domingo, 5 de janeiro de 2014

ESCRITA AMIGA - Quando o Menino Jesus Fez de Pai Natal

 

Como até ao Dia de Reis ainda é Natal publicamos hoje um lindo texto que nos foi enviado por Esaú Dinis. Já recebemos outros que a seu tempo irão aparecendo aqui no bloque. Obrigado a todos os amigos que assim estão a colaborar connosco.

 

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[Artur Goulart e Esaú Dinis na Culsete]

Naquele ano, ainda o Natal vinha longe, montaram, no maior Largo da cidade, um presépio com tudo e com todos.

Havia a vaca e o burrinho. Ali estavam, com incenso, ouro e mirra, os Reis Magos, conduzidos por uma estrela cintilante. Vários pastores tinham trazido leite, mel e queijo e alguns cordeirinhos recém-nascidos. Dois pescadores agarravam nos braços uma rede cheia de peixes, todos prata e ouro. O Menino Jesus resplandecia nas palhinhas sorridente.

Faltavam apenas três dias para o Natal, quando, de manhã, as pessoas ao olharem para o grande presépio, deram pela falta do Menino.

Uns diziam que ele tinha ido embora por causa do frio, chuva e ventania. Outros pensavam que alguém o tinha roubado para o levar para casa e pôr ao lado do sapatinho. Alguns imaginavam que se tornara invisível, mas que não estava longe. Ninguém sabia ao certo.

Nas ruas e praças da cidade, pelos caminhos e povoações da Ilha inteira, não se falava de outra coisa: no meio da noite, em lua nova de breu, o Menino Jesus tinha desaparecido, sem deixar rasto.

Não se conseguia adivinhar para onde fora, nem para quê, nem até quando.

Jornais, bombeiros, rádios e televisões lançaram o alerta. Era preciso encontrar depressa e trazer de volta o Menino Jesus ao presépio de toda a gente.

Até os telemóveis tocavam, por ruas, cafés e vielas, no interior das casas, por montes e valados: Alerta! Alerta! É preciso e urgente descobrir onde se encontra e trazê-lo de regresso ao aconchego do burro e da vaquinha.

As horas passaram, o Natal estava a chegar e nada de Menino Jesus.

No Largo maior da cidade, a manjedoura continuava vazia. Ninguém descobre onde pode estar o Menino Infante, filho da Virgem Maria.

Chegou a noite de todos os presentes. O Pai Natal andava no sobe e desce das chaminés e já havia percorrido a cidade inteira e a maior parte das freguesias, acabava de passar pela rua das Azáleas na Fajã de Baixo.

Já a caminho dos pastos, para os lados da Lagoa do Fogo, cansado de distribuir tanta prenda, parou para descansar numa esquina. Mal se tinha de pé com tanto saco. Encostou-se ao canto de um serrado e passou pelas brasas. Foi ao acordar que deu conta que estava mesmo ali, meio adormecido, o Menino Jesus que desaparecera do presépio da cidade.

Mal lhe pega, ele abre um olho sonolento e logo outro acordado. Sorri de contente e pede para ser levado até a uns casebres em Rabo de Peixe, pois era para lá que queria levar prendas de Natal.

Explicou que desde há dias saíra da cidade, à procura de certos meninos a quem queria levar presentes e abraços. Já visitara alguns para os lados das Furnas e de Nordeste, mas agora faltava-lhe passar pelos bairros de pescadores em Rabo de Peixe.

Muito cansado, o Pai Natal, lançou-se, uma vez mais, ao caminho por montes e cumeadas, trazendo sempre entre os braços, aconchegado, o Menino Jesus que voltara a adormecer.

Cumprida a missão, perderam-se para os lados das Capelas. A chuva caía miudinha molhando tudo. A noite estava escura. O cansaço era cada vez maior.

Vão a passar pela rua do Navio e reparam que lá dentro, numa das casas via-se a árvore de Natal, sempre a acender e a apagar, como quem convida a entrar.

Bateram à porta. Não há ninguém lá dentro.

Já se afastavam, quando viram que a Kika tinha aberto a porta, enquanto a Luanda abanava a cauda de alegria. Iam receber visitas.

Cansados dos caminhos, dos sacos de presentes e da chuva, mal entram, logo adormecem, deitados juntos na carpete, aos pés da árvore de Natal.

As horas correm, a noite escorrega para a madrugada.

O dia está quase a clarear, quando lhes parece escutarem, ao longe, um Toyota Yaris, que se aproxima devagarinho, como quem vai parar.

À pressa, saem para o quintal. Menino Jesus e Pai Natal ficam escondidos no meio de um tufo enorme de hortênsias, por detrás do muro da frente.

Logo que todos entram em casa, os dois correm para os lados das Sete Cidades, cumeeiras acima.

Já vão longe no caminho, quando o Pai Natal se lembra que esquecera no quintal das Capelas o saco das prendas destinado àquela casa.

Já de olho bem arregalado, o Menino Jesus diz para o Pai Natal: Não faz mal. Tu ficas aqui a descansar. Desta vez, serei eu a levar os presentes aos meninos Romeu, Pedro, António e Francisco, mais àquela donzela, que, se bem me lembro, ainda é da minha parentela, não se chamasse ela Raquel.

E foi assim, que por uma noite, e por uma só vez, o Menino Jesus fez de Pai Natal.

Quando o Menino Jesus encontrou de novo o Pai Natal, este reparou que pelas faces rolava cristalina uma gota de água. Nunca ninguém soube se era só chuva ou lágrima de alegria. Mas, os dois estavam felizes, e de manhã, no presépio da cidade, lá estava de volta o Menino Jesus. Missão cumprida.

Esaú Dinis, Capelas , 25-12-2006

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