terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Livreiro (1936-2013)



Um enterro numa aldeia. Pergunto detalhes a um camponês que olhava de longe o cortejo. «Ainda era novo tinha pouco mais de sessenta anos. Encontraram-no morto no campo. Que se há-de fazer? É assim… É assim… É assim…»
Este refrão, que na altura me pareceu ridículo, atormentou-me depois. O homenzinho nem suspeitava que estava a dizer da morte tudo o que se pode dizer e tudo o que sabemos dela.
E.M. Cioran

Morreu um Poeta. Morreu um Livreiro, mas mais relevante, desapareceu um homem bom e com ele uma biblioteca inteira se perdeu. Manuel Medeiros, livreiro da livraria Culsete, em Setúbal, era para mim uma referência. Soube apenas ontem que “O Livreiro Velho” nos tinha deixado, o que não me permitiu fazer-lhe uma última homenagem. Não quero falar da morte, até porque a obra de um Homem, como Manuel Medeiros, não o deixa morrer.

Cruzei-me com ele algumas vezes, não era o que se pode dizer um amigo chegado, mas de todas as vezes que com ele falei nunca me deixou indiferente. Lembro-me da primeira vez que o vi, já tinha ouvido falar muito dele, mas nunca tinha tido o prazer de o encontrar. Até que, há seis anos atrás, o conheci, quando se realizou, na livraria Pó dos Livros, um encontro de livreiros independentes, vindos de todo o país, numa tentativa de se organizar uma associação de livreiros fora da APEL, que infelizmente não se concretizou. Não me esqueço, porque nessa animada reunião, quando já quase todos tinham dado a sua opinião, fez-se de repente um silêncio confrangedor. Inesperadamente, de um canto da livraria, ouve-se a voz de um livreiro velho, magro, de sorriso na boca, chapéu na cabeça e de longe a pessoa que, naquela sala, mais sabia do mercado livreiro. Já não me lembro exactamente o que ele disse, mas sei o que senti. Vou tentar explicar: Manuel de Medeiros era daquelas figuras cujo as palavras eram iguais à luz branca solar que ao passar por um prisma se reflecte em sete cores mágicas. Assim nos maravilhava com suas histórias, exemplos de vida, ditas sempre com uma linguagem simples, ao mesmo tempo lúcida, inteligível e culta. Desde essa altura passei a seguir o seu trabalho, a admirá-lo e a ter o prazer de conviver com ele de vez em quando. A última vez que o fui visitar à sua livraria, tivemos uma pequena conversa sobre o que é ser um livreiro. Disse-me com a sua sabedoria: «um escritor publica a escrita, um editor publica o livro e um livreiro publica a leitura».  Para Manuel Medeiros divulgar a leitura era tão importante como publicar ou escrever, porque ler é viajar aos mistérios mais profundos da natureza e do saber humano.

Jaime Bulhosa

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