quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Testemunho de António Torrado


António Torrado com Manuel Medeiros em 2001


O nosso amigo Medeiros, com a imprescindível ajuda da Fátima, fez da livraria um Centro Cultural, quando por cá ainda se estava longe da institucionalização das Casas de Cultura e das novas Bibliotecas Municipais.
Convidando escritores, organizando debates, comemorando datas, tudo servia de pretexto para o encontro e a partilha. Havia nele um virtuosismo pedagógico que embebia todos os seus actos de livreiro sensível e inteligente. O exemplo que nos deixa nenhuma onda de obscurantismo apagará.
António Torrado

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Livreiro (1936-2013)



Um enterro numa aldeia. Pergunto detalhes a um camponês que olhava de longe o cortejo. «Ainda era novo tinha pouco mais de sessenta anos. Encontraram-no morto no campo. Que se há-de fazer? É assim… É assim… É assim…»
Este refrão, que na altura me pareceu ridículo, atormentou-me depois. O homenzinho nem suspeitava que estava a dizer da morte tudo o que se pode dizer e tudo o que sabemos dela.
E.M. Cioran

Morreu um Poeta. Morreu um Livreiro, mas mais relevante, desapareceu um homem bom e com ele uma biblioteca inteira se perdeu. Manuel Medeiros, livreiro da livraria Culsete, em Setúbal, era para mim uma referência. Soube apenas ontem que “O Livreiro Velho” nos tinha deixado, o que não me permitiu fazer-lhe uma última homenagem. Não quero falar da morte, até porque a obra de um Homem, como Manuel Medeiros, não o deixa morrer.

Cruzei-me com ele algumas vezes, não era o que se pode dizer um amigo chegado, mas de todas as vezes que com ele falei nunca me deixou indiferente. Lembro-me da primeira vez que o vi, já tinha ouvido falar muito dele, mas nunca tinha tido o prazer de o encontrar. Até que, há seis anos atrás, o conheci, quando se realizou, na livraria Pó dos Livros, um encontro de livreiros independentes, vindos de todo o país, numa tentativa de se organizar uma associação de livreiros fora da APEL, que infelizmente não se concretizou. Não me esqueço, porque nessa animada reunião, quando já quase todos tinham dado a sua opinião, fez-se de repente um silêncio confrangedor. Inesperadamente, de um canto da livraria, ouve-se a voz de um livreiro velho, magro, de sorriso na boca, chapéu na cabeça e de longe a pessoa que, naquela sala, mais sabia do mercado livreiro. Já não me lembro exactamente o que ele disse, mas sei o que senti. Vou tentar explicar: Manuel de Medeiros era daquelas figuras cujo as palavras eram iguais à luz branca solar que ao passar por um prisma se reflecte em sete cores mágicas. Assim nos maravilhava com suas histórias, exemplos de vida, ditas sempre com uma linguagem simples, ao mesmo tempo lúcida, inteligível e culta. Desde essa altura passei a seguir o seu trabalho, a admirá-lo e a ter o prazer de conviver com ele de vez em quando. A última vez que o fui visitar à sua livraria, tivemos uma pequena conversa sobre o que é ser um livreiro. Disse-me com a sua sabedoria: «um escritor publica a escrita, um editor publica o livro e um livreiro publica a leitura».  Para Manuel Medeiros divulgar a leitura era tão importante como publicar ou escrever, porque ler é viajar aos mistérios mais profundos da natureza e do saber humano.

Jaime Bulhosa

“SOU PELA POLIGAMIA”

Foi padre, professor de português, jornalista. Passou fome em duas fases da sua vida. A primeira quando veio para Lisboa e depois em Setúbal. Está casado há 34 anos. Tem 3 filhos. Vai ser avô em Dezembro. E é um dos livreiros mais antigos de Setúbal.
Manuel Pereira Medeiros é natural dos Açores. Veio para Lisboa com 32 anos, “ no célebre ano do Maio de 68”, para tratar um esgotamento. Em Água Retorta, aldeia onde nasceu, é conhecido por Manuel Pereira. Em Setúbal, por Manuel Medeiros. Quando escreve usa um pseudónimo. Escolheu os apelidos dos avôs paterno e materno.
Tem 70 anos e, por isso, já está reformado. “Passatempos? Não tenho. Não tenho tempo! Sou em escravo desta casa!” confessa enquanto tira o chapéu e passa a mão pelos cabelos acinzentados. Hoje o chapéu é bege. É um dos sócios da livraria Culsete e a maior parte do dia ainda é passada na livraria, mesmo ao lado do prédio onde vive.
“Se não fossem os meus filhos não estava aqui. Andava a conhecer o mundo. Eu sou um vagabundo, sabe? Infelizmente conheço muito pouco do mundo. A minha filha já conhece mais do que eu.” Mas antes de trocar os Açores pelo continente, Manuel Medeiros viajou pelo costa do Mediterrâneo. Percorreu o Egipto, Israel, Argélia, Turquia, Bulgária, Marrocos, Espanha, Itália. Entre muitos outros.
Ele de cachecol azul claro, camisa branca às riscas, gravata azul, casaco e calças escuras e sempre de chapéu. A filha ainda está a arrumar algumas encomendas de livros escolares. As pessoas lá fora passam com o guarda-chuva aberto. Mas ela de 26 anos, a mais nova dos três filhos, ainda veste uma t-shirt cor-de-rosa que combinam com os ténis rosa e as calças de ganga. Ela é professora de Português e bibliotecária. “Mas com a falta de emprego, agora está aqui a ajudar-me!.”
Os outros dois filhos escolheram caminhos diferentes. Um é sociólogo e o outro é engenheiro. “O meu filho mais velho vai ser pai. O do meio já é independente. Mas ainda não encontrou a sua princesa. E isso preocupa-me” diz com um cigarro na boca que ainda continua por acender.
Em 1969 tomou a que diz ter sido a decisão mais difícil da sua vida: deixar de ser padre. Afirma que abdicaria de ter uma mulher para toda a vida mas não de ter filhos. Decidiu que queria ser padre aos nove anos. O pai era anticlerical mas a mãe “vivia num mundo de tristeza. E eu queria que o mundo fosse um pouco mais feliz. Ser padre era uma forma de conseguir.”
“Não tenho um livro preferido! Tenho vários livros preferidos! Vários poemas preferidos. Vários autores preferidos. Vários poetas preferidos. Sou pela poligamia!” Tem o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Um dos que está a ler é O Lugar do Homem no Universo. Acaba por não revelar o seu livro preferido mas 1984 e Conquista da Felicidade são alguns dos livros que diz que qualquer jovem tem obrigação de ler. Mostrando mais um pouco da sua boa disposição, acrescenta “Recuso-me a falar com alguém com mais de 25 anos que não tenha lido estes livros!”
A conversa começou quando ainda estava no ar o noticiário da uma de uma rádio nacional. Acabou algum tempo depois do noticiário das duas. Manuel Medeiros tem de ir almoçar e antes de voltar para a livraria ainda tem de ir ao banco. Diz que só pára quando a saúde o obrigar.

“Reparou? Tanto tempo de conversa e tão pouco foi dito!” Pelo contrário, muitas coisas foram ditas. Tantas que não cabem nestas linhas.

LÍDIA ISABEL NICOLAU

Texto escrito enquanto estudante

Amizade

Para

Manuel Medeiros


Amizade


Há pessoas
Que passamos por elas
Mas não as vemos
Por serem invisíveis.

Outras há Visíveis
Mas que passamos de largo
Por não termos Afinidade.

Por sua vez há outras
Que ao primeiro encontro
Ficamos ligados para sempre.

Não fomos nós
Que escolhemos
Mas sim a Afeição
Que nos Uniu.


Obrigado Senhor Medeiros por me ter aturado durante tantos anos.
Obrigado por todas as correcções dos meus livros.
Mas Obrigado acima de tudo por poder estar na sua presença e ter-me como amigo.
A palavra Obrigado é curta não exprime Toda a Gratidão, Estima, e Admiração que tenho por si, Senhor Manuel Medeiros!
Então até à vista. Se não nos virmos aqui, iremos encontrar-nos noutro Lugar. E continuar a Nossa Amizade...

João Cardoso


Suécia

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria
Jorge Luís Borges


MANUEL MEDEIROS: LIVREIRO DA ESPERANÇA | Morreu o livreiro Manuel Me­deiros. Para quem estava por perto a notícia não é estranha, mas é sempre uma triste notícia. Dói como uma má surpresa.
Nasceu numa ilha, no meio do oceano, há mais de setenta anos, um rapaz muito curioso que uma vez pegou num livro e ficou fascinado. Nunca mais deixou de procurar outros exemplares daquele magnífico objecto. Nos anos que se segui­ram à descoberta brincou, estudou, escreveu, viveu intensamente, resistiu aos tempos difíceis, divulgou os livros da sua alegria pelos outros. Toda a vida fez isso. Mais tarde veio parar a Setúbal. Aqui conheceu aquela que viria a ser a sua companhia íntima e intelectual para sempre. Fátima acompanhou-o nos mo­mentos bons e nos menos bons. Percebeu primeiro o que pretendia aquele ho­mem que achava que os livros podiam mudar o mundo. A estas duas figuras da cultura setubalense deve a cidade quilómetros de leitura. Anos de convívio lite­rário. A livraria que dirigiram na cidade tornou-se um lugar mítico. Um sítio onde se vai aprender convivendo com os autores. Esta morte aconteceu mesmo no fim das comemorações dos 40 anos. No passado domingo, o Fórum Luísa Todi teste­munhou emocionada evocação, em que participaram muitos amigos. FILHOS DA LEITURA foi um espectáculo multidisciplinar muito bem estruturado, onde não faltou um depoimento de Manuel Medeiros gravado no hospital. Manuel contri­buiu até ao fim para o sucesso dos festejos, fazendo avisadas sugestões. O seu saber foi sempre bem recebido por todos os que o rodearam. Confidenciou a ami­gos que estava a viver um extraordinário tempo final.
ENCONTRO-LIVREIRO | Todos os últimos domingos de Março, a Culsete é lugar de encontro entre livreiros de todo o país. É o Encontro-livreiro. Este ano a orga­nização decidiu, sem que Manuel tivesse conhecimento, atribuir aos livreiros da Culsete a distinção de Livreiro da Esperança Especial. A entrega está marcada para 30 de Novembro, dia da Livraria e do Livreiro. Manuel já não estará cá para receber o diploma, mas o seu exemplo será recordado.
Também está em preparação um livro de textos que guarda muito do trabalho de Manuel Medeiros. Fátima Medeiros vai continuar o trabalho que Manuel não terminou, recolhendo textos e classificando-os. Há poesia, muita, textos de refle­xão filosófica e intervenção social.
A Casa da Cultura vai mostrar esta nova obra numa sessão Muito cá de casa.
Vamos continuar a contar com Manuel. Sempre.
VALEU! | Na dedicatória que escreveu no meu exemplar do seu livro PAPEL A MAIS Papéis de um livreiro com inédi­tos de escritores, Manuel Medeiros diz a linhas tantas: “Caro Teófilo, se os caminhos de Setúbal fazem sentido é por neles nos encontrarmos. e o que aqui fica é só a conclusão: VALEU A PENA, estamos de acordo também por nós dois, creio bem”.
Recordo-o aqui com emoção e faço dessa constatação cartaz de agradecimento.

Já sentimos a tua falta, Manuel.

José Teófilo Duarte

sábado, 26 de outubro de 2013

A cultura setubalense ( e não só ) continua a empobrecer

Outubro 23 2013
Manuel Medeiros, o Livreiro Velho, o Resendes Ventura do "Papel a Mais" e de outros livros
deixou-nos fisicamente .
Só que o seu legado ímpar na defesa do livro, no incentivo à leitura e na paixão pela difícil
mas indispensável actividade livreira terá seguimento garantido através da Fátima e dos
filhos .
Conheci-o quase há quarenta anos e desde então mantivemos uma ligação intensa e amiga .
Ao Manuel Medeiros devo o incentivo e a ajuda para a minha primeira incursão no mundo
dos autores publicados .
Esse incentivo manteve-se quando "reincidi" e o acompanhamento, amigo e caloroso, nunca
me faltou .
Desta vez a partida do Manuel Medeiros - ao contrário da anunciada em 20 de Junho de 1996
- é, infelizmente, verdadeira .
Em "Dedicação", do livro "Papel a Mais" escreveu Resendes Ventura :
"Papel a Mais" dedico-o a quem me estima .Sei muito bem quem é e ao mesmo tempo estou
em que o não sei nem nunca saberei . Acho que não sou temerário ao supor que a vida, já
agora, não me dará tempo para perder a crença no amor fraternal, que, mesmo que em
corrente oculta, passa entre nós com verdade e força ."
Manuel Medeiros era um multifacetado - além das reflexões profundas e de um sentido critico
forte mas jamais agreste, desenhos de qualidade e versos que apetece reler .
Recordo o poema "Herança" do livro "Mãe d' Alma" :
                               " O tempo de vencer e ser vencido
                                  o tempo inútil          
                                  acabará  No resto semeei
                                  olhos de espera
                                  para o sossego tépido da tarde
                                  em frente ao mar das ilhas " .
Foi grande a sementeira deixada pelo Manuel na sua profícua jornada .
Por esta altura já ele deve estar a integrar-se na tertúlia que o Fernando Guerreiro rapidamente
terá criado .
Com este a declamar, com a mestria de sempre, os versos do recém-chegado .
Até ao depois, saudoso e recordado Manuel Medeiros !  


Loscar Elmano

«Sou apenas um homem / Nada mais que um homem» (Resendes Ventura)





O Livreiro Manuel Medeiros, o nosso muito querido Livreiro Velho, deixou-nos esta manhã. Curvamo-nos perante o seu exemplo de vida e a mensagem de esperança que deixa às gentes do livro.

O nosso abraço solidário à Fátima, ao Nuno, ao Damião, à Ana Júlia e a toda a Família Medeiros.

Informamos que o corpo estará em câmara ardente a partir das 15 horas de hoje na igreja do Convento de Jesus, em Setúbal, sendo as exéquias celebradas amanhã a partir das 10 horas.

Encontro-Livreiro


Para o Livreiro Velho

MMedeiros2012
Os textos de despedida são sempre laudatórios e definitivos, mas por mais que a justeza dos elogios e a certeza do fim sejam uma realidade, não me apetece escrever um texto de despedida. Manuel Medeiros (1936-2013), conhecido entre as gentes do livro por Livreiro Velho, morreu há dois dias e não há como embelezar esta frase. O livreiro da Culsete, a bela livraria que pôs de pé em Setúbal e à qual se dedicou ao lado de Fátima Ribeiro Medeiros, companheira de uma vida, já cá não está para alimentar as longas conversas que adorava manter, para desinquietar quem o escutava com perguntas inesperadas ou para lançar aquelas gargalhadas que pareciam contidas por causa da delicadeza que o caracterizava no modo de falar, mas que rapidamente se tornavam contagiosas e confirmavam que a delicadeza não tem de ser fraca.
Dizer alguma coisa sobre a inevitabilidade da morte e a certeza de que lá cairemos todos é fraco consolo para quem fica, e até desconfio que o Livreiro Velho não apreciaria o recurso a um lugar tão comum (havia de exigir mais, não por capricho, mas sobretudo porque esperava muito de quem com ele falava). Mais importante parece ser parar um momento e tentar perceber uma parte do que fica. E há duas noites, na Igreja do Convento de Jesus, em Setúbal, enquanto familiares e amigos velavam o corpo de Manuel Medeiros, esse “o que fica” começou a ganhar forma. É que entre a tristeza geral pela partida de um homem (amigo, pai, marido, conforme as pessoas e as relações que com elas construiu) houve também o espaço e o tempo para partilhar algumas memórias comuns aos que ali estávamos, num dos bancos da igreja. Foi assim que nos lembrámos da teimosia do livreiro, da sua constante disponibilidade para falar e ouvir, da manha boa com que nos desviava de um livro para nos fazer chegar a outro, das reuniões preparativas do Encontro Livreiro, em que apontava caminhos que eram tão óbvios e que nós não estávamos a conseguir ver. E lembrámo-nos dos conselhos e das ideias que foi deixando para projectos futuros, projectos que eram dele mas que só lhe faziam sentido porque sabia que também eram nossos, projectos que sabia que talvez já não visse acontecerem, mas que confiou a quem estava por perto com a certeza de que o caminho vai sempre existindo, mesmo quando já cá não estamos para o palmilhar. Houve quem contasse que, nas últimas semanas, Manuel Medeiros confessou estar a ter “um fim de vida espectacular”, frase que poderia causar estranheza em quem o visse sem forças e com a respiração debilitada, mas que tinha todo o sentido quando se conhecia o resto, o que estava e quem lhe estava à volta, o modo como olhava para a vida e para as coisas que fez e em que acreditava, a energia sincera com que continuava a escrever-nos e a responder-nos aos e-mails entre um tratamento e uma recaída.
E foi assim que um velório se transformou num momento que, não prescindindo da tristeza, não evitou a alegria, porque guardar alguma coisa dos que partem e sabê-la parte essencial dos que ficam tem de ser motivo para nos alegrarmos. Escrevo isto com toda a convicção, e não porque queira florear um texto que não deixa de ser sobre a morte. Só tive o prazer de conhecer o Manuel há uns anos, e nesse dia percebi que já devia ter rumado à Culsete há muitos mais, mas creio não estar a delirar se disser que naquela noite, triste, muito triste, o Livreiro Velho havia de sorrir, talvez até de gargalhar, se nos ouvisse ali a falar dele, do que nos deixou e do que havemos sempre de ter connosco. Pela minha parte, tenho a certeza de que estas memórias não são coisa para guardar na caixa do passado, mas antes algo que já faz parte do presente a caminho de ser futuro. E agora que me estou a lembrar de uma certa tarde em que o Livreiro Velho (que às vezes me chamava Sarinha sem que eu nunca tenha feito a cara feia que costumo fazer quando me tratam assim) me disse que tinha de ler a poesia de Wanda Ramos, vou ver se colmato essa falha. Os bons conselhos dados por pessoas sábias são sempre coisa para se seguir.

Sara Figueiredo Costa

Igreja de Jesus encheu para despedida a Manuel Medeiros


culset---manuel-medeiros-e-Foi num ambiente de comoção e de reconhecimento pelo trabalho de Manuel Medeiros em prol da cultura setubalense, que dezenas de pessoas se despediram ontem do “Livreiro Velho”.Antes da partida para o cemitério de Quinta do Conde, onde o corpo de Manuel Medeiros foi cremado, realizou-se uma missa de corpo presente na Igreja de Jesus, que encheu por completo.
Mais na edição impressa


Obrigado

Obrigado



Carlos Santos

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

perder um amigo como quem perde parte de todos os quotidianos





a primeira vez que vi o manuel foi à porta da Culsete. ele olhou para mim com aquele ar malandro e disse "ah tu é que és a rosa!" e eu disse "e tu é que és o livreiro velho.". a primeira de muitas visitas ao manuel e à fátima, em poucos anos, que parecem mesmo poucos.

a última vez que o vi foi em casa dele. sentámo-nos no meio dos livros e falámos um bocado. falámos de surrealistas e da leitura, como sempre. falámos de como era importante não deixar cair o Dia da Livraria e do Livreiro, não sabendo ele que era nesse dia, 30 de Novembro, que teríamos uma grande homenagem preparada.
tenho poucas palavras e sei que com o tempo terei muitas. desde que soube que ele estava pior e que teria pouco tempo que me tenho lembrado de muitos episódios. há um que é para mim o mais bonito e que tenho de falar aqui. o manuel foi o primeiro a ligar-me quando saí do hospital na véspera de Natal. disse-me que uma vez, das muitas vezes que já tinha estado internado, também tinha saído naquele dia. e disse-me que no final não eram as más memórias que interessavam, era o voltar para casa.
o manuel era e é imortal, ia sempre sobrevivendo e nós íamos rindo com ele. ele que dizia e garantia que já tinha estado morto umas três vezes mas que pregava sempre partidas ao destino. há notícias que não acreditamos que cheguem nunca, esta era uma delas.
agora quero ir para setúbal dar um abraço à família-maravilha. porque hoje não há outro sítio para estar.


Rosa Azevedo


23/10/2013


in  Estórias com livros

Manuel Medeiros,o Último Livreiro de Portugal


SETBAL~1
Os livros perderam um dos seus maiores amigos e divulgadores : Manuel Medeiros, açoriano que em 1968 veio das ilhas, fez escala em Lisboa, fixou-se em Setúbal, fundando a livraria Culsete que dirigiu durante mais de 40 anos, num projecto em que foi apoiado pela sua mulher Fátima Ribeiro de Medeiros.
Manuel Medeiros fazia a sua livraria respirar os livros. Fazia com que o som das estórias aí contidas soassem como canto de sereias que nos encantavam pela voz de Manuel de Medeiros para quem nenhum livro era desconhecido. Foi pioneiro no cruzamento entre escritores, leitores e livros, com formas originais que se popularizaram nas livrarias onde a relação entre o livreiro e o visitante da livraria ganha a cumplicidade que só a cultura pode proporcionar. Na Culsete não se vendiam livros. O livro ganhava alforria pela mão de Manuel de Medeiros. Nunca era a simples mercadoria como, infelizmente se transformou nas grandes superfícies comerciais. O livro era um objecto de pertença cultural entre Manuel Medeiros e o seu interlocutor.
Em 2009, escreveu o livro “Papel a Mais” onde diz que “Quando optei por trabalhar a tempo inteiro na leitura, a escrita tornou-se papel a mais na minha vida.” A leitura encheu-lhe a vida. Escreveu menos do que muitos esperavam que ele próprio, nos anos da sua juventude, prometia. A leitura tornou-se o centro da sua vida. Leituras que partilhava com quem ia à sua livraria fosse para adquirir livros, fosse para participar nas inúmeras e polifacetadas iniciativas culturais que tornaram a Culsete emblemática, não só na cidade de Setúbal mas em todo o país.
Manuel Medeiros via com aguda lucidez os problemas que as livrarias independentes enfrentavam. Apontava os caminhos futuros de resistência “O que me parece é que o tradicional modo de ser da livraria como mercearia dos livros tem pouca viabilidade (…) Cada vez mais deverá ser apoiada a pequena ou média livraria como centro de convívio, como ‘oficina de leitura’ ou como especialização documental.”
Com Manuel Medeiros, tinha 77 anos, morre mais que um homem, morre o Último Livreiro de Portugal. O homem que rasgou as veredas para surgirem novos livreiros entre as gentes dos livros, como chamava aos que participavam nos encontros que promoveu na Culsete, onde afirmava com grande sageza: “Vamos lutar para vencer as queixas. Se temos mãos, não podemos estar à espera que Deus nos dê pão. E o Governo que vá passear e nos deixe trabalhar.”


Manuel Augusto Araujo

24/10/2013

 in  Praça do Bocaje

Memória: Manuel Medeiros (1936-2013)



Partiu na manhã de hoje o amigo Manuel Medeiros. Deixou que se concluísse o ciclo de celebrações dos 40 anos da livraria que fundou, a Culsete, para brindar com uma mensagem de simplicidade, de saber e de afecto à leitura e ao trabalho desenvolvido (gravada no hospital) todos quantos acorreram ao Forum Luísa Todi na tarde de domingo.
O Manuel Medeiros partiu e sente-se a saudade das conversas, da disponibilidade, dos pequenos prazeres do jogo das palavras e das ideias, de uma pessoa séria, culta, humana.
Devo-lhe muitos momentos de alegria e de aprendizagem. De descoberta. De partilha. De vida. Dos livreiros que conheci foi talvez o mais completo, aquele que dialogava com os livros, lhes transmitia vida e os chamava para a sua mesa como quem convida um amigo. É forte a emoção, porque olho para muitos títulos que foram apreciados com ele, alguns sugeridos por ele, outros vividos com ele.
Continuaremos amigos. Enquanto pudermos conversar. Enquanto a vida nos possibilitar. Enquanto a memória nos ajudar. Enquanto houver no mundo gratidão e reconhecimento.
João Reis Ribeiro
23/10/2013
in  Nesta Hora 

Ao Livreiro Velho de Setúbal



Ao Livreiro Velho de Setúbal
(Sr. Medeiros, também açoriano)

Aqui a morte jaz tranquila
Como que apenas uma pausa
Para outra viagem
Brahms ecoa
Ora lamentoso e triste
Ora pensativo e filósofo
De súbito um assomo de alegria
E teu corpo magro, agora redimido
Repousa entre flores e vozes sussurradas.

Natércia Fraga
23.Outubro.2013
(Igreja do Convento de Jesus, Setúbal)

Capela do Convento de Jesus
Uma capela que nunca vira antes, apesar de ser quase (eu) filha desta cidade 
Estilo manuelino, longa, estreita, tectos altos, frescos nas paredes, e azulejos
Porta magnífica, de pedra, trabalhada com minúcia e arte
(Quem terão sido os homens que a construíram, como terão sofrido, quantos terão resistido a tão pesados trabalhos?)
Bela e calma, lugar em que até os mais ateus poderiam ouvir os sussurros dos anjos
Em noite de chuva pensativa e melancólica
De pensamentos profundos despojados sentimentos fluindo pelas mãos.
Conhecia-a hoje, na morte de um amigo
Melancólica, já saudosa, mas tranquila e celestial.


Natércia Fraga

23/10/2013

MEU AMIGO MANUEL




Contigo aprendi que os dias e as noites

não existem quando conversamos sobre livros

que  os livros podem ser orais ou escritos

- isso só descobrimos mais tarde -


Lembro-me das tuas palavras

isentando a vida do ónus do tempo

como quem diz não tenho pressa

que estou cá porque quero estar


de momento estás afónico e

não  sabes se um dia recuperarás a voz

eu continuarei a ouvir-te  em braille

no teu canto preferido da livraria


mesmo junto ao chapéu e bengala

sinal inequívoco da tua presença


Arlindo Mota

24/10/2013

in  A Seda das Palavras

Manuel Medeiros 1936-2013

Caiu chuva intermitente durante a noite, a manhã e a tarde. Houve gente andando por todo o lado, trabalhando, amando, passeando e crendo, e eu a sentir-me sempre ao lado. Abri os jornais, lidei os pratos, ouvi a chuva. Mas nada me parece encher o vazio no peito. O Manuel Medeiros morreu. Pôs-se a chover como se o mundo acabasse e ele morreu. O Tempo engole-nos a todos.

Ontem, ao fim da tarde, juntámo-nos uns quantos e rumámos ao sul. Fomos despedir-nos tardiamente, e amparar como pudéssemos os que ficam. A chuva adensava-se, as nuvens enegreciam, a estrada desaparecia, o carro andava. Ao chegarmos à igreja, passou-se o que é costume nestes momentos. Conversámos muito. O Manuel estava ali e nós conversámos enquanto lá de fora a chuva não entrava.

O Manuel Medeiros não é uma soma biográfica. Quem a quiser que procure os jornais. Para mim foi algo muito mais pessoal. Para mim o Manuel foi um amigo. Foi e é, pois o que os amigos plantam dentro de nós nunca desvanece. Há um vazio que ronda, que chama, mas é exterior: um vazio que o mundo ecoa, pois os afectos dele, os seus actos, a sua vida, tiveram importância. Mas o Manuel morreu, penso, suficientemente satisfeito com o que fez, amou e deixou. É um fraco consolo para quem fica e lhe sente a falta, mas não é um nada.

A Fátima. Imagino-a sentada ao lado dele, pegando-lhe docemente a mão, cantando uma canção suave. Imagino o último momento, aquele que é também o primeiro. Quando sabemos, quando se torna inevitável dizer que ele se foi. A Fátima. O Nuno. Imagino-lhes os rostos, mas quando vejo as lágrimas, elas afinal são como estas, aqui, minhas, e estou sozinho.

Aqui sentado entre os meus livros. Sozinho e cheio da presença do Manuel.
Ele senta-se mais ou menos à minha frente, tira o chapéu, ajeita o cachecol.
— Ah! que bem que se está aqui...
Mas este escritório é pequeno, não tem espaço. Olho em volta e parece-me demasiado cheio, quase sem espaço para ele.
— Não — diz-me olhando em frente, para a janela ao meu lado como se ali houvesse um longe. — Os livros nunca são demais.
Tem razão, claro.
Ficamos assim em silêncio durante algum tempo. Os carros passam vuishando a estrada, as gotas despenham-se na mesa da varanda. Há um tempo parado lá fora, diferente do tempo parado cá dentro.
— Um homem nunca pode ficar parado — avisa-me ele, pausadamente. — Um homem tem sempre de fazer alguma coisa.
Já o ouvira dizê-lo antes. Na sua casa, entre os livros e os papéis dele. Os a mais e os a menos. Mas aqui entre os meus, o sabor tem algo de diferente. É um conselho de amigo, um conselho de alma entre duas pessoas que se querem bem. Observo-lhe o rosto e lá luz um sorriso, beatífico e sabido.

Quando sai, ou melhor, ao vê-lo desaparecer, não sinto tanto o vazio a rondar como sentira. O que ele deixa não é, não pode ser um vazio. Enquanto o trouxermos no peito ele anda aqui. Hei-de estar a sair de um lado qualquer e sei que hei-de senti-lo perto, a sorrir e a fumar um cigarro. Tenho a certeza disto. E é um sorriso satisfeito, um olhar semicerrado e malandro, que lhe hei-de ver no rosto. Sim, tenho a certeza disto.

O Manuel Medeiros morreu e lá fora chove. Mas há-de parar. Há-de haver sol e um depois. E o Manuel andava sempre com os olhos postos em frente, no futuro. Pés bem assentes e olhar em frente. O corpo dele foi-se, fica o resto. O resto a gente leva em frente.

 Nuno Fonseca

24/10/2013

in  Orgia Literária 

In Memoriam







Manuel Medeiros



Morreu o gajo que me chateava a trocar os livros do sítio deles nas prateleiras, quero pensar que era eu o objecto da "tortura". "Então a Assírio & Alvim que costumava estar aqui???", "Esses gajos escrevem de propósito para ti e além disso habituas-te a entrar e ir logo direitinho ao sítio das coisas e não vês mais nada e nem dizes nada a ninguém". E lá ficávamos horas a dar à tramela a somar às horas que me tinha feito "perder" a vasculhar prateleiras e estantes e ter descoberto coisas que eu nem sequer imaginava que pudessem existir. Era a minha porta Nárnia nas montanhas de páginas escritas. "Queria o livro tal do fulano de tal e não encontro…" e o empregado ia à base de dados no computador procurar o livro de tal do fulano de tal e quando o empregado descobria o livro de tal do fulano de tal já o sôr Medeiros estava há buéee ao pé de mim com o livro na mão e de caminho para o livro já me tinha dito qual era a editora quem tinha escrito o prefácio e qual o artista plástico que tinha feito a capa. Mais rápido que a própria sombra, quer dizer, que o computador com e empregado no teclado. E era mais uma tarde "perdida" a falar de tudo e mais alguma coisa e de coisas que nem lembra ao careca e chegavam mais uns quantos novos e velhos e era tudo ao barulho. Uma alegria. Três horas passadas "Então já te vais embora?.. Este gajo é uma anti-social, sempre a correr de um lado para o outro, não fala com ninguém...". Pois.

Morreu uma biblioteca maior que a biblioteca de Alexandria e a cidade ficou mais pobre. Obrigado por tudo, sôr Medeiros.

 José Simões

23/10/2013

Manuel Medeiros

homenagem a mais um dos melhores de Setúbal.
Conhecemos Manuel Medeiros (MM) ainda uma criança, como pensamos que aconteceu a muitos de nós, nascidos ou criados nesta terra. Como muitos de nós, Medeiros não nasceu em Setúbal, mas tomou-a como sua. Tendo-se radicado nesta cidade em idade adulta e madura ele e sua esposa, companheira de sempre (um grande abraço à Fátima) aqui criaram os seus filhos (da nossa geração) e a Culsete. Entre livros viveu e aos livros dedicou toda a sua vida e energia. Foi com certeza o seu mais ilustre divulgador nesta cidade e também um dos que mais os amou.
Conhecemo-lo pessoalmente quando ainda aluno do Liceu (Escola Secundária do Bocage) nos demos em organizar, conjuntamente com os meus grandes amigos João Manuel Pereira e Nuno Luís, a "Semana do Teatro". Organizamos vários acontecimentos, juntando autores, atores e atrizes, encenadores, vendo peças e como não podia deixar de ser ... mostrar livros escritos e adotados para teatro... e quem mais podia em Setúbal, nessa época, ou em qualquer outra, dispor-se a fazer uma feira do livro numa escola secundária especificamente sobre o texto dramaturgo, organizado por um bando de miúdos, ainda que apoiados, a uma certa distância, por dois ou três professores? O Manuel Medeiros claro está. Se não nos atraiçoa a memória isto correu em 1986, tínhamos nós 15 ou 16 anos. Este Senhor, como então lhe chamávamos e como sempre o vimos, recebe-nos na sua Culsete...ouviu-nos e resolveu levar esta empreitada  adiante...connosco. Só ele. Outros encontros tivemos...mas deste resultou um respeito mútuo (pelo menos assim o sentimos) que não mais se quebrou. 

Desta primeira aventura conjunta resultaram vários encontros e destes uma lição que não mais esquecemos. Das muitas conversas que tivemos para organizar o evento - o MM era um conversador incansável como sabem - falámos de um livro de que ambos gostávamos muito: o "Principezinho" de Antoine de Saint-Exupéry. Defendemos  então que, mesmo quem não tivesse tido acesso ao livro na infância em qualquer altura poderia ler e apreciar esta obra. Mas MM, na sua imensa sabedoria, discordou. Chamando-nos a atenção para algo que, de tão evidente, muitas vezes nos esquecemos. "Mas Paulo o "Principezinho" pode ser lido e apreciado qualquer idade é verdade...mas nunca poderá ser lido por estes com os olhos de criança". Uma evidência que registei para a vida.

Obrigado Sr. Medeiros. Valeu muito a pena
...até sempre... 

(tivemos a felicidade de o rever pessoalmente recentemente na Casa da Cultura a propósito do 40 anos da sua Culsete).


Paulo Pisco

24/10/2013

in  Memórias de Adriano

domingo, 20 de outubro de 2013

Depoimentos sobre a Culsete



FERNANDO BENTO GOMES

Dois senhores livreiros

Quando era pequeno, Setúbal cabia numa estreita língua de terra que acompanhava o rio Sado no seu passeio pela foz.

Aos seis anos, o meu primeiro passeio, pontual e rigoroso, tinha sempre um destino certo.

Mal saía da escola, encostada à esquadra da polícia, a meio da avenida, aí vinha eu direito à estátua da Luísa Todi com o ar de quem queria prestar-lhe uma homenagem.

Durante alguns momentos por ali me ficava com um olho na cantora e outro no lindo tapete de amores-perfeitos em que era proibido tocar.

Encanto cumprido, adeus avenida, na curva seguinte surgia a estátua do poeta Bocage, paragem obrigatória que não podia falhar.

Perdia minutos a medir-lhe a pose e o ar tranquilo, vestido de branco e livro na mão, a tentar perceber os versos guardados no seu pedestal.

Virado para o rio de lojas da rua dos Ourives, onde a livraria, me fazia parar, nem assim esquecia o outro chamamento que o Sado me fazia da doca do Clube Naval.

Mas, com horário marcado, no regresso a casa, era a livraria que me seduzia.

Os títulos e as imagens impressas nas capas dos livros, as cores e os formatos davam para entender que dali brotava a fonte do saber, ponto de partida para conhecer o mundo.

Um dia, já a meio do curso do liceu, resolvi descobrir o mistério que os livros pareciam guardar, expostos na montra.

Era o sinal de que as aventuras do Sandokan e do Texas Jack já não me chegavam como leitura. Nessa tarde marcada pelo nervosismo, entrei na livraria, onde o silêncio reinava, decidido a comprar o meu primeiro livro. Para isso contava com as economias que, a muito custo, tinha juntado.
Disse “boa tarde “ e outro mais seco saiu da penumbra que mal alumiava o fundo da loja, num tom de suspiro, como se dissesse: “ só peixe miúdo é que dá à costa “.
Há coisas que ouvimos, mesmo quando pouco sai de uma boca fechada.
Então, de estante em estante, sem tocar nos livros, procurei às cegas a obra que uma professora ou um adulto amigo me tinha aconselhado, “ Olhai os lírios do campo” de Erico Veríssimo.”

Compra feita sem diálogo, saí mais envergonhado do que tinha entrado, sem vontade de repetir a experiência.

É claro que voltei quando as economias tiveram tempo de recuperar, sempre com o livreiro mudo e meio escondido atrás do balcão.

Vender era a técnica que o senhor, pelos vistos, mal conhecia.

Enfim, os anos passaram, as voltas da vida levaram-me a Lisboa, até que um dia, já autor de livros para crianças, volto a Setúbal e descubro a Culsete para os lados do Bonfim.

Desta vez, o casal de livreiros, Fátima e Manuel Medeiros, mostraram como saber agradar a um autor e também leitor.

Não pelo adulto que tinham na frente, mas pelo amor aos livros que eles defendiam melhor do que ninguém.

Em poucas palavras, o casal promovia o livro com a facilidade de quem faz amigos, com o à vontade de quem tem sempre um conselho, com o encantamento que nasce do conhecimento.

Depois vieram os convites para visitar escolas a dois, organizar sessões para professores e alunos, com o entusiasmo e a satisfação de quem mostra um filho a desconhecidos.

Daí que venha a propósito esta curta passagem tirada do meu livro, “ História da Nuvem que não queria chover” quando Marinela exclama para o Mais Jovem de Todos os Ventos, com quem quer brincar:

“Trabalho sem alegria não passa de escravidão“.

Este é um dos muitos elogios que a Culsete podia merecer neste aniversário.

Saber como a Nuvem estava cheia de razão.

Fernando Bento Gomes

06/ 10/ 2013



JOSÉ RUY

«Culsete», um polo de cultura na cidade de Setúbal há 40 anos

Desde 1980 que tenho o privilégio da colaboração da Livraria Culsete, tanto na pessoa da Dr.ª Fátima Medeiros como do Dr. Manuel Medeiros e depois de seus filhos, quando já professores. A sua experiência como pedagogos ajudou-me a consolidar um programa didático explicando como construo o meu trabalho de Banda desenhada, no Museu e em escolas do Concelho de Setúbal. Tem sido para mim muito gratificante e estou sempre a aprender com esta notável família.

A Culsete é uma criadora de pontes entre os editores e a livraria, entre os autores e o público aconselhando este a ler a obra mais adequada para cada escalão etário ou conforme o grau de conhecimento obtido. Os lançamentos de obras realizadas na Livraria transformam-se sempre em tertúlias de alto nível.

As análises feitas de cada livro em foco pela Dr.ª Fátima Medeiros e pelo Dr. Manuel Medeiros são verdadeiras lições, não só pela interpretação do que está escrito como pelo que lhes acrescentam com o seu profundo saber das matérias.

Nunca se limitaram a vender livros, mas a promovê-los e a escrevê-los, com temas aliciantes, e até a editá-los.

Quando iniciaram a atividade, levaram a livraria à escola, escolhendo as obras a condizer com a matéria até aí aprendida, dando senhas aos alunos para que levantassem um livro à sua escolha na Culsete. Muitas dessas crianças tiveram dessa maneira e pela primeira vez, um livro sem ser da escola. E ficaram clientes, durante a sua adolescência e idade adulta. Um pequeno gesto, um grande sentimento.

Tento em cada momento retribuir a amizade e dedicação à «Família Culsete». Mas cada vez recebo mais.

Vosso, do coração

José Ruy


LUÍS GUERRA

Para a história da leitura em Portugal
Conheci a Culsete nos anos oitenta do século passado, quando comecei a trabalhar na Assírio & Alvim a convite de Manuel Hermínio Monteiro, mas foi já no século XXI, quando, depois de outras gratificantes aventuras no mundo do livro, aí regressei a convite de Manuel Rosa (com quem estou agora a lançar as novas chancelas Sistema Solar e Documenta), que desenvolvi e aprofundei laços de amizade e muita admiração por esta casa e pelos seus anfitriões, o Manuel e a Fátima, que hoje fazem parte de um restrito grupo de amigos para sempre. Como diz uma amiga açoriana, a professora Maria João Ruivo, «o Manuel Medeiros é daquelas rochas sólidas, de basalto da ilha, a quem as pessoas se agarram como lapas». E a Fátima também, acrescento eu.

Na Culsete sinto-me sempre, e desde há vários anos, como se estivesse em casa. E o mérito não é do convidado.

Para além do incontornável Papel a Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores que, com a Fátima, tive o grato prazer de dar ao prelo e de trazer a lume, o que mais nos tem vindo a envolver nos últimos tempos é o movimento Encontro-Livreiro, um ponto de encontro, de convívio e de reflexão das gentes do livro que o nosso querido Livreiro Velho sonhava há muito para o país e que se realiza, desde 2010, no último domingo de Março de cada ano, na livraria Culsete. Uma ideia que já deu quatro encontros em Setúbal, dois em Trás-os-Montes e Alto Douro, anunciando-se para breve o I Encontro Livreiro do Porto, fazendo dos encontros regionais o prolongamento natural do Encontro de Setúbal.

Mais recentemente, estabeleceu o Encontro-Livreiro uma parceria com a Fundação José Saramago, assinalando o Dia das Livrarias no dia 30 de Novembro de 2012. A partir deste ano, e conforme decisão do IV Encontro-Livreiro, passará a designar-se Dia da Livraria e do Livreiro, tornando-o mais abrangente, mas sobretudo destacando o lugar central que o livreiro ocupa no percurso do livro e no desenvolvimento da leitura.

Nunca me cansarei de citar Resendes Ventura, pseudónimo literário com que Manuel Medeiros assinou – enquanto poeta, ensaísta e livreiro – o já referido Papel a Mais: «Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura».

Ao longo deste ano a livraria Culsete, que abriu portas no dia 1 de Outubro de 1973, tem vindo a comemorar os seus 40 anos, organizando – com a sageza, a sensibilidade e a energia, que parece inesgotável, da Fátima e do Manuel, e a colaboração preciosa de alguns amigos – uma série rica e diversificada de iniciativas que têm sempre a preocupação primeira de juntar os amigos e os leitores. Na livraria. À volta da mesa. Na rua. Nos espaços culturais da cidade.
Parabéns Culsete.

Parabéns Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros.

Parabéns Nuno, Damião e Ana Júlia!

Parabéns a todos os que trabalharam e trabalham na livraria Culsete e fazem parte da sua belíssima e muito rica história e também, por isso, da História da Leitura em Portugal.

Parabéns a todos os leitores que, há quatro décadas, se deixam seduzir e maravilhar com as histórias e os tesouros que vivem e estão guardados, para partilha, nesta livraria de Setúbal, um rochedo em forma de navio que se soltou dos Açores e aportou a Setúbal, navegando – sem nunca deixar de avistar o Sado e a Arrábida e numa viagem sem fim – rumo ao País da Leitura.

Setúbal, Outubro de 2013

Luís Guerra


ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

Culsete, culvinte, cul… muitas memórias

Setúbal e Culsete são para mim quase sinónimos. Há anos já, é a Culsete a levar-me a essa cidade onde passei um ano de juventude, daqueles que duram mais, muito mais do que uma década vivida aos cinquenta.

Setúbal está sempre no saco das saudades. Feitas de tanta coisa, como preparar um exame numa tarde na praia de Albarquel, passar um domingo na mágica Troia de outros tempos, A. C., (antes do Cimento), subir a pé a pousada de S. Filipe para lavar os olhos na beleza do cenário disfrutado das ameias do castelo, só ultrapassável se uma boleia benemérita nos levasse ao cume da Arrábida ou a um mágico banho no Portinho onde as águas azul-turquesa eram o único mediterrâneo a que eu tinha então acesso, fora das fotografias. Tudo isso, aliás, não passava de luxos acrescentados ao diário convívio com a gente da Anunciada, onde os meus colegas e eu passávamos os serões e os fins de semana de rotina.

A Culsete (então Culdex) era a atracção secreta, os livros novos o íman que até lá me atraía, o fascínio do novo, o desejo de achar que o verso de Manuel Alegre, na altura sempre manual de alegria, punha em linguagem que me/nos agarrava pelos fundilhos.

O tempo foi rolando e os regressos a Setúbal foram-se fixando mais e mais nos encontros com amigos e livros que a, agora Culsete, foi sucessivamente inventando e proporcionando a quem deles quisesse usufruir.

Já lá vão não sei quantos desses encontros. Que ali me levaram e me fizeram colar mais e mais as imagens setubalenses sobrepostas às da livraria. Daí essa sensação estranha de que Setúbal fica bem mais próximo dos Açores; de lá parece que se vai a pé, mais depressa do que se atravessa o Sado para Troia.

Acho serem isso passos de viagem só na minha cabeça, mas nestas coisas a objectividade não tem voz. Por exemplo, eu escrevo da Nova Inglaterra, e daqui a pouco vou à Culsete bater um papo com a Fátima e o Manuel e, se calhar, trazer alguma novidade literária.

Onésimo Teotónio Almeida


VIRIATO SOROMENHO MARQUES

Testemunho lido no almoço comemorativo do 40.º aniversário da Culsete, em 7 de Julho de 2013

O que seria da vida cultural em Setúbal, se a Culsete nunca tivesse sido fundada, se o livreiro Manuel Medeiros não se tivesse radicado na cidade do Sado?

Esta é talvez a pergunta que, com uma espécie de facilidade visual, nos permite compreender tudo aquilo que a vida cultural em Setúbal deve à livraria e ao livreiro, à Culsete, ao Manuel, e também à Fátima Medeiros, ao longo destes quarenta anos.

Há alguma coisa de irónico, desde o início, quando designamos a Culsete como livraria. A ironia habita na clara desproporção entre os bens públicos e os benefícios privados associados a uma empresa ligada ao comércio do livro. Na verdade, a importância da Culsete e de Manuel Medeiros, na história cultural de Setúbal, está associada, precisamente, ao primado do interesse público sobre o benefício empresarial. Para os jovens da minha geração que passavam horas de leitura apaixonada, numa livraria que, na verdade, se substituía a uma biblioteca pública à altura do seu tempo, então inexistente em Setúbal, a relação de Manuel Medeiros com o fenómeno do livro e da leitura nunca foi nem só, nem dominantemente, uma relação comercial.

Manuel e Fátima Medeiros sempre compreenderam a importância do livro e da leitura para o processo de contínuo crescimento das pessoas e dos cidadãos, que não cessamos de ser ao longo da vida. O livro contém dentro de si uma riqueza e uma energia que ninguém está em condições de avaliar. Nem o leitor, nem o crítico, nem mesmo o autor. A tarefa do livreiro é a de libertar e fazer partilhar essa riqueza e essa energia. Por isso, ao longo destes quarenta anos, foram centenas as oportunidades criadas pela Culsete para que os setubalenses não só acompanhassem os livros como os seus autores, em pessoa, nas muitas iniciativas e encontros com escritoras e escritores, muitos deles já parte do panteão da língua portuguesa.

Na impossibilidade de estar presente neste mais do que merecido almoço de homenagem, gostaria que estas palavras pudessem ser lidas, como testemunho da minha profunda amizade e admiração pelo Manuel e pela Fátima. Também como tributo pela dívida cultural que nem eu, nem os setubalenses, estaremos jamais em condições de pagar. Pois uma das maiores lições que Manuel e Fátima Medeiros nos deram foi, precisamente, a da dádiva generosa, que é a fonte de todas as dívidas importantes. Aquelas que nunca se destinaram a ser pagas.

1 de Julho de 2013

Viriato Soromenho-Marques