sábado, 11 de janeiro de 2014

ESCRITA AMIGA–Sobre escrever e ensinar, Onésimo Almeida

 

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[14 de Julho de 2013, Onésimo Teotónio Almeida na Culsete ]

Há dias, pessoa amiga escreveu-me a pedir-lhe que respondesse a umas perguntas para citar num texto que estava a escrever. As primeiras duas eram estas que reproduzo aqui já que ela não teve oportunidade de as inserir no seu escrito.
 
1ª. Sei que escreve por gosto, prazer. Só? 
2ª. O que é, para si, ser docente/professor universitário?
 
As respostas tinham que ser telegráficas e seguiram nestes dois pacotinhos:
 
1 - Sempre disse que não gosto de escrever; gosto é de ter coisas escritas. Prefiro - mil vezes - ler. E de conversar. Mas uso sangue frio e penso: farto-me de falar e repetir as mesmas coisas montes de vezes. À medida que os anos passam, vou perdendo a paciência de entrar em certas conversas e por isso faço o sacrifício de atirar ao papel (agora é ao ecrã) ideias que, em caso de necessidade, posso partilhar com quem estiver interessado em ler. A maior parte das vezes, escrevo por encomenda. Pedem-me para falar aqui e ali e aproveito para pôr no papel ideias que desenvolvo nas aulas, ou que me ocorrem quando estou a ler livros, a conversar com amigos (ou com chatos, que são uma grande fonte de temas de escrita), ou mesmo quando estou a conduzir e até a adormecer (sei que é grave estas duas últimas situações coincidirem).
 
2 - Sobre ensinar - Anteontem, no final de um seminário com alunos do primeiro ano (a Brown dá-se ao luxo de proporcionar a  alunos do primeiro ano a oportunidade de fazerem um seminário com menos de vinte alunos leccionado por um catedrático) saiu a conversar comigo um mocito de Hong Kong. Falava com entusiasmo das leituras e das aulas e, a certa altura, disse-me: O senhor deveria estar a trabalhar para o governo em Washington!. Eu voltei-me para ele: Não me deseje tanto mal na vida. Sabe lá o prazer que me dá estar numa aula com alunos como vocês, interessadíssimos, a vibrar com as leituras e embrenhados nos debates expressando livremente as suas opiniões fundamentadas numa leitura atenta? Não me deseje um fim de vida assim tão sorumbático, pesadão, chato. Deixe-me sonhar que sou jovem como você e como os seus colegas de curso.

Onésimo Teotónio Almeida

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