terça-feira, 21 de janeiro de 2014

“UM TAL” NUNO BRAGANÇA

 

O livreiro é muitas vezes confrontado com diversas situações criadas pelos seus leitores, das mais delicadas às mais risíveis. A que vou contar hoje aconteceu a Manuel Medeiros, muito longe ainda de ser o Livreiro Velho. Quando jovem livreiro em princípio de carreira, em Lisboa, na Nosso Tempo, a sua primeira livraria, Manuel Medeiros recebia correspondência de diversa proveniência. Eram cartas de instituições e de empresas, mas também de particulares, fazendo encomendas, comentando acontecimentos e prémios literários, solicitando informações, dando sugestões, apresentando reclamações, pedindo contactos, e muitos outros assuntos cuja enumeração se tornaria fastidiosa. Sabe-se que a muitos respondia, mas não a todos. Os e-mails e as mensagens por telemóvel eram ainda ficção científica, ou talvez nem isso, daí que tudo era feito por carta ou bilhete postal, devidamente enviado pelo correio. Entre os cumprimentos da praxe e os obsequiosos agradecimentos, o assunto a tratar estendia-se em considerações e adjetivos pelo corpo da carta que se tornava, via de regra, longa e quase sempre igual. Para criarem alguma diferenciação, certas pessoas falavam do tempo, das suas crianças, da carestia de vida e de outros assuntos em voga no momento, o que fazia com que a missiva tivesse muitas vezes três, quatro ou cinco páginas. E o jovem livreiro, perdido num labirinto de folhas de papel, a ter de lê-las na íntegra…
Uma dessas cartas, escrita há 45 anos por leitora muito amiga do livreiro, senhora muito ocupada com chás das cinco, encontros de amigas, ensino da leitura a pobrezinhos analfabetos e outros assuntos que tais, pessoa que se tinha na conta de muito culta e sabedora das coisas da literatura, procurando, nas suas próprias palavras, estar sempre a par de “tudo o que saía cá dentro e lá fora”, colocou ao livreiro uma questão singular, escrevendo o seguinte (os sublinhados são meus):
Acabei esta manhã de ler A Noite e o Riso, de um tal Nuno Bragança, que me parece sensível demais à mística feminina para se tratar realmente de um homem. Achas que alguém escolheu de propósito um pseudónimo enganoso? Mas caso exista mesmo tal “macho pensante” quanto gostaria de encontrá-lo e conhecê-lo. Vi descritas pela sua mão tantas opções e prioridades minhas, tantas reações subtis, disfarçadas mal percebidas, melindres de alma que cravejam um íntimo anel de pudor ignorado por todos, percepções certíssimas… Descobre-me quem se esconde atrás do nome pomposo.
Não sei se o então jovem livreiro terá respondido à sua amiga leitora, mas confio que a mesma tenha já esclarecido as suas dúvidas em relação ao escritor Nuno Bragança.
F.R.M.

[foto de Nuno Bragança retirada de http://meianoitetododia.blogspot.pt]

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

UMA MEMÓRIA CARICATA–A licença de venda de tabaco

 

Hoje quero partilhar convosco uma memória caricata, a da licença de venda de tabaco. Regulamentada por Decreto-Lei de 28 de Junho de 1944, retificado em 5 de Abril de 1968, esta ridícula licença, que existia desde 1929, apresentava-se em duas modalidades, para o grossista e para o retalhista, e era tirada por ano civil, sendo paga de uma só vez no primeiro caso e em Junho e Dezembro no segundo, tendo preços diferenciados para vendedores de Lisboa e Porto, para outras cidades e para demais localidades. Tinha de afixar-se em lugar bem visível para que todos os compradores de tabaco a vissem. Como todo o tipo de estabelecimento comercial, da tasca à sala de espetáculos, podia, se o pretendesse, vender tabaco, esta era uma receita segura e significativa para o Estado Novo. O próprio impresso da licença era pago pelo comerciante.
Ao contrário do que se poderia pensar, a licença de venda de tabaco não foi extinta a seguir à Revolução de 25 de Abril. Ainda foi paga por todos os grossistas e retalhistas a licença referente aos anos de 1975 e de 1976. Só em 1977 deixou de existir.
A Culsete pagou a sua primeira licença de venda de tabaco a retalho a 25 de Setembro de 1973, seis dias antes de abrir a porta ao público, com validade até 31 de Dezembro desse ano. Mostra-se aqui a última licença paga pela Culsete, em 1976 (frente e verso).
F.R.M.

LICENÇA PARA VENDA DE TABACO A RETALHO F      LICENÇA PARA VENDA DE TABACO A RETALHO V

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

14 de Janeiro, dia do 78.º aniversário de Manuel Medeiros

 

Em 2012 foi assim que Manuel Medeiros comemorou 77 anos, com os netos bem perto dele e muitos livros em pano de fundo.

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Hoje passam 78 anos sobre o seu nascimento, numa manhã cinzenta, lá longe, em Água Retorta,   na ilha de São Miguel. Parabéns, Manuel.

sábado, 11 de janeiro de 2014

ESCRITA AMIGA–Sobre escrever e ensinar, Onésimo Almeida

 

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[14 de Julho de 2013, Onésimo Teotónio Almeida na Culsete ]

Há dias, pessoa amiga escreveu-me a pedir-lhe que respondesse a umas perguntas para citar num texto que estava a escrever. As primeiras duas eram estas que reproduzo aqui já que ela não teve oportunidade de as inserir no seu escrito.
 
1ª. Sei que escreve por gosto, prazer. Só? 
2ª. O que é, para si, ser docente/professor universitário?
 
As respostas tinham que ser telegráficas e seguiram nestes dois pacotinhos:
 
1 - Sempre disse que não gosto de escrever; gosto é de ter coisas escritas. Prefiro - mil vezes - ler. E de conversar. Mas uso sangue frio e penso: farto-me de falar e repetir as mesmas coisas montes de vezes. À medida que os anos passam, vou perdendo a paciência de entrar em certas conversas e por isso faço o sacrifício de atirar ao papel (agora é ao ecrã) ideias que, em caso de necessidade, posso partilhar com quem estiver interessado em ler. A maior parte das vezes, escrevo por encomenda. Pedem-me para falar aqui e ali e aproveito para pôr no papel ideias que desenvolvo nas aulas, ou que me ocorrem quando estou a ler livros, a conversar com amigos (ou com chatos, que são uma grande fonte de temas de escrita), ou mesmo quando estou a conduzir e até a adormecer (sei que é grave estas duas últimas situações coincidirem).
 
2 - Sobre ensinar - Anteontem, no final de um seminário com alunos do primeiro ano (a Brown dá-se ao luxo de proporcionar a  alunos do primeiro ano a oportunidade de fazerem um seminário com menos de vinte alunos leccionado por um catedrático) saiu a conversar comigo um mocito de Hong Kong. Falava com entusiasmo das leituras e das aulas e, a certa altura, disse-me: O senhor deveria estar a trabalhar para o governo em Washington!. Eu voltei-me para ele: Não me deseje tanto mal na vida. Sabe lá o prazer que me dá estar numa aula com alunos como vocês, interessadíssimos, a vibrar com as leituras e embrenhados nos debates expressando livremente as suas opiniões fundamentadas numa leitura atenta? Não me deseje um fim de vida assim tão sorumbático, pesadão, chato. Deixe-me sonhar que sou jovem como você e como os seus colegas de curso.

Onésimo Teotónio Almeida

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando as memórias, mesmo as tristes, aproximam as pessoas

 

A história de «Uma memória triste», texto que postei ontem sobre um auto de apreensão de livros levado a cabo na Culdex em 27 de Março de 1972, não ficou por aí. Várias pessoas falaram comigo sobre o assunto ou a ele reagiram no facebook. Ainda há pouco recebi do meu caro amigo Zé Costa a resposta que aqui transcrevo. É importante percebermos como reagiam os livreiros a estas situações e é lindo vermos como os homens superiores sabem perdoar sem esquecer.  

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[17 /6/2012, José Francisco Costa na Culsete  assinando o seu livro Ficou-me na Alma este Gosto…]

 

Caríssima Fátima:
Foi mesmo uma grande surpresa.  Andei algum tempo à procura desse documento. Depois desisti quando vim para os Estados Unidos. Nunca me lembrei de perguntar ao Manuel. Só te peço que me faças uma cópia. Como sempre, há uma História por detrás desta estória. Os livros apreendidos estavam à exposição. Era o truque para se evitar uma busca mais aprofundada nas estantes e depósitos. Aí havia mais, que íamos vendendo ao "pessoal de confiança". Sei que o fazia, e o Manuel também, numa conivência que durou até agora.
Vi ainda o senhor Passos mais duas ou três vezes, a rondar a montra e a olhar vagamente para as estantes. E, um dia, perguntou-me "Então, amigo Costa, mais alguma coisa por aqui?" E eu que não, que  aquilo dos três livros tinha sido distração da minha parte. "'Mas, para a próxima, veja lá...". E, nas reticências, lá deixou a ameaça de que se engordava o regime. O senhor Passos, coitado, esse era bom homem.
Tenho a certeza que o Manuel,  se o encontrou depois  do Abril da nossa Liberdade, lhe terá puxado uma orelha, e o terá envolvido com a desculpa carinhosa no seu sorriso de olhos azuis.
Abraço
José Costa

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

UMA MEMÓRIA TRISTE

 

Ao arrumar, para memória futura, os papéis de Manuel Medeiros tenho-me deparado com documentos bastante interessantes. A maior parte dessa documentação repousa há décadas em caixas de cartão e tem-me exigido máscara respiratória e luvas de silicone. São cartas (privadas e institucionais), recados, poemas, escritos de reflexão filosófica, desabafos de alma, contas, esquemas diversos, textos com estratégias comerciais ou de animação de leitura, documentos do seu tempo de sacerdote e da sua vida de jornalista, empresário e livreiro, através das instituições por onde passou a partir de 1967, as revistas Missão e AZ, as empresas Nosso Tempo, Ulissarte, Culdex e Culsete. Muitos são pessoais e íntimos, outros são institucionais ou dão a ver muitos dos aspetos de vida e mentalidade do Portugal de então. Muitas das pessoas que assinam alguns desses documentos são gente que já ocupou ou ainda ocupa lugares de destaque no seu mundo, o eclesiástico, o jornalístico, o cultural, o empresarial. Muitos dramas, muita amizade, algum despeito, alguma decepção, sonhos diversos, propostas e enredos habitam este património riquíssimo que ficará guardado e devidamente preservado até ter um destino condigno que o possa tornar público.
Contudo, tenho encontrado certos documentos que considero dever mostrar, já que deixam perceber a verdadeira dimensão de um país onde governantes e executores pequeninos impunham coisas pequeninas a todo um povo. Às vezes precisamos de avivar certas memórias do passado para não nos deixarmos atirar para atitudes semelhantes.
Decidi mostrar hoje a cópia de um auto de apreensão de três exemplares de dois livros (um de O Partido Comunista, de George Marchais, e dois de A Nova Esquerda na Europa, da coleção Cadernos D. Quixote). A apreensão foi feita em 27 de Março de 1972 pelo comando da Polícia de Segurança Pública de Setúbal na livraria Culdex, a antecessora da Culsete. O “indivíduo presente” no momento da apreensão, que teve de assinar o auto, foi José Francisco Costa, então a trabalhar na livraria. Atualmente é professor do ensino superior em Bristol, nos Estados Unidos, sendo autor de diversos livros, a maioria de poesia. O encarregado da apreensão foi o guarda Manuel do Carmo Passos, tendo como testemunha o colega João Filipe Júnior. Triste memória biográfica para estes dois indivíduos, a descoberta desta cópia do auto de apreensão. Triste memória para nós todos, esta de durante várias décadas um editor não poder editar tudo o que queria, um livreiro não conseguir vender todo o que pretendia e um leitor ter de comprar certos livros às escondidas, “pela porta do cavalo” ou “por debaixo do balcão”, como então se dizia.
Aqui ficam as imagens da frente e verso deste auto de apreensão.
F.R.M.

Apreensão de livros pela PIDE 1    Apreensão de livros pela PIDE 2

domingo, 5 de janeiro de 2014

ESCRITA AMIGA - Quando o Menino Jesus Fez de Pai Natal

 

Como até ao Dia de Reis ainda é Natal publicamos hoje um lindo texto que nos foi enviado por Esaú Dinis. Já recebemos outros que a seu tempo irão aparecendo aqui no bloque. Obrigado a todos os amigos que assim estão a colaborar connosco.

 

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[Artur Goulart e Esaú Dinis na Culsete]

Naquele ano, ainda o Natal vinha longe, montaram, no maior Largo da cidade, um presépio com tudo e com todos.

Havia a vaca e o burrinho. Ali estavam, com incenso, ouro e mirra, os Reis Magos, conduzidos por uma estrela cintilante. Vários pastores tinham trazido leite, mel e queijo e alguns cordeirinhos recém-nascidos. Dois pescadores agarravam nos braços uma rede cheia de peixes, todos prata e ouro. O Menino Jesus resplandecia nas palhinhas sorridente.

Faltavam apenas três dias para o Natal, quando, de manhã, as pessoas ao olharem para o grande presépio, deram pela falta do Menino.

Uns diziam que ele tinha ido embora por causa do frio, chuva e ventania. Outros pensavam que alguém o tinha roubado para o levar para casa e pôr ao lado do sapatinho. Alguns imaginavam que se tornara invisível, mas que não estava longe. Ninguém sabia ao certo.

Nas ruas e praças da cidade, pelos caminhos e povoações da Ilha inteira, não se falava de outra coisa: no meio da noite, em lua nova de breu, o Menino Jesus tinha desaparecido, sem deixar rasto.

Não se conseguia adivinhar para onde fora, nem para quê, nem até quando.

Jornais, bombeiros, rádios e televisões lançaram o alerta. Era preciso encontrar depressa e trazer de volta o Menino Jesus ao presépio de toda a gente.

Até os telemóveis tocavam, por ruas, cafés e vielas, no interior das casas, por montes e valados: Alerta! Alerta! É preciso e urgente descobrir onde se encontra e trazê-lo de regresso ao aconchego do burro e da vaquinha.

As horas passaram, o Natal estava a chegar e nada de Menino Jesus.

No Largo maior da cidade, a manjedoura continuava vazia. Ninguém descobre onde pode estar o Menino Infante, filho da Virgem Maria.

Chegou a noite de todos os presentes. O Pai Natal andava no sobe e desce das chaminés e já havia percorrido a cidade inteira e a maior parte das freguesias, acabava de passar pela rua das Azáleas na Fajã de Baixo.

Já a caminho dos pastos, para os lados da Lagoa do Fogo, cansado de distribuir tanta prenda, parou para descansar numa esquina. Mal se tinha de pé com tanto saco. Encostou-se ao canto de um serrado e passou pelas brasas. Foi ao acordar que deu conta que estava mesmo ali, meio adormecido, o Menino Jesus que desaparecera do presépio da cidade.

Mal lhe pega, ele abre um olho sonolento e logo outro acordado. Sorri de contente e pede para ser levado até a uns casebres em Rabo de Peixe, pois era para lá que queria levar prendas de Natal.

Explicou que desde há dias saíra da cidade, à procura de certos meninos a quem queria levar presentes e abraços. Já visitara alguns para os lados das Furnas e de Nordeste, mas agora faltava-lhe passar pelos bairros de pescadores em Rabo de Peixe.

Muito cansado, o Pai Natal, lançou-se, uma vez mais, ao caminho por montes e cumeadas, trazendo sempre entre os braços, aconchegado, o Menino Jesus que voltara a adormecer.

Cumprida a missão, perderam-se para os lados das Capelas. A chuva caía miudinha molhando tudo. A noite estava escura. O cansaço era cada vez maior.

Vão a passar pela rua do Navio e reparam que lá dentro, numa das casas via-se a árvore de Natal, sempre a acender e a apagar, como quem convida a entrar.

Bateram à porta. Não há ninguém lá dentro.

Já se afastavam, quando viram que a Kika tinha aberto a porta, enquanto a Luanda abanava a cauda de alegria. Iam receber visitas.

Cansados dos caminhos, dos sacos de presentes e da chuva, mal entram, logo adormecem, deitados juntos na carpete, aos pés da árvore de Natal.

As horas correm, a noite escorrega para a madrugada.

O dia está quase a clarear, quando lhes parece escutarem, ao longe, um Toyota Yaris, que se aproxima devagarinho, como quem vai parar.

À pressa, saem para o quintal. Menino Jesus e Pai Natal ficam escondidos no meio de um tufo enorme de hortênsias, por detrás do muro da frente.

Logo que todos entram em casa, os dois correm para os lados das Sete Cidades, cumeeiras acima.

Já vão longe no caminho, quando o Pai Natal se lembra que esquecera no quintal das Capelas o saco das prendas destinado àquela casa.

Já de olho bem arregalado, o Menino Jesus diz para o Pai Natal: Não faz mal. Tu ficas aqui a descansar. Desta vez, serei eu a levar os presentes aos meninos Romeu, Pedro, António e Francisco, mais àquela donzela, que, se bem me lembro, ainda é da minha parentela, não se chamasse ela Raquel.

E foi assim, que por uma noite, e por uma só vez, o Menino Jesus fez de Pai Natal.

Quando o Menino Jesus encontrou de novo o Pai Natal, este reparou que pelas faces rolava cristalina uma gota de água. Nunca ninguém soube se era só chuva ou lágrima de alegria. Mas, os dois estavam felizes, e de manhã, no presépio da cidade, lá estava de volta o Menino Jesus. Missão cumprida.

Esaú Dinis, Capelas , 25-12-2006