domingo, 20 de outubro de 2013

Depoimentos sobre a Culsete



FERNANDO BENTO GOMES

Dois senhores livreiros

Quando era pequeno, Setúbal cabia numa estreita língua de terra que acompanhava o rio Sado no seu passeio pela foz.

Aos seis anos, o meu primeiro passeio, pontual e rigoroso, tinha sempre um destino certo.

Mal saía da escola, encostada à esquadra da polícia, a meio da avenida, aí vinha eu direito à estátua da Luísa Todi com o ar de quem queria prestar-lhe uma homenagem.

Durante alguns momentos por ali me ficava com um olho na cantora e outro no lindo tapete de amores-perfeitos em que era proibido tocar.

Encanto cumprido, adeus avenida, na curva seguinte surgia a estátua do poeta Bocage, paragem obrigatória que não podia falhar.

Perdia minutos a medir-lhe a pose e o ar tranquilo, vestido de branco e livro na mão, a tentar perceber os versos guardados no seu pedestal.

Virado para o rio de lojas da rua dos Ourives, onde a livraria, me fazia parar, nem assim esquecia o outro chamamento que o Sado me fazia da doca do Clube Naval.

Mas, com horário marcado, no regresso a casa, era a livraria que me seduzia.

Os títulos e as imagens impressas nas capas dos livros, as cores e os formatos davam para entender que dali brotava a fonte do saber, ponto de partida para conhecer o mundo.

Um dia, já a meio do curso do liceu, resolvi descobrir o mistério que os livros pareciam guardar, expostos na montra.

Era o sinal de que as aventuras do Sandokan e do Texas Jack já não me chegavam como leitura. Nessa tarde marcada pelo nervosismo, entrei na livraria, onde o silêncio reinava, decidido a comprar o meu primeiro livro. Para isso contava com as economias que, a muito custo, tinha juntado.
Disse “boa tarde “ e outro mais seco saiu da penumbra que mal alumiava o fundo da loja, num tom de suspiro, como se dissesse: “ só peixe miúdo é que dá à costa “.
Há coisas que ouvimos, mesmo quando pouco sai de uma boca fechada.
Então, de estante em estante, sem tocar nos livros, procurei às cegas a obra que uma professora ou um adulto amigo me tinha aconselhado, “ Olhai os lírios do campo” de Erico Veríssimo.”

Compra feita sem diálogo, saí mais envergonhado do que tinha entrado, sem vontade de repetir a experiência.

É claro que voltei quando as economias tiveram tempo de recuperar, sempre com o livreiro mudo e meio escondido atrás do balcão.

Vender era a técnica que o senhor, pelos vistos, mal conhecia.

Enfim, os anos passaram, as voltas da vida levaram-me a Lisboa, até que um dia, já autor de livros para crianças, volto a Setúbal e descubro a Culsete para os lados do Bonfim.

Desta vez, o casal de livreiros, Fátima e Manuel Medeiros, mostraram como saber agradar a um autor e também leitor.

Não pelo adulto que tinham na frente, mas pelo amor aos livros que eles defendiam melhor do que ninguém.

Em poucas palavras, o casal promovia o livro com a facilidade de quem faz amigos, com o à vontade de quem tem sempre um conselho, com o encantamento que nasce do conhecimento.

Depois vieram os convites para visitar escolas a dois, organizar sessões para professores e alunos, com o entusiasmo e a satisfação de quem mostra um filho a desconhecidos.

Daí que venha a propósito esta curta passagem tirada do meu livro, “ História da Nuvem que não queria chover” quando Marinela exclama para o Mais Jovem de Todos os Ventos, com quem quer brincar:

“Trabalho sem alegria não passa de escravidão“.

Este é um dos muitos elogios que a Culsete podia merecer neste aniversário.

Saber como a Nuvem estava cheia de razão.

Fernando Bento Gomes

06/ 10/ 2013



JOSÉ RUY

«Culsete», um polo de cultura na cidade de Setúbal há 40 anos

Desde 1980 que tenho o privilégio da colaboração da Livraria Culsete, tanto na pessoa da Dr.ª Fátima Medeiros como do Dr. Manuel Medeiros e depois de seus filhos, quando já professores. A sua experiência como pedagogos ajudou-me a consolidar um programa didático explicando como construo o meu trabalho de Banda desenhada, no Museu e em escolas do Concelho de Setúbal. Tem sido para mim muito gratificante e estou sempre a aprender com esta notável família.

A Culsete é uma criadora de pontes entre os editores e a livraria, entre os autores e o público aconselhando este a ler a obra mais adequada para cada escalão etário ou conforme o grau de conhecimento obtido. Os lançamentos de obras realizadas na Livraria transformam-se sempre em tertúlias de alto nível.

As análises feitas de cada livro em foco pela Dr.ª Fátima Medeiros e pelo Dr. Manuel Medeiros são verdadeiras lições, não só pela interpretação do que está escrito como pelo que lhes acrescentam com o seu profundo saber das matérias.

Nunca se limitaram a vender livros, mas a promovê-los e a escrevê-los, com temas aliciantes, e até a editá-los.

Quando iniciaram a atividade, levaram a livraria à escola, escolhendo as obras a condizer com a matéria até aí aprendida, dando senhas aos alunos para que levantassem um livro à sua escolha na Culsete. Muitas dessas crianças tiveram dessa maneira e pela primeira vez, um livro sem ser da escola. E ficaram clientes, durante a sua adolescência e idade adulta. Um pequeno gesto, um grande sentimento.

Tento em cada momento retribuir a amizade e dedicação à «Família Culsete». Mas cada vez recebo mais.

Vosso, do coração

José Ruy


LUÍS GUERRA

Para a história da leitura em Portugal
Conheci a Culsete nos anos oitenta do século passado, quando comecei a trabalhar na Assírio & Alvim a convite de Manuel Hermínio Monteiro, mas foi já no século XXI, quando, depois de outras gratificantes aventuras no mundo do livro, aí regressei a convite de Manuel Rosa (com quem estou agora a lançar as novas chancelas Sistema Solar e Documenta), que desenvolvi e aprofundei laços de amizade e muita admiração por esta casa e pelos seus anfitriões, o Manuel e a Fátima, que hoje fazem parte de um restrito grupo de amigos para sempre. Como diz uma amiga açoriana, a professora Maria João Ruivo, «o Manuel Medeiros é daquelas rochas sólidas, de basalto da ilha, a quem as pessoas se agarram como lapas». E a Fátima também, acrescento eu.

Na Culsete sinto-me sempre, e desde há vários anos, como se estivesse em casa. E o mérito não é do convidado.

Para além do incontornável Papel a Mais – Papéis de um livreiro com inéditos de escritores que, com a Fátima, tive o grato prazer de dar ao prelo e de trazer a lume, o que mais nos tem vindo a envolver nos últimos tempos é o movimento Encontro-Livreiro, um ponto de encontro, de convívio e de reflexão das gentes do livro que o nosso querido Livreiro Velho sonhava há muito para o país e que se realiza, desde 2010, no último domingo de Março de cada ano, na livraria Culsete. Uma ideia que já deu quatro encontros em Setúbal, dois em Trás-os-Montes e Alto Douro, anunciando-se para breve o I Encontro Livreiro do Porto, fazendo dos encontros regionais o prolongamento natural do Encontro de Setúbal.

Mais recentemente, estabeleceu o Encontro-Livreiro uma parceria com a Fundação José Saramago, assinalando o Dia das Livrarias no dia 30 de Novembro de 2012. A partir deste ano, e conforme decisão do IV Encontro-Livreiro, passará a designar-se Dia da Livraria e do Livreiro, tornando-o mais abrangente, mas sobretudo destacando o lugar central que o livreiro ocupa no percurso do livro e no desenvolvimento da leitura.

Nunca me cansarei de citar Resendes Ventura, pseudónimo literário com que Manuel Medeiros assinou – enquanto poeta, ensaísta e livreiro – o já referido Papel a Mais: «Entre o livro e a leitura estou eu, o livreiro. O escritor publica a escrita, o editor publica o livro, o livreiro publica a leitura».

Ao longo deste ano a livraria Culsete, que abriu portas no dia 1 de Outubro de 1973, tem vindo a comemorar os seus 40 anos, organizando – com a sageza, a sensibilidade e a energia, que parece inesgotável, da Fátima e do Manuel, e a colaboração preciosa de alguns amigos – uma série rica e diversificada de iniciativas que têm sempre a preocupação primeira de juntar os amigos e os leitores. Na livraria. À volta da mesa. Na rua. Nos espaços culturais da cidade.
Parabéns Culsete.

Parabéns Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros.

Parabéns Nuno, Damião e Ana Júlia!

Parabéns a todos os que trabalharam e trabalham na livraria Culsete e fazem parte da sua belíssima e muito rica história e também, por isso, da História da Leitura em Portugal.

Parabéns a todos os leitores que, há quatro décadas, se deixam seduzir e maravilhar com as histórias e os tesouros que vivem e estão guardados, para partilha, nesta livraria de Setúbal, um rochedo em forma de navio que se soltou dos Açores e aportou a Setúbal, navegando – sem nunca deixar de avistar o Sado e a Arrábida e numa viagem sem fim – rumo ao País da Leitura.

Setúbal, Outubro de 2013

Luís Guerra


ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

Culsete, culvinte, cul… muitas memórias

Setúbal e Culsete são para mim quase sinónimos. Há anos já, é a Culsete a levar-me a essa cidade onde passei um ano de juventude, daqueles que duram mais, muito mais do que uma década vivida aos cinquenta.

Setúbal está sempre no saco das saudades. Feitas de tanta coisa, como preparar um exame numa tarde na praia de Albarquel, passar um domingo na mágica Troia de outros tempos, A. C., (antes do Cimento), subir a pé a pousada de S. Filipe para lavar os olhos na beleza do cenário disfrutado das ameias do castelo, só ultrapassável se uma boleia benemérita nos levasse ao cume da Arrábida ou a um mágico banho no Portinho onde as águas azul-turquesa eram o único mediterrâneo a que eu tinha então acesso, fora das fotografias. Tudo isso, aliás, não passava de luxos acrescentados ao diário convívio com a gente da Anunciada, onde os meus colegas e eu passávamos os serões e os fins de semana de rotina.

A Culsete (então Culdex) era a atracção secreta, os livros novos o íman que até lá me atraía, o fascínio do novo, o desejo de achar que o verso de Manuel Alegre, na altura sempre manual de alegria, punha em linguagem que me/nos agarrava pelos fundilhos.

O tempo foi rolando e os regressos a Setúbal foram-se fixando mais e mais nos encontros com amigos e livros que a, agora Culsete, foi sucessivamente inventando e proporcionando a quem deles quisesse usufruir.

Já lá vão não sei quantos desses encontros. Que ali me levaram e me fizeram colar mais e mais as imagens setubalenses sobrepostas às da livraria. Daí essa sensação estranha de que Setúbal fica bem mais próximo dos Açores; de lá parece que se vai a pé, mais depressa do que se atravessa o Sado para Troia.

Acho serem isso passos de viagem só na minha cabeça, mas nestas coisas a objectividade não tem voz. Por exemplo, eu escrevo da Nova Inglaterra, e daqui a pouco vou à Culsete bater um papo com a Fátima e o Manuel e, se calhar, trazer alguma novidade literária.

Onésimo Teotónio Almeida


VIRIATO SOROMENHO MARQUES

Testemunho lido no almoço comemorativo do 40.º aniversário da Culsete, em 7 de Julho de 2013

O que seria da vida cultural em Setúbal, se a Culsete nunca tivesse sido fundada, se o livreiro Manuel Medeiros não se tivesse radicado na cidade do Sado?

Esta é talvez a pergunta que, com uma espécie de facilidade visual, nos permite compreender tudo aquilo que a vida cultural em Setúbal deve à livraria e ao livreiro, à Culsete, ao Manuel, e também à Fátima Medeiros, ao longo destes quarenta anos.

Há alguma coisa de irónico, desde o início, quando designamos a Culsete como livraria. A ironia habita na clara desproporção entre os bens públicos e os benefícios privados associados a uma empresa ligada ao comércio do livro. Na verdade, a importância da Culsete e de Manuel Medeiros, na história cultural de Setúbal, está associada, precisamente, ao primado do interesse público sobre o benefício empresarial. Para os jovens da minha geração que passavam horas de leitura apaixonada, numa livraria que, na verdade, se substituía a uma biblioteca pública à altura do seu tempo, então inexistente em Setúbal, a relação de Manuel Medeiros com o fenómeno do livro e da leitura nunca foi nem só, nem dominantemente, uma relação comercial.

Manuel e Fátima Medeiros sempre compreenderam a importância do livro e da leitura para o processo de contínuo crescimento das pessoas e dos cidadãos, que não cessamos de ser ao longo da vida. O livro contém dentro de si uma riqueza e uma energia que ninguém está em condições de avaliar. Nem o leitor, nem o crítico, nem mesmo o autor. A tarefa do livreiro é a de libertar e fazer partilhar essa riqueza e essa energia. Por isso, ao longo destes quarenta anos, foram centenas as oportunidades criadas pela Culsete para que os setubalenses não só acompanhassem os livros como os seus autores, em pessoa, nas muitas iniciativas e encontros com escritoras e escritores, muitos deles já parte do panteão da língua portuguesa.

Na impossibilidade de estar presente neste mais do que merecido almoço de homenagem, gostaria que estas palavras pudessem ser lidas, como testemunho da minha profunda amizade e admiração pelo Manuel e pela Fátima. Também como tributo pela dívida cultural que nem eu, nem os setubalenses, estaremos jamais em condições de pagar. Pois uma das maiores lições que Manuel e Fátima Medeiros nos deram foi, precisamente, a da dádiva generosa, que é a fonte de todas as dívidas importantes. Aquelas que nunca se destinaram a ser pagas.

1 de Julho de 2013

Viriato Soromenho-Marques

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