sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Manuel Medeiros,o Último Livreiro de Portugal


SETBAL~1
Os livros perderam um dos seus maiores amigos e divulgadores : Manuel Medeiros, açoriano que em 1968 veio das ilhas, fez escala em Lisboa, fixou-se em Setúbal, fundando a livraria Culsete que dirigiu durante mais de 40 anos, num projecto em que foi apoiado pela sua mulher Fátima Ribeiro de Medeiros.
Manuel Medeiros fazia a sua livraria respirar os livros. Fazia com que o som das estórias aí contidas soassem como canto de sereias que nos encantavam pela voz de Manuel de Medeiros para quem nenhum livro era desconhecido. Foi pioneiro no cruzamento entre escritores, leitores e livros, com formas originais que se popularizaram nas livrarias onde a relação entre o livreiro e o visitante da livraria ganha a cumplicidade que só a cultura pode proporcionar. Na Culsete não se vendiam livros. O livro ganhava alforria pela mão de Manuel de Medeiros. Nunca era a simples mercadoria como, infelizmente se transformou nas grandes superfícies comerciais. O livro era um objecto de pertença cultural entre Manuel Medeiros e o seu interlocutor.
Em 2009, escreveu o livro “Papel a Mais” onde diz que “Quando optei por trabalhar a tempo inteiro na leitura, a escrita tornou-se papel a mais na minha vida.” A leitura encheu-lhe a vida. Escreveu menos do que muitos esperavam que ele próprio, nos anos da sua juventude, prometia. A leitura tornou-se o centro da sua vida. Leituras que partilhava com quem ia à sua livraria fosse para adquirir livros, fosse para participar nas inúmeras e polifacetadas iniciativas culturais que tornaram a Culsete emblemática, não só na cidade de Setúbal mas em todo o país.
Manuel Medeiros via com aguda lucidez os problemas que as livrarias independentes enfrentavam. Apontava os caminhos futuros de resistência “O que me parece é que o tradicional modo de ser da livraria como mercearia dos livros tem pouca viabilidade (…) Cada vez mais deverá ser apoiada a pequena ou média livraria como centro de convívio, como ‘oficina de leitura’ ou como especialização documental.”
Com Manuel Medeiros, tinha 77 anos, morre mais que um homem, morre o Último Livreiro de Portugal. O homem que rasgou as veredas para surgirem novos livreiros entre as gentes dos livros, como chamava aos que participavam nos encontros que promoveu na Culsete, onde afirmava com grande sageza: “Vamos lutar para vencer as queixas. Se temos mãos, não podemos estar à espera que Deus nos dê pão. E o Governo que vá passear e nos deixe trabalhar.”


Manuel Augusto Araujo

24/10/2013

 in  Praça do Bocaje

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