terça-feira, 29 de outubro de 2013

“SOU PELA POLIGAMIA”

Foi padre, professor de português, jornalista. Passou fome em duas fases da sua vida. A primeira quando veio para Lisboa e depois em Setúbal. Está casado há 34 anos. Tem 3 filhos. Vai ser avô em Dezembro. E é um dos livreiros mais antigos de Setúbal.
Manuel Pereira Medeiros é natural dos Açores. Veio para Lisboa com 32 anos, “ no célebre ano do Maio de 68”, para tratar um esgotamento. Em Água Retorta, aldeia onde nasceu, é conhecido por Manuel Pereira. Em Setúbal, por Manuel Medeiros. Quando escreve usa um pseudónimo. Escolheu os apelidos dos avôs paterno e materno.
Tem 70 anos e, por isso, já está reformado. “Passatempos? Não tenho. Não tenho tempo! Sou em escravo desta casa!” confessa enquanto tira o chapéu e passa a mão pelos cabelos acinzentados. Hoje o chapéu é bege. É um dos sócios da livraria Culsete e a maior parte do dia ainda é passada na livraria, mesmo ao lado do prédio onde vive.
“Se não fossem os meus filhos não estava aqui. Andava a conhecer o mundo. Eu sou um vagabundo, sabe? Infelizmente conheço muito pouco do mundo. A minha filha já conhece mais do que eu.” Mas antes de trocar os Açores pelo continente, Manuel Medeiros viajou pelo costa do Mediterrâneo. Percorreu o Egipto, Israel, Argélia, Turquia, Bulgária, Marrocos, Espanha, Itália. Entre muitos outros.
Ele de cachecol azul claro, camisa branca às riscas, gravata azul, casaco e calças escuras e sempre de chapéu. A filha ainda está a arrumar algumas encomendas de livros escolares. As pessoas lá fora passam com o guarda-chuva aberto. Mas ela de 26 anos, a mais nova dos três filhos, ainda veste uma t-shirt cor-de-rosa que combinam com os ténis rosa e as calças de ganga. Ela é professora de Português e bibliotecária. “Mas com a falta de emprego, agora está aqui a ajudar-me!.”
Os outros dois filhos escolheram caminhos diferentes. Um é sociólogo e o outro é engenheiro. “O meu filho mais velho vai ser pai. O do meio já é independente. Mas ainda não encontrou a sua princesa. E isso preocupa-me” diz com um cigarro na boca que ainda continua por acender.
Em 1969 tomou a que diz ter sido a decisão mais difícil da sua vida: deixar de ser padre. Afirma que abdicaria de ter uma mulher para toda a vida mas não de ter filhos. Decidiu que queria ser padre aos nove anos. O pai era anticlerical mas a mãe “vivia num mundo de tristeza. E eu queria que o mundo fosse um pouco mais feliz. Ser padre era uma forma de conseguir.”
“Não tenho um livro preferido! Tenho vários livros preferidos! Vários poemas preferidos. Vários autores preferidos. Vários poetas preferidos. Sou pela poligamia!” Tem o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Um dos que está a ler é O Lugar do Homem no Universo. Acaba por não revelar o seu livro preferido mas 1984 e Conquista da Felicidade são alguns dos livros que diz que qualquer jovem tem obrigação de ler. Mostrando mais um pouco da sua boa disposição, acrescenta “Recuso-me a falar com alguém com mais de 25 anos que não tenha lido estes livros!”
A conversa começou quando ainda estava no ar o noticiário da uma de uma rádio nacional. Acabou algum tempo depois do noticiário das duas. Manuel Medeiros tem de ir almoçar e antes de voltar para a livraria ainda tem de ir ao banco. Diz que só pára quando a saúde o obrigar.

“Reparou? Tanto tempo de conversa e tão pouco foi dito!” Pelo contrário, muitas coisas foram ditas. Tantas que não cabem nestas linhas.

LÍDIA ISABEL NICOLAU

Texto escrito enquanto estudante

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