sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Quando as memórias, mesmo as tristes, aproximam as pessoas

 

A história de «Uma memória triste», texto que postei ontem sobre um auto de apreensão de livros levado a cabo na Culdex em 27 de Março de 1972, não ficou por aí. Várias pessoas falaram comigo sobre o assunto ou a ele reagiram no facebook. Ainda há pouco recebi do meu caro amigo Zé Costa a resposta que aqui transcrevo. É importante percebermos como reagiam os livreiros a estas situações e é lindo vermos como os homens superiores sabem perdoar sem esquecer.  

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[17 /6/2012, José Francisco Costa na Culsete  assinando o seu livro Ficou-me na Alma este Gosto…]

 

Caríssima Fátima:
Foi mesmo uma grande surpresa.  Andei algum tempo à procura desse documento. Depois desisti quando vim para os Estados Unidos. Nunca me lembrei de perguntar ao Manuel. Só te peço que me faças uma cópia. Como sempre, há uma História por detrás desta estória. Os livros apreendidos estavam à exposição. Era o truque para se evitar uma busca mais aprofundada nas estantes e depósitos. Aí havia mais, que íamos vendendo ao "pessoal de confiança". Sei que o fazia, e o Manuel também, numa conivência que durou até agora.
Vi ainda o senhor Passos mais duas ou três vezes, a rondar a montra e a olhar vagamente para as estantes. E, um dia, perguntou-me "Então, amigo Costa, mais alguma coisa por aqui?" E eu que não, que  aquilo dos três livros tinha sido distração da minha parte. "'Mas, para a próxima, veja lá...". E, nas reticências, lá deixou a ameaça de que se engordava o regime. O senhor Passos, coitado, esse era bom homem.
Tenho a certeza que o Manuel,  se o encontrou depois  do Abril da nossa Liberdade, lhe terá puxado uma orelha, e o terá envolvido com a desculpa carinhosa no seu sorriso de olhos azuis.
Abraço
José Costa

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