental na nossa formação, no nosso pensamento, na nossa forma de agir. Essa responsabilidade é de tal forma gigante e sagrada que seria, no mínimo, um desrespeito dizermos que se pode ler seja o que for que é igualmente bom.

Começa a ser raro vermos quem sinta a verdadeira importância do livreiro nos seus quotidianos. A própria profissão é desconhecida, ainda, para muitos. Na verdade é também difícil de definir, há livreiros que não trabalham em livrarias e há vendedores de livros que não são livreiros. Na verdade os leitores começam a deixar de acreditar que precisam de intermediários para a leitura. Num mundo tão cheio de estímulos, com a internet inundada de opiniões que se dão com a facilidade de um clique, nem sempre os livreiros são vistos como mediadores da leitura. Não podemos esquecer que há mais leitores e mais diversificados. Esse facto também leva a que muitos destes se tenham formado longe da figura do livreiro. Noutros sítios.

Vender livros não é igual a vender outro produto qualquer. Não o é em nenhum dos sentidos. Um livreiro não vende um produto apenas. Vende ligações a esse produto, vende outros livros. Vende um livro que corresponde a uma ideia, um anseio, uma vontade de conhecimento, uma dúvida pequena. Um livreiro fará um bom negócio (e não podemos esquecer que uma livraria é um negócio) se conseguir que um cliente passe a leitor. Para isso é preciso ensinar a um cliente que nada se lê isoladamente, os livros não existem entre a capa e a contra-capa. Um livreiro torna-se um bom livreiro se for um agente de ligações, se funcionar como o motor que instala no leitor esse vírus das ligações. Quem o consegue são por vezes pessoas improváveis, em livrarias improváveis, noutros sítios que não são livrarias, por pessoas que não vendem livros. Nas estantes dos desconhecidos, nas estantes dos amigos. Em blogs, nas redes sociais ou nas conversas de cafés.

Ser livreiro é criar leitores. Só assim as livrarias podem sobreviver enquanto negócio. Posto isto é fácil afirmar que as livrarias são sítios de crescimento, de criação e aprendizagem. Daí a nossa responsabilidade em mantê-las vivas e a funcionar, quando pensamos onde vamos comprar um livro. São os leitores que as fazem existir mas por trás de cada uma há livreiros que são a porta da livraria. Os nossos agentes de ligações. Aqui na Culsete há dois, a Fátima e o Manel. Hoje esta mais que merecida homenagem é a eles e aos leitores que eles criaram. Não temos de ter muitas palavras porque são 40 anos a mostrar, com esta porta aberta, com o reconhecimento dos subscritores do diploma Livreiro da Esperança Especial, com o nome que tão facilmente é reconhecido em qualquer lado, com o Encontro Livreiro que nasceu aqui, que são livreiros à séria, que deixam e continuam a deixar o melhor de todos os legados, uma fila interminável de leitores.




Culsete, a 30 de Novembro de 2013

Rosa Azevedo

in Isto não fica assim!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Da Livraria, do Livreiro, do Leitor... da Leitura




A ideia de que o autor pode dispensar o editor, de que o editor pode dispensar o livreiro, de que o livreiro pode dispensar o leitor, bastando-lhes o último grito da tecnologia e que continue a haver clientes que consumam o livro, mesmo que não o leiam, é uma ideia, a meu ver, completamente errada e que esquece, ou ignora, algo de fundamental: sem leitores não há nem autor, nem editor, nem livreiro, nem livro. E diria até: nem grande futuro!

Partindo desta ideia e da convicção profunda de que, apenas do convívio, do encontro e da troca de ideias entre si, as gentes do livro poderão encontrar os melhores caminhos para fazer da leitura um verdadeiro desígnio em que possa ancorar-se o futuro, em progresso e em liberdade, a experiência do Encontro-Livreiro de 2010, o nosso primeiro encontro-convívio em torno de um moscatel e de muitas ideias, conheceu já quatro edições antes deste Encontro Livreiro Especial de hoje.

Não posso deixar de referir também, neste momento, os Encontros Livreiros Regionais, com duas edições em Trás-os-Montes e Alto Douro que já estão a dar frutos na forma de trabalhar, mais colectiva, das livrarias da região. Parabéns às livrarias e aos seus livreiros! Um abraço muito especial ao livreiro, e dinâmico elemento do nosso movimento, António Alberto Alves, da Traga-Mundos, em Vila Real.

E aproveito para dar aqui uma notícia que me chegou do Norte e que nos dá muita alegria e nos transmite um sinal de esperança para o futuro: no primeiro trimestre de 2014 e ainda antes do nosso Encontro Livreiro aqui na Culsete — como habitualmente na tarde do último domingo de Março, ou seja, no dia 30 de Março de 2014 —, vai realizar-se o I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, de que daremos oportunamente notícias mais pormenorizadas através do nosso blogue, o ISTO NÃO FICA ASSIM! Parabéns às livrarias e aos livreiros envolvidos, há meses, na sua preparação.

Muitos livreiros lutam hoje pela sobrevivência mas gostam muito do que fazem, querem defender a dignidade da sua profissão e sabem que os leitores podem e devem ser os seus principais aliados. Apesar disso e por isso, estão em festa – a festa do livro e da leitura – e convidam os leitores a visitá-los nas suas casas. Espero, por isso, que os leitores acorram às livrarias num dia que, sendo da Livraria e do Livreiro, é também o dia do Leitor.

Vivemos um tempo agreste de ditadura. A ditadura do efémero, do fugaz, do superficial, do que vende muito e depressa, do espalhafato, e não um tempo do perene, do que perdura para além dos tops, dos holofotes, da fanfarra ensurdecedora que nos distrai e afasta do essencial.

Sendo esta data, a partir deste ano, designada como Dia da Livraria e do Livreiro, faz todo o sentido centrar a nossa reflexão na livraria e no livreiro, mas também no leitor, pois é ele que justifica, no fundo, todos os intervenientes na vida do livro. Se continuarmos apenas preocupados em arranjar clientes, mais clientes, e apenas mais clientes — atraindo-os com as mais variadas formas de folclore ou como se estivéssemos a anunciar a banha da cobra – não vamos conseguir defender e salvaguardar uma rede livreira (e também editorial, acrescento) diversificada e que não retire ao leitor a sua sacrossanta liberdade de escolha.

No fundo, no mundo do livro não lutamos por nada de muito diferente daquilo por que lutamos na sociedade.

Os tempos são difíceis? São. Mas é na tomada de consciência dos problemas e dos erros das opções e soluções que têm sido seguidas que está a semente de um futuro diferente e melhor. E nós acreditamos que é na promoção da leitura e na procura de mais leitores, cada vez mais leitores – livres e conscientes e com possibilidade de aceder a um fundo editorial diversificado – que está o futuro das gentes do livro (autores, editores, livreiros, bibliotecários, tradutores, professores, investigadores, jornalistas e demais profissões que se relacionam com o livro).

A leitura é, ou pode ser, o elemento agregador das gentes do livro. Vamos então pôr a leitura no primeiro lugar do nosso top.

Este Encontro Livreiro Especial é especial por diversas razões:

1) Acontece no Dia da Livraria e do Livreiro, um dia que, em parceria com a Fundação José Saramago, festejamos desde o ano passado e pretende chamar a atenção para o lugar central que a livraria e o livreiro ocupam no percurso do livro, da ideia e da escrita do autor até à leitura e à reescrita infinitas do leitor, bem como na promoção e desenvolvimento da leitura;

2) Acontece no ano em que a Culsete, a sua anfitriã e principal impulsionadora, comemora quarenta anos, tendo a cidade de Setúbal assistido ao longo do ano a uma série de iniciativas que reuniram — na livraria, à volta da mesa, na rua e em espaços culturais da cidade — muitos amigos e leitores;

3) Acontece no dia em que entregamos formalmente o diploma Livreiro da Esperança Especial Culsete – 40 Anos aos livreiros que construíram e consolidaram esta livraria, Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros. Este diploma foi atribuído no dia 1 de Agosto de 2013, à revelia dos homenageados, como não poderia deixar de ser, e proposto a uma subscrição pública que reuniu até hoje cerca de três centenas de subscritores;

4) Acontece já sem a presença física do Manuel, mas com a presença, a determinação, a experiência e o saber da Fátima que, sendo simultaneamente professora e investigadora, é sobretudo livreira e um importante pilar desta casa;

5) E acontece ainda com a nossa firme vontade de manter aqui as reuniões anuais deste movimento inédito das gentes do livro. Que dele possam surgir outros movimentos e iniciativas colectivas, nomeadamente das livrarias, mas também de outros sectores do mundo do livro, é algo que nos dará muito gosto e alegrará os dias cinzentos que persistem e ameaçam ensombrar o nosso quotidiano presente e futuro. E há já por aí, assumindo diversas formas, sinais bem evidentes disso mesmo.

Por todas estas razões, pensámos que este Encontro poderia ter também um figurino diferente, convidando algumas pessoas a escrever e a ler-nos um texto em torno da questão da livraria, do livreiro e da leitura. Todos — entre os quais me incluo — amigos da livraria Culsete que, num texto escrito em Outubro para as comemorações, designei como um rochedo em forma de navio que se soltou dos Açores e aportou a Setúbal, navegando — sem nunca deixar de avistar o Sado e a Arrábida e numa viagem sem fim — rumo ao País da Leitura.

E no final, a livre troca de ideias entre os presentes enriquecerá, estou certo, uma tarde tão especial passada no conforto de uma livraria que muitos sentimos como nossa casa.

E como uma livraria como esta, que guarda maravilhosos tesouros para partilhar com amigos e leitores que a visitam, não se faz sem a participação de muitos, não quero terminar sem deixar uma referência e uma saudação a todos os que trabalharam e trabalham nesta livraria, bem como aos seus leitores e amigos de quatro décadas. Fazem todos parte — e talvez nos possamos incluir também nesse lote — da História da Leitura em Portugal.

Por último, porque muito especial e sentido, deixo aqui o meu abraço, bem rijo e amigo, à Fátima, ao Nuno, ao Damião e à Ana Júlia e, através deles, a toda a família. Obrigado por nos receberem sempre tão bem nesta casa que, sendo muito vossa, que aqui quase nasceram, cresceram, brincaram, leram, trabalharam, propagaram o vírus da leitura e viveram muitos anos das vossas vidas, é também um pouco de cada um dos presentes e de tantos outros que, de uma forma ou de outra, foram irremediavelmente tocados por esta livraria e pelos seus livreiros.

Setúbal | Culsete | 30 de Novembro de 2013

Luís Guerra

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

OBRIGADA!


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Venho aqui hoje, como no passado sábado fiz na livraria, em primeiro lugar para agradecer o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE 40 ANOS, atribuído a mim própria e a Manuel Medeiros, meu companheiro de vida e de sonho, pelo movimento Encontro Livreiro. Juntos, lado a lado, ano após ano, atividade após atividade, superando muitos obstáculos e dificuldades, eu e ele fizemos a Culsete. Um sem o outro, não o teríamos conseguido.
Quero agradecer a todos os que então estiveram presentes na livraria a viver este momento connosco e com os elementos do Encontro Livreiro que vieram até Setúbal. Desejo ainda agradecer a quem pensou nesta forma de homenagear o nosso trabalho destes 40 anos, trabalho que fez da Culsete o que ela é hoje, uma instituição de caráter cultural, respeitada na cidade e fora dela. Obrigada Rosa Azevedo, Sara Figueiredo Costa, António Alberto Alves, Joaquim Gonçalves, José Teófilo Duarte, Luís Guerra. Obrigada ainda a todos aqueles que deram o seu aval a esta iniciativa, subscrevendo este diploma. Foram centenas. Gente de todo o país e até do estrangeiro. Bem hajam!
Quero partilhar esta distinção com os meus filhos e com os meus atuais colaboradores. Muito do que se construiu também a eles se deve. Muito do que há para criar terá a sua marca.
A decisão de nos atribuírem este diploma foi tomada à nossa revelia e tornada pública no blogue do movimento. Se tivéssemos tido conhecimento prévio desse intento teríamos pedido para que não avançasse, pois não parece justo receber um diploma que nós próprios concebemos e decidimos entregar anteriormente a livrarias independentes com tradição de promoção da leitura.
Eu própria e Manuel Medeiros considerávamos (e eu considero) este diploma um dos melhores galardões que qualquer livreiro pode desejar, por partir de dentro, das gentes do livro. Porque é verdadeiro e não obedece a segundas intenções. Porque sabemos que estamos todos num mesmo barco, como escreveu em devido tempo Rosa Azevedo.
Por isso, depois da surpresa inicial, decidimos aceitar com muito gosto e alegria essa distinção. É gratificante perceber como tanta gente, amigos e conhecidos, mas também desconhecidos, aprecia o nosso trabalho e o apoia.
Em 15 de Setembro de 1989, após uma sessão de apresentação de um livro, Manuel Alegre deixou escrito que nós éramos “os outros livreiros da esperança”, aproximando-nos do livreiro do seu poema incluído em Praça da Canção. Passámos desde então a ver esta frase como uma gostosa distinção que nos fora entregue por esse escritor. Anos mais tarde, tomámo-la, juntamente com o Luís Guerra, como mote para designar os diplomas que o Encontro Livreiro passou a atribuir. Este diploma agora recebido é a confirmação pública alargada dessa distinção.
Sinto-a como um redobrar de responsabilidade. Se nunca pensámos desistir nem por um segundo do caminho delineado por ambos em 1973, quando eu e Manuel Medeiros decidimos mergulhar de corpo e alma no projeto Culsete, fazendo dele o segundo objetivo da nossa vida (o primeiro foi/é a nossa família), agora, mais do que nunca e por diversas razões, há que redobrar a nossa criatividade e o nosso empenho, já que temos cada vez mais gente a confiar e a acreditar em nós. Tudo farei, em conjunto com a minha equipa, para não desapontar ninguém, para poder continuar a sentir tão grande apoio.
Receber este diploma no dia 30 de Novembro, o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO, tem um sabor especial. Este é o nosso dia, o dia de todos os que se consideram filhos da leitura, todos os que amamos e defendemos a nossa mãe-leitura até às últimas consequências. Livreiros e leitores. Só por si é um grande dia de festa que este ano foi vivido mais intensamente na Culsete em função desta atribuição.
O DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO é de grande importância para todas as livrarias. Trata-se de uma organização conjunta do movimento Encontro Livreiro e da Fundação José Saramago que vai no segundo ano de existência, mas que este ano já teve uma adesão bastante boa e que se quer que continue a chegar nos próximos anos a mais e mais livreiros. É um dia de festa que, como o Encontro Livreiro, veio para ficar. Não nos faltam ideias para ir alimentando este Dia. Algumas estão já na calha para o próximo ano.
Espero que todos tenham tido acesso ao material que foi preparado especialmente para distribuição neste dia, nomeadamente os cartões com as duas frases escolhidas como Leitmotif deste ano, uma de José Saramago e outra de Manuel Medeiros. Gosto bastante do cartaz, mas estes dois cartões estão um verdadeiro primor. Obrigada, Zé Teófilo.
Quero deixar aqui uma vez mais a frase de Manuel Medeiros (inserida no seu livro Papel a Mais, de 2009, mas pensada, escrita e verbalizada muito antes disso) sobre a missão e a paixão que deve animar o livreiro: Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura. Esta é uma frase lapidar que devia ter um lugar de destaque em todas as livrarias.
Cada vez mais os livreiros independentes têm de se unir, precisam de se unir, de criar formas de união que ultrapassem o querer e o dizer, para poderem agir como um bloco contra todas os ataques e investidas que chegam de muitos lados. Precisamos também de ter o leitor do nosso lado. Temos de ser todos a uma só voz. Sem medos. A nossa situação há muito que é conhecida e reconhecida. Não me refiro apenas à situação financeira, mas também quero falar nela. Não é de agora que as grandes cadeias de venda de livros andam a comprometer a saúde financeira das livrarias independentes com políticas de venda sem a mínima ética. Mas este ano refinaram a sua estratégia. E nós unimo-nos, como é do conhecimento público. Sem medos. E estamos aí a enfrentá-los, a mostrar-lhes que vender livros não é o mesmo que vender batatas, ou maçãs, ou enlatados. Que vender livros é uma atitude cultural e civilizacional.
Nós, livreiros independentes, não queremos ser daqueles que se lamentam, dos que põem as mãos à cabeça e falam sem dar um passo. Nós somos aqueles que de forma muito consciente e criativa, queremos agir, queremos arranjar soluções para atenuar e alterar este estado de coisas. E agimos.
Na passada sexta-feira, Jaime Bolhosa deu conta no seu blogue da resposta da Inspeção Geral das Atividades Culturais, IGAC, à queixa apresentada àquela instituição por várias livrarias independentes, entre elas a Culsete. A queixa, efetuada sobre as recentes campanhas de Natal praticadas pelas cadeias de vendas de livros Bertrand e Fnac, denunciando a violação da lei do preço fixo, já recebeu uma resposta daquela instituição que vai de encontro às nossas pretensões. Será que vamos ter alguma justiça? Esperemos que sim.
Já disse e escrevi algures que apenas uma livraria independente oferece uma verdadeira bibliodiversidade. Disse-o e reafirmo-o agora. Dias como o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO também ajudam a refletir sobre estas questões.
Deixem-me agora acrescentar algumas palavras sobre o tema de debate proposto para este Encontro Livreiro Especial, A Livraria, o Livreiro, a Leitura. É impossível pensar em LIVRARIA sem pensar em LIVRO e LEITURA. Esta relação direta pode não ser evidente para todos, não é certamente simples, mas é, a meu ver, determinante para enquadrar a livraria no contexto social e cultural. Numa sociedade dominada pela economia há que lutar contra a subversão de valores e a degradação do sentido das coisas. Só a partir do entendimento dos problemas da leitura se podem situar os problemas do livro e só o entendimento de uns e outros poderão determinar uma correta conceção da LIVRARIA e da sua posição relativa no complexo mundo da cultura e da civilização, ao lado da editora, do escritor, da escola, da biblioteca e de tudo o mais, naturalmente.
É esta, em traços muito largos, a minha visão desta problemática. Foi a partir dela que eu e Manuel criámos esta livraria.
Talvez alguns dos nossos leitores e amigos não se lembrem ou não saibam, por já terem esquecido ou por aqui terem chegado depois disso, mas esta casa abriu em 1 de Outubro de 1973. No dia 1 de Abril de 1974 comecei a trabalhar na Culsete a tempo inteiro, tendo abandonado uma situação profissional estável e economicamente muito compensadora. Vim para me ocupar do sector administrativo, mas uma semana depois já tomava conta da livraria, já era a responsável pelas suas vendas e pela gestão de stocks. Manuel Medeiros ocupava-se da administração e tratava das vendas de artigos de papelaria e de algumas representações exclusivas para o distrito que a Culsete detinha, passando a maior parte do tempo fora. Nos documentos oficiais da livraria eu era a gerente de loja, ele o gerente da empresa. Ocupei essa função durante 16 anos.
Quando achei que a livraria já não precisava de mim a tempo inteiro, até porque Manuel já passava cá muito tempo, dividindo comigo o trabalho na livraria, decidi despedir-me e voltar-me para outros amores, o ensino e a investigação.
Mas nunca deixei de tomar parte ativa em todas as decisões da empresa. Sempre colaborei com a livraria, fazendo de tudo um pouco, como fizera até 1990, do acompanhamento das vendas à contabilidade, da arrumação à animação, promoção e mediação de leitura, aquilo de que sempre gostei mais. Levar alguém a ler um livro de que gostamos e que achamos importante e receber posteriormente o feedback positivo dessa leitura é algo de muito forte e compensador, servindo de conforto e apoio nos momentos de desalento e incompreensão que sempre nos vão batendo à porta.
A promoção do livro e a mediação de leitura em escolas foram por mim concretizadas de forma sistemática durante esses 16 anos, tendo-as levado comigo para outros compartimentos da minha vida.
Todo o trabalho realizado pela Culsete foi sempre feito a quatro mãos. As minhas estiveram sempre juntas com as de Manuel Medeiros. Talvez nem todos as tenham visto, mas estiveram sempre pela livraria. Por isso, hoje, quando ele já não pode estender as suas mãos para receber este diploma, eu estendo as minhas sem medo e com a plena consciência de que, se o merecemos, é em resultado desse trabalho de equipa. Não vou parar por aqui. Ainda há muitos sonhos que sonhámos juntos que é preciso concretizar. E novos desafios já se desenham no horizonte. Estou/estamos e estarei/estaremos preparada/preparados para os novos desafios que se desenham. Contem connosco! Contamos convosco!
A Culsete reafirma-se e reassume-se aqui e agora como defensora dos valores que a nortearam ao longo destes 40 anos: um espaço de promoção, mediação, animação e venda do livro que todos os dias procura contribuir para o desenvolvimento cultural da região onde se encontra inserida, ajudando a formar cidadãos mais informados, mais cultos, mais reflexivos, mais atuantes, mais livres.
Boas leituras!
Fátima Ribeiro de Medeiros
Docente, investigadora e livreira
Membro do IELT, FCSH-UNL

domingo, 1 de dezembro de 2013

ENTREGA DO DIPLOMA LIVREIROS DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE 40 ANOS NO PASSADO DIA 30 DE NOVEMBRO

 

Perto das 16 horas de uma tarde fria de sábado, mas com um fiozinho de sol, começaram a juntar-se vários amigos na Culsete. Chegaram de Lisboa, da Amadora, de Almada, do Estoril e, claro, de Setúbal. Tudo gente muito cá de casa. Autores, ilustradores, ensaístas, designers, professores, jornalistas, e muitos outros, tudo gentes do livro. E a família Medeiros em peso. O ambiente foi aquecido pela guitarra e pela voz do Henrique Medeiros da Silva, que assim nos preparou o clima de festa.

O André, profissional e simpático, deu uma ajuda a quem precisou dela. O Encontro Livreiro esteve muito bem representado. Assim por alto, contámos sete membros. Outros mandaram mensagens. Obrigado António Alberto Alves e Joaquim Gonçalves. E nem faltaram as crianças, que se portaram lindamente, não é verdade Violeta e Santiago? Alguns conseguiram arranjar um lugar no meio dos livros, os restantes tiveram de ficar em pé, já que as bancas de livros dominaram o espaço. 

Houve os discursos da praxe, tocando a atribuição do diploma, o Dia da Livraria e do Livreiro e o tema proposto para reflexão. Houve abraços e beijos. Bateram-se palmas e até se venderam livros. Não só porque havia descontos, mas sobretudo para marcar o dia. Já de manhã tínhamos recebido alguns leitores que, não podendo comparecer à tarde, não quiseram deixar de assinalar o dia, passando pela nossa/sua livraria.

Nem sequer faltou o tradicional Moscatel de Setúbal, sempre presente em todos os Encontros Livreiros, muito bem acompanhado por miniaturas de pastelaria.

Depois do Luís Guerra e da Fátima Medeiros, ouvimos o José Ruy, a Maria Fernanda Pinto, a Rosa Azevedo, o José Teófilo Duarte e o Nuno Medeiros.

Manuel Medeiros esteve presente nas palavras ditas e no coração de todos. Tinha a sua assinatura o livro oferecido aos presentes, PASSOS DE VIAGEM. Recebido com grande surpresa e alegria! Os cartões com a frase de sua autoria esgotaram rapidamente. Todos quiseram levar o cartão violeta para casa.

A seguir foi o convívio informal que se prolongou pela tarde fora e rompeu a noite. Já passava um bom bocado das 21 horas quando a porta da Culsete se fechou. Estávamos cansados mas felizes. Bem hajam! Alguns de nós ainda arranjaram coragem para cortar o frio da noite e ir à procura do choco frito.

Aproveitamos para enviar deste recanto à beira Sado um abraço solidário a todos os colegas livreiros que comemoraram o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO e a todos os leitores que no sábado visitaram a sua livraria de proximidade.

As fotos desta vez não ficaram grande coisa, mas dá para espreitar o ambiente. Foi pena nem todos os presentes terem sido fotografados. As nossas desculpas aos não incluídos.

 

 

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terça-feira, 26 de novembro de 2013

MANUEL MEDEIROS PARTIU HÁ UM MÊS


Foi há um mês que Manuel Medeiros, o Livreiro Velho, como gostava de se chamar, partiu. A sua obra, porém, ficou. Ficou a Culsete, a livraria que sonhou com a companheira. Com ela soube conduzir a empresa contra muitos ventos e tempestades de vária ordem. Com ela definiu rumos de futuro para a empresa. Por isso a Culsete aí está. E estará…
Ficam também os seus escritos, tanto a poesia como a prosa, de reflexão, de opinião e polémica. Ficam ainda as narrativas curtas que algumas vezes tivemos o prazer de ler, especialmente no blogue PAPEL A MAIS. Encontramo-lo sempre nos seus livros, em jornais e revistas ou nos seus blogues.
Vamos, pois, poder continuar a ouvi-lo, lendo-o, podendo retomar sempre que quisermos o exercício de concordar ou discordar das suas ideias e opiniões. As notícias da Culsete serão dadas aqui ou na página de facebook. Eventualmente, iremos dando a ler, sempre que for oportuno, alguns textos de Manuel Medeiros espalhados pelos seus famosos cadernos de capa cinzenta. E nunca se esqueça das suas palavras: “ler, ler muito, ler sempre. E depois continuar a ler, ler muito, ler sempre. E ler e ler, ler muito, ler sempre.”

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

30 DE NOVEMBRO, DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO A COMEMORAR DA MELHOR MANEIRA POSSÍVEL NA CULSETE








Este ano vamos comemorar o Dia da Livraria e do(a) Livreiro(a) recebendo uma reunião do Encontro Livreiro. Será porém, um E.L. especial e diferente, pois será atribuído à Culsete por aquele movimento o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE - 40 ANOS.
Contamos, por isso, receber muitos amigos, do E.L. e não só, que virão festejar connosco um momento de contentamento para todos os que cá trabalham e para aqueles que elegem a Culsete para consultar, ler e comprar livros.
Alguns dos nossos convidados/visitantes/leitores dirão algumas palavras à volta do tema «A livraria, o livreiro, a leitura». Acha-se capaz de adivinhar quem poderá ser?
Teremos ainda algumas surpresas que anunciaremos oportunamente ... e outras que não iremos anunciar. Prepare-se para tudo!
Estaremos de portas abertas a conviver e a receber todos os que aparecerem.
Então até sábado, dia 30.

Para mais informações, use os nossos contactos ou visite-nos nas nossas páginas de net:

Culsete
Av. 22 de Dezembro, 23 A/B, Setúbal
Tlf..: 265526698

terça-feira, 19 de novembro de 2013

LIVRAI-VOS!



Livrai-vos, livrem-se, tornem-se em estantes infinitas, em bibliotecas interiores, dêem a volta ao mundo sem bilhete, livrai-vos em 80 dias, livrem-se do mau momento, livramento, mercado, feira, tanto livro para me livrar, olhó prémio literário fresquinho, olhó clássico reeditado, olhá relíquia d'alfarrábio, livrai-vos desta realidade irreal, livremo-nos em sonho de olhos atentos, viajemos sentados, deitados nas nuvens (caracteres tempestuosos) e choremos com elas. Livrai-vos que por aí anda a pobreza, pelas ruas vazias, famintas, a pobreza suja pelos espíritos cheios de si próprios, a vidinha à luz do ecrã que mantém agrilhoados os génios, quem não lê não esfrega a sua lâmpada, não se livra, olha para o boneco que não se lhe apresenta. 
Não custa começar, vá lá, ajornalem-se, mesmo desportivamente, se necessário; revistam-se, mesmo de cor-de-rosa; o primeiro passo é aquela linha, como a mais distante num horizonte de planalto, o olho direito ganha sempre ao da esquerda, mas fazem uma bela equipa, são eles que nos contam aos ouvidos da alma. 

A sabedoria estará por aí dissimulada, mas a informação é muita, livrai-vos bastante e descansai à bananeira porque outros, que ainda se livram mais, escrevinhando, vos ajudarão a encontrar a verdade, através de histórias ancestrais, contos populares, do mito, das religiões, crenças, das culturas e guerras do mundo; shakespearem-se depressa, gil vicentem-se asinha, kafkem-se para isto tudo, ibsem-se!, mas cervantem-se sempre e apessoem-se de todos os heterónimos que apanharem conversando convosco, saramaguem-se, por fim, que foi Nobel, a verdade está lá toda, a linha do tempo desenhada em fibra humana; e, pelo caminho, livrem-se ainda mais, como o Quixote, e enlouqueçam mesmo, que ele era só a fingir, vale a pena dar em doido hoje em dia, amanhã em noite, atinge-se a felicidade num ápice, podemos tirar partido, assim chalados, de sermos quem nos apetecer, como actores que escolhem sempre os papéis que representam e se sentam mil vezes para logo se erguerem, aplaudindo e agradecendo simultaneamente. Que grande espectáculo é livrarmo-nos de tudo isto mergulhando numa só frase de infinitas páginas.

José Nobre

[Texto inédito, dito pelo autor, o ator José Nobre, no espetáculo FILHOS DA LEITURA, comemorativo dos 40 anos da Culsete, realizado no Fórum Municipal Luísa Todi em 20 de Outubro de 2013]

sábado, 16 de novembro de 2013

DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO NA CULSETE









No próximo dia 30 DE NOVEMBRO comemora-se pelo segundo ano consecutivo o DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO, uma organização conjunta do movimento Encontro Livreiro e da Fundação José Saramago.

A Culsete pretende fazer desse dia um grande dia de festa, por isso convida todos os leitores e amigos a comparecerem pelas 16 horas no espaço da livraria, a fim de, em conjunto, celebrarmos esse dia.

Durante a tarde o movimento Encontro Livreiro vai entregar-nos o diploma LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE 40 ANOS, que receberemos com muito gosto, sobretudo por sabermos que teve o apoio de tanta gente.

Teremos ainda tempo para discorrer sobre o tema A LIVRARIA, O LIVREIRO, A LEITURA, deixando passar o microfone por várias mãos.

É bom lembrar que vamos ter diversas surpresas à espera de quem nos visitar. Entre elas…


Contamos convosco. Apareçam!

sábado, 2 de novembro de 2013

DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO | 2013

No próximo dia 30 de Novembro vamos festejar o Dia da Livraria e do Livreiro.


Depois de, no ano passado, ter sido assinalada a primeira edição do Dia das Livrarias, inspirada por ventos vindos do país vizinho e assinalando o aniversário da morte de Fernando Pessoa e de Fernando Assis Pacheco (este último, precisamente numa livraria de Lisboa), a Fundação José Saramago e o movimento Encontro-Livreiro estabeleceram uma parceria que passará a assumir a organização e a dinamização do a partir de agora designado DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO, tornando-o mais abrangente e destacando sobretudo o lugar central que o livreiro ocupa no percurso do livro e na promoção da leitura.
O Dia da Livraria e do Livreiro é um dia de Festa! Festa da livraria! Festa do livreiro! Festa do leitor!

O leitor, que para nós não é apenas um cliente, é o convidado de honra deste e de todos os dias e quem verdadeiramente justifica a livraria e o livreiro e garante, não só o futuro do livro e das gentes do livro, mas também o progresso, esclarecido e em liberdade, do(s) país(es).

Apelamos a que todas as livrarias, que queiram fazer deste dia o seu dia de festa, comecem, desde já, a preparar uma iniciativa especial para assinalar a data.

Apelamos a todos os leitores que, nas suas agendas, assinalem o dia 30 de Novembro como um dia de visita a, pelo menos, uma livraria, associando-se à festa do(s) seu(s) livreiro(s).

Vamos encontrar formas de divulgar todas as iniciativas que surjam neste âmbito e com este espírito e voltaremos com mais notícias.

Boas leituras e até breve!



Lisboa | Setúbal, 1 de Novembro de 2013

Fundação José Saramago | Encontro-Livreiro

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Testemunho de António Torrado


António Torrado com Manuel Medeiros em 2001


O nosso amigo Medeiros, com a imprescindível ajuda da Fátima, fez da livraria um Centro Cultural, quando por cá ainda se estava longe da institucionalização das Casas de Cultura e das novas Bibliotecas Municipais.
Convidando escritores, organizando debates, comemorando datas, tudo servia de pretexto para o encontro e a partilha. Havia nele um virtuosismo pedagógico que embebia todos os seus actos de livreiro sensível e inteligente. O exemplo que nos deixa nenhuma onda de obscurantismo apagará.
António Torrado

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Livreiro (1936-2013)



Um enterro numa aldeia. Pergunto detalhes a um camponês que olhava de longe o cortejo. «Ainda era novo tinha pouco mais de sessenta anos. Encontraram-no morto no campo. Que se há-de fazer? É assim… É assim… É assim…»
Este refrão, que na altura me pareceu ridículo, atormentou-me depois. O homenzinho nem suspeitava que estava a dizer da morte tudo o que se pode dizer e tudo o que sabemos dela.
E.M. Cioran

Morreu um Poeta. Morreu um Livreiro, mas mais relevante, desapareceu um homem bom e com ele uma biblioteca inteira se perdeu. Manuel Medeiros, livreiro da livraria Culsete, em Setúbal, era para mim uma referência. Soube apenas ontem que “O Livreiro Velho” nos tinha deixado, o que não me permitiu fazer-lhe uma última homenagem. Não quero falar da morte, até porque a obra de um Homem, como Manuel Medeiros, não o deixa morrer.

Cruzei-me com ele algumas vezes, não era o que se pode dizer um amigo chegado, mas de todas as vezes que com ele falei nunca me deixou indiferente. Lembro-me da primeira vez que o vi, já tinha ouvido falar muito dele, mas nunca tinha tido o prazer de o encontrar. Até que, há seis anos atrás, o conheci, quando se realizou, na livraria Pó dos Livros, um encontro de livreiros independentes, vindos de todo o país, numa tentativa de se organizar uma associação de livreiros fora da APEL, que infelizmente não se concretizou. Não me esqueço, porque nessa animada reunião, quando já quase todos tinham dado a sua opinião, fez-se de repente um silêncio confrangedor. Inesperadamente, de um canto da livraria, ouve-se a voz de um livreiro velho, magro, de sorriso na boca, chapéu na cabeça e de longe a pessoa que, naquela sala, mais sabia do mercado livreiro. Já não me lembro exactamente o que ele disse, mas sei o que senti. Vou tentar explicar: Manuel de Medeiros era daquelas figuras cujo as palavras eram iguais à luz branca solar que ao passar por um prisma se reflecte em sete cores mágicas. Assim nos maravilhava com suas histórias, exemplos de vida, ditas sempre com uma linguagem simples, ao mesmo tempo lúcida, inteligível e culta. Desde essa altura passei a seguir o seu trabalho, a admirá-lo e a ter o prazer de conviver com ele de vez em quando. A última vez que o fui visitar à sua livraria, tivemos uma pequena conversa sobre o que é ser um livreiro. Disse-me com a sua sabedoria: «um escritor publica a escrita, um editor publica o livro e um livreiro publica a leitura».  Para Manuel Medeiros divulgar a leitura era tão importante como publicar ou escrever, porque ler é viajar aos mistérios mais profundos da natureza e do saber humano.

Jaime Bulhosa

“SOU PELA POLIGAMIA”

Foi padre, professor de português, jornalista. Passou fome em duas fases da sua vida. A primeira quando veio para Lisboa e depois em Setúbal. Está casado há 34 anos. Tem 3 filhos. Vai ser avô em Dezembro. E é um dos livreiros mais antigos de Setúbal.
Manuel Pereira Medeiros é natural dos Açores. Veio para Lisboa com 32 anos, “ no célebre ano do Maio de 68”, para tratar um esgotamento. Em Água Retorta, aldeia onde nasceu, é conhecido por Manuel Pereira. Em Setúbal, por Manuel Medeiros. Quando escreve usa um pseudónimo. Escolheu os apelidos dos avôs paterno e materno.
Tem 70 anos e, por isso, já está reformado. “Passatempos? Não tenho. Não tenho tempo! Sou em escravo desta casa!” confessa enquanto tira o chapéu e passa a mão pelos cabelos acinzentados. Hoje o chapéu é bege. É um dos sócios da livraria Culsete e a maior parte do dia ainda é passada na livraria, mesmo ao lado do prédio onde vive.
“Se não fossem os meus filhos não estava aqui. Andava a conhecer o mundo. Eu sou um vagabundo, sabe? Infelizmente conheço muito pouco do mundo. A minha filha já conhece mais do que eu.” Mas antes de trocar os Açores pelo continente, Manuel Medeiros viajou pelo costa do Mediterrâneo. Percorreu o Egipto, Israel, Argélia, Turquia, Bulgária, Marrocos, Espanha, Itália. Entre muitos outros.
Ele de cachecol azul claro, camisa branca às riscas, gravata azul, casaco e calças escuras e sempre de chapéu. A filha ainda está a arrumar algumas encomendas de livros escolares. As pessoas lá fora passam com o guarda-chuva aberto. Mas ela de 26 anos, a mais nova dos três filhos, ainda veste uma t-shirt cor-de-rosa que combinam com os ténis rosa e as calças de ganga. Ela é professora de Português e bibliotecária. “Mas com a falta de emprego, agora está aqui a ajudar-me!.”
Os outros dois filhos escolheram caminhos diferentes. Um é sociólogo e o outro é engenheiro. “O meu filho mais velho vai ser pai. O do meio já é independente. Mas ainda não encontrou a sua princesa. E isso preocupa-me” diz com um cigarro na boca que ainda continua por acender.
Em 1969 tomou a que diz ter sido a decisão mais difícil da sua vida: deixar de ser padre. Afirma que abdicaria de ter uma mulher para toda a vida mas não de ter filhos. Decidiu que queria ser padre aos nove anos. O pai era anticlerical mas a mãe “vivia num mundo de tristeza. E eu queria que o mundo fosse um pouco mais feliz. Ser padre era uma forma de conseguir.”
“Não tenho um livro preferido! Tenho vários livros preferidos! Vários poemas preferidos. Vários autores preferidos. Vários poetas preferidos. Sou pela poligamia!” Tem o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Um dos que está a ler é O Lugar do Homem no Universo. Acaba por não revelar o seu livro preferido mas 1984 e Conquista da Felicidade são alguns dos livros que diz que qualquer jovem tem obrigação de ler. Mostrando mais um pouco da sua boa disposição, acrescenta “Recuso-me a falar com alguém com mais de 25 anos que não tenha lido estes livros!”
A conversa começou quando ainda estava no ar o noticiário da uma de uma rádio nacional. Acabou algum tempo depois do noticiário das duas. Manuel Medeiros tem de ir almoçar e antes de voltar para a livraria ainda tem de ir ao banco. Diz que só pára quando a saúde o obrigar.

“Reparou? Tanto tempo de conversa e tão pouco foi dito!” Pelo contrário, muitas coisas foram ditas. Tantas que não cabem nestas linhas.

LÍDIA ISABEL NICOLAU

Texto escrito enquanto estudante