quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Da Livraria, do Livreiro, do Leitor... da Leitura




A ideia de que o autor pode dispensar o editor, de que o editor pode dispensar o livreiro, de que o livreiro pode dispensar o leitor, bastando-lhes o último grito da tecnologia e que continue a haver clientes que consumam o livro, mesmo que não o leiam, é uma ideia, a meu ver, completamente errada e que esquece, ou ignora, algo de fundamental: sem leitores não há nem autor, nem editor, nem livreiro, nem livro. E diria até: nem grande futuro!

Partindo desta ideia e da convicção profunda de que, apenas do convívio, do encontro e da troca de ideias entre si, as gentes do livro poderão encontrar os melhores caminhos para fazer da leitura um verdadeiro desígnio em que possa ancorar-se o futuro, em progresso e em liberdade, a experiência do Encontro-Livreiro de 2010, o nosso primeiro encontro-convívio em torno de um moscatel e de muitas ideias, conheceu já quatro edições antes deste Encontro Livreiro Especial de hoje.

Não posso deixar de referir também, neste momento, os Encontros Livreiros Regionais, com duas edições em Trás-os-Montes e Alto Douro que já estão a dar frutos na forma de trabalhar, mais colectiva, das livrarias da região. Parabéns às livrarias e aos seus livreiros! Um abraço muito especial ao livreiro, e dinâmico elemento do nosso movimento, António Alberto Alves, da Traga-Mundos, em Vila Real.

E aproveito para dar aqui uma notícia que me chegou do Norte e que nos dá muita alegria e nos transmite um sinal de esperança para o futuro: no primeiro trimestre de 2014 e ainda antes do nosso Encontro Livreiro aqui na Culsete — como habitualmente na tarde do último domingo de Março, ou seja, no dia 30 de Março de 2014 —, vai realizar-se o I Encontro Livreiro do Porto e Grande Porto, de que daremos oportunamente notícias mais pormenorizadas através do nosso blogue, o ISTO NÃO FICA ASSIM! Parabéns às livrarias e aos livreiros envolvidos, há meses, na sua preparação.

Muitos livreiros lutam hoje pela sobrevivência mas gostam muito do que fazem, querem defender a dignidade da sua profissão e sabem que os leitores podem e devem ser os seus principais aliados. Apesar disso e por isso, estão em festa – a festa do livro e da leitura – e convidam os leitores a visitá-los nas suas casas. Espero, por isso, que os leitores acorram às livrarias num dia que, sendo da Livraria e do Livreiro, é também o dia do Leitor.

Vivemos um tempo agreste de ditadura. A ditadura do efémero, do fugaz, do superficial, do que vende muito e depressa, do espalhafato, e não um tempo do perene, do que perdura para além dos tops, dos holofotes, da fanfarra ensurdecedora que nos distrai e afasta do essencial.

Sendo esta data, a partir deste ano, designada como Dia da Livraria e do Livreiro, faz todo o sentido centrar a nossa reflexão na livraria e no livreiro, mas também no leitor, pois é ele que justifica, no fundo, todos os intervenientes na vida do livro. Se continuarmos apenas preocupados em arranjar clientes, mais clientes, e apenas mais clientes — atraindo-os com as mais variadas formas de folclore ou como se estivéssemos a anunciar a banha da cobra – não vamos conseguir defender e salvaguardar uma rede livreira (e também editorial, acrescento) diversificada e que não retire ao leitor a sua sacrossanta liberdade de escolha.

No fundo, no mundo do livro não lutamos por nada de muito diferente daquilo por que lutamos na sociedade.

Os tempos são difíceis? São. Mas é na tomada de consciência dos problemas e dos erros das opções e soluções que têm sido seguidas que está a semente de um futuro diferente e melhor. E nós acreditamos que é na promoção da leitura e na procura de mais leitores, cada vez mais leitores – livres e conscientes e com possibilidade de aceder a um fundo editorial diversificado – que está o futuro das gentes do livro (autores, editores, livreiros, bibliotecários, tradutores, professores, investigadores, jornalistas e demais profissões que se relacionam com o livro).

A leitura é, ou pode ser, o elemento agregador das gentes do livro. Vamos então pôr a leitura no primeiro lugar do nosso top.

Este Encontro Livreiro Especial é especial por diversas razões:

1) Acontece no Dia da Livraria e do Livreiro, um dia que, em parceria com a Fundação José Saramago, festejamos desde o ano passado e pretende chamar a atenção para o lugar central que a livraria e o livreiro ocupam no percurso do livro, da ideia e da escrita do autor até à leitura e à reescrita infinitas do leitor, bem como na promoção e desenvolvimento da leitura;

2) Acontece no ano em que a Culsete, a sua anfitriã e principal impulsionadora, comemora quarenta anos, tendo a cidade de Setúbal assistido ao longo do ano a uma série de iniciativas que reuniram — na livraria, à volta da mesa, na rua e em espaços culturais da cidade — muitos amigos e leitores;

3) Acontece no dia em que entregamos formalmente o diploma Livreiro da Esperança Especial Culsete – 40 Anos aos livreiros que construíram e consolidaram esta livraria, Manuel Medeiros e Fátima Ribeiro de Medeiros. Este diploma foi atribuído no dia 1 de Agosto de 2013, à revelia dos homenageados, como não poderia deixar de ser, e proposto a uma subscrição pública que reuniu até hoje cerca de três centenas de subscritores;

4) Acontece já sem a presença física do Manuel, mas com a presença, a determinação, a experiência e o saber da Fátima que, sendo simultaneamente professora e investigadora, é sobretudo livreira e um importante pilar desta casa;

5) E acontece ainda com a nossa firme vontade de manter aqui as reuniões anuais deste movimento inédito das gentes do livro. Que dele possam surgir outros movimentos e iniciativas colectivas, nomeadamente das livrarias, mas também de outros sectores do mundo do livro, é algo que nos dará muito gosto e alegrará os dias cinzentos que persistem e ameaçam ensombrar o nosso quotidiano presente e futuro. E há já por aí, assumindo diversas formas, sinais bem evidentes disso mesmo.

Por todas estas razões, pensámos que este Encontro poderia ter também um figurino diferente, convidando algumas pessoas a escrever e a ler-nos um texto em torno da questão da livraria, do livreiro e da leitura. Todos — entre os quais me incluo — amigos da livraria Culsete que, num texto escrito em Outubro para as comemorações, designei como um rochedo em forma de navio que se soltou dos Açores e aportou a Setúbal, navegando — sem nunca deixar de avistar o Sado e a Arrábida e numa viagem sem fim — rumo ao País da Leitura.

E no final, a livre troca de ideias entre os presentes enriquecerá, estou certo, uma tarde tão especial passada no conforto de uma livraria que muitos sentimos como nossa casa.

E como uma livraria como esta, que guarda maravilhosos tesouros para partilhar com amigos e leitores que a visitam, não se faz sem a participação de muitos, não quero terminar sem deixar uma referência e uma saudação a todos os que trabalharam e trabalham nesta livraria, bem como aos seus leitores e amigos de quatro décadas. Fazem todos parte — e talvez nos possamos incluir também nesse lote — da História da Leitura em Portugal.

Por último, porque muito especial e sentido, deixo aqui o meu abraço, bem rijo e amigo, à Fátima, ao Nuno, ao Damião e à Ana Júlia e, através deles, a toda a família. Obrigado por nos receberem sempre tão bem nesta casa que, sendo muito vossa, que aqui quase nasceram, cresceram, brincaram, leram, trabalharam, propagaram o vírus da leitura e viveram muitos anos das vossas vidas, é também um pouco de cada um dos presentes e de tantos outros que, de uma forma ou de outra, foram irremediavelmente tocados por esta livraria e pelos seus livreiros.

Setúbal | Culsete | 30 de Novembro de 2013

Luís Guerra

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