segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria

Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria
Jorge Luís Borges


MANUEL MEDEIROS: LIVREIRO DA ESPERANÇA | Morreu o livreiro Manuel Me­deiros. Para quem estava por perto a notícia não é estranha, mas é sempre uma triste notícia. Dói como uma má surpresa.
Nasceu numa ilha, no meio do oceano, há mais de setenta anos, um rapaz muito curioso que uma vez pegou num livro e ficou fascinado. Nunca mais deixou de procurar outros exemplares daquele magnífico objecto. Nos anos que se segui­ram à descoberta brincou, estudou, escreveu, viveu intensamente, resistiu aos tempos difíceis, divulgou os livros da sua alegria pelos outros. Toda a vida fez isso. Mais tarde veio parar a Setúbal. Aqui conheceu aquela que viria a ser a sua companhia íntima e intelectual para sempre. Fátima acompanhou-o nos mo­mentos bons e nos menos bons. Percebeu primeiro o que pretendia aquele ho­mem que achava que os livros podiam mudar o mundo. A estas duas figuras da cultura setubalense deve a cidade quilómetros de leitura. Anos de convívio lite­rário. A livraria que dirigiram na cidade tornou-se um lugar mítico. Um sítio onde se vai aprender convivendo com os autores. Esta morte aconteceu mesmo no fim das comemorações dos 40 anos. No passado domingo, o Fórum Luísa Todi teste­munhou emocionada evocação, em que participaram muitos amigos. FILHOS DA LEITURA foi um espectáculo multidisciplinar muito bem estruturado, onde não faltou um depoimento de Manuel Medeiros gravado no hospital. Manuel contri­buiu até ao fim para o sucesso dos festejos, fazendo avisadas sugestões. O seu saber foi sempre bem recebido por todos os que o rodearam. Confidenciou a ami­gos que estava a viver um extraordinário tempo final.
ENCONTRO-LIVREIRO | Todos os últimos domingos de Março, a Culsete é lugar de encontro entre livreiros de todo o país. É o Encontro-livreiro. Este ano a orga­nização decidiu, sem que Manuel tivesse conhecimento, atribuir aos livreiros da Culsete a distinção de Livreiro da Esperança Especial. A entrega está marcada para 30 de Novembro, dia da Livraria e do Livreiro. Manuel já não estará cá para receber o diploma, mas o seu exemplo será recordado.
Também está em preparação um livro de textos que guarda muito do trabalho de Manuel Medeiros. Fátima Medeiros vai continuar o trabalho que Manuel não terminou, recolhendo textos e classificando-os. Há poesia, muita, textos de refle­xão filosófica e intervenção social.
A Casa da Cultura vai mostrar esta nova obra numa sessão Muito cá de casa.
Vamos continuar a contar com Manuel. Sempre.
VALEU! | Na dedicatória que escreveu no meu exemplar do seu livro PAPEL A MAIS Papéis de um livreiro com inédi­tos de escritores, Manuel Medeiros diz a linhas tantas: “Caro Teófilo, se os caminhos de Setúbal fazem sentido é por neles nos encontrarmos. e o que aqui fica é só a conclusão: VALEU A PENA, estamos de acordo também por nós dois, creio bem”.
Recordo-o aqui com emoção e faço dessa constatação cartaz de agradecimento.

Já sentimos a tua falta, Manuel.

José Teófilo Duarte

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