sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Manuel Medeiros 1936-2013

Caiu chuva intermitente durante a noite, a manhã e a tarde. Houve gente andando por todo o lado, trabalhando, amando, passeando e crendo, e eu a sentir-me sempre ao lado. Abri os jornais, lidei os pratos, ouvi a chuva. Mas nada me parece encher o vazio no peito. O Manuel Medeiros morreu. Pôs-se a chover como se o mundo acabasse e ele morreu. O Tempo engole-nos a todos.

Ontem, ao fim da tarde, juntámo-nos uns quantos e rumámos ao sul. Fomos despedir-nos tardiamente, e amparar como pudéssemos os que ficam. A chuva adensava-se, as nuvens enegreciam, a estrada desaparecia, o carro andava. Ao chegarmos à igreja, passou-se o que é costume nestes momentos. Conversámos muito. O Manuel estava ali e nós conversámos enquanto lá de fora a chuva não entrava.

O Manuel Medeiros não é uma soma biográfica. Quem a quiser que procure os jornais. Para mim foi algo muito mais pessoal. Para mim o Manuel foi um amigo. Foi e é, pois o que os amigos plantam dentro de nós nunca desvanece. Há um vazio que ronda, que chama, mas é exterior: um vazio que o mundo ecoa, pois os afectos dele, os seus actos, a sua vida, tiveram importância. Mas o Manuel morreu, penso, suficientemente satisfeito com o que fez, amou e deixou. É um fraco consolo para quem fica e lhe sente a falta, mas não é um nada.

A Fátima. Imagino-a sentada ao lado dele, pegando-lhe docemente a mão, cantando uma canção suave. Imagino o último momento, aquele que é também o primeiro. Quando sabemos, quando se torna inevitável dizer que ele se foi. A Fátima. O Nuno. Imagino-lhes os rostos, mas quando vejo as lágrimas, elas afinal são como estas, aqui, minhas, e estou sozinho.

Aqui sentado entre os meus livros. Sozinho e cheio da presença do Manuel.
Ele senta-se mais ou menos à minha frente, tira o chapéu, ajeita o cachecol.
— Ah! que bem que se está aqui...
Mas este escritório é pequeno, não tem espaço. Olho em volta e parece-me demasiado cheio, quase sem espaço para ele.
— Não — diz-me olhando em frente, para a janela ao meu lado como se ali houvesse um longe. — Os livros nunca são demais.
Tem razão, claro.
Ficamos assim em silêncio durante algum tempo. Os carros passam vuishando a estrada, as gotas despenham-se na mesa da varanda. Há um tempo parado lá fora, diferente do tempo parado cá dentro.
— Um homem nunca pode ficar parado — avisa-me ele, pausadamente. — Um homem tem sempre de fazer alguma coisa.
Já o ouvira dizê-lo antes. Na sua casa, entre os livros e os papéis dele. Os a mais e os a menos. Mas aqui entre os meus, o sabor tem algo de diferente. É um conselho de amigo, um conselho de alma entre duas pessoas que se querem bem. Observo-lhe o rosto e lá luz um sorriso, beatífico e sabido.

Quando sai, ou melhor, ao vê-lo desaparecer, não sinto tanto o vazio a rondar como sentira. O que ele deixa não é, não pode ser um vazio. Enquanto o trouxermos no peito ele anda aqui. Hei-de estar a sair de um lado qualquer e sei que hei-de senti-lo perto, a sorrir e a fumar um cigarro. Tenho a certeza disto. E é um sorriso satisfeito, um olhar semicerrado e malandro, que lhe hei-de ver no rosto. Sim, tenho a certeza disto.

O Manuel Medeiros morreu e lá fora chove. Mas há-de parar. Há-de haver sol e um depois. E o Manuel andava sempre com os olhos postos em frente, no futuro. Pés bem assentes e olhar em frente. O corpo dele foi-se, fica o resto. O resto a gente leva em frente.

 Nuno Fonseca

24/10/2013

in  Orgia Literária 

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