sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A CULSETE, FÁTIMA RIBEIRO DE MEDEIROS E EU



























A minha primeira experiência no contacto com as escolas para divulgar o meu trabalho, aconteceu a partir de 1984 quando realizei em Quadrinhos Os Lusíadas de Luís de Camões.
Tinha já assistido a palestras de colegas meus para o público infanto-juvenil e da dificuldade da assistência em perceber do que se falava, já que esta desconhecia totalmente os processos usados pelos profissionais. Lembrei-me então de passar a diapositivos o conteúdo desta obra que acabara de editar, tal como a Peregrinaçao de Fernão Mendes Pinto, para poder projetar as imagens e dissertar em face delas.
Foi quando recebi, através da Editorial Notícias onde fazia parte dos quadros da empresa, um convite da Livraria Culsete, em Setúbal, para fazer uma ação numa escola. A Culsete promovia pequenas feiras de livro em instituições escolares e convidava autoras e autores para falar com as crianças, que desta maneira verificavam que quem escreve e desenha são pessoas normalíssimas, sem pedestais sob os pés.
A simpática e dinâmica «livreira», Fátima Ribeiro de Medeiros, deslocou-se ao meu ateliê, na Amadora, para verificar o material que eu tinha para apresentar, antes de me levar à escola. Aprendi então com esta Senhora a gerir os tempos de intervenção e a conseguir captar e manter a atenção das crianças.
Também pela sua mão conheci o seu esposo, Dr. Manuel Medeiros, que me acompanhou depois noutras sessões, em Setúbal e Sesimbra. Fiquei amigo deste casal e dos seus filhos, muito novos então, porque partilhávamos do mesmo sonho: conseguir novos leitores de todos os escalões etários, a Culsete pela via da divulgação das obras conscientemente aconselhadas à pessoa certa, sem a preocupação de vender mais um livro, eu pela via dos Quadrinhos, como uma charneira de ligação à obra original, no caso de Os Lusíadas, Peregrinação, O Bobo de Alexandre Herculano ou Os Autos de Gil Vicente. Esta mútua colaboração manteve-se ao longo dos anos, até hoje. Sempre admirei esta equipa excecional e principalmente o importante papel da Dra. Fátima na organização tanto nos lançamentos de novos livros como de tertúlias de grande valor cultural, conseguindo a presença de figuras destacáveis pelo seu valor intelectual e humano. Não destaco aqui nomes pois não conseguindo mencionar todos, corria o risco de omitir algum, o que não desejo.
Tive na amiga Fátima Medeiros uma assídua leitora de tudo o que fui fazendo nestas décadas, o que significa para mim uma honra. Como algum livreiro pode aconselhar um livro se não o leu primeiro? No entanto, encontrei pelo menos um, em Lisboa, que não sabia quem era Fernão Mendes Pinto. E não era jovem. Mas esta «livreira» de corpo e ALMA não se fica por «ler»; analisa, disseca, numa entrega total como uma missionária. E lutando tantas vezes contra ventos e marés negras, contra o desalento e a desgraça, sempre firme e coerente na sua determinação.
Não aprendi com a Culsete apenas a orientação das sessões nas escolas, fui constatando o crescimento de uma família unida e coesa, e mais tarde colaborei com os filhos, já formados, explicando em aulas a técnica que criei e aplico no meu trabalho.
Será de grande injustiça pensar-se que a Fátima Medeiros terá agora a árdua tarefa de manter a Culsete, depois da partida do nosso amigo Manuel Medeiros que sempre admirei muito. Digo injustiça, pois a Fátima esteve sempre à frente desta notável «Casa dos Livros», em todas as organizações e iniciativas culturais. Portanto o que esperamos é que esta «Distinta Livreira» que se manteve ao lado e também à frente do «Livreiro Velho» continue o que sempre fez, com a mestria e a mesma dedicação.
Tantos foram os convites para eventos na Culsete que todos nós recebemos, com textos de apresentação escritos e preparados pela Fátima, que organizava as próprias sessões mas que generosamente assinava em nome de Manuel Medeiros. Este gesto sublinha ainda mais a admiração que todos devemos à «Distinta Livreira».
Proponho, pois, que passemos a chamar-lhe assim.


Setúbal | Culsete | 30 de Novembro de 2013


José Ruy

In Isto não fica assim!

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