terça-feira, 19 de novembro de 2013

LIVRAI-VOS!



Livrai-vos, livrem-se, tornem-se em estantes infinitas, em bibliotecas interiores, dêem a volta ao mundo sem bilhete, livrai-vos em 80 dias, livrem-se do mau momento, livramento, mercado, feira, tanto livro para me livrar, olhó prémio literário fresquinho, olhó clássico reeditado, olhá relíquia d'alfarrábio, livrai-vos desta realidade irreal, livremo-nos em sonho de olhos atentos, viajemos sentados, deitados nas nuvens (caracteres tempestuosos) e choremos com elas. Livrai-vos que por aí anda a pobreza, pelas ruas vazias, famintas, a pobreza suja pelos espíritos cheios de si próprios, a vidinha à luz do ecrã que mantém agrilhoados os génios, quem não lê não esfrega a sua lâmpada, não se livra, olha para o boneco que não se lhe apresenta. 
Não custa começar, vá lá, ajornalem-se, mesmo desportivamente, se necessário; revistam-se, mesmo de cor-de-rosa; o primeiro passo é aquela linha, como a mais distante num horizonte de planalto, o olho direito ganha sempre ao da esquerda, mas fazem uma bela equipa, são eles que nos contam aos ouvidos da alma. 

A sabedoria estará por aí dissimulada, mas a informação é muita, livrai-vos bastante e descansai à bananeira porque outros, que ainda se livram mais, escrevinhando, vos ajudarão a encontrar a verdade, através de histórias ancestrais, contos populares, do mito, das religiões, crenças, das culturas e guerras do mundo; shakespearem-se depressa, gil vicentem-se asinha, kafkem-se para isto tudo, ibsem-se!, mas cervantem-se sempre e apessoem-se de todos os heterónimos que apanharem conversando convosco, saramaguem-se, por fim, que foi Nobel, a verdade está lá toda, a linha do tempo desenhada em fibra humana; e, pelo caminho, livrem-se ainda mais, como o Quixote, e enlouqueçam mesmo, que ele era só a fingir, vale a pena dar em doido hoje em dia, amanhã em noite, atinge-se a felicidade num ápice, podemos tirar partido, assim chalados, de sermos quem nos apetecer, como actores que escolhem sempre os papéis que representam e se sentam mil vezes para logo se erguerem, aplaudindo e agradecendo simultaneamente. Que grande espectáculo é livrarmo-nos de tudo isto mergulhando numa só frase de infinitas páginas.

José Nobre

[Texto inédito, dito pelo autor, o ator José Nobre, no espetáculo FILHOS DA LEITURA, comemorativo dos 40 anos da Culsete, realizado no Fórum Municipal Luísa Todi em 20 de Outubro de 2013]

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