quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

UMA MEMÓRIA TRISTE

 

Ao arrumar, para memória futura, os papéis de Manuel Medeiros tenho-me deparado com documentos bastante interessantes. A maior parte dessa documentação repousa há décadas em caixas de cartão e tem-me exigido máscara respiratória e luvas de silicone. São cartas (privadas e institucionais), recados, poemas, escritos de reflexão filosófica, desabafos de alma, contas, esquemas diversos, textos com estratégias comerciais ou de animação de leitura, documentos do seu tempo de sacerdote e da sua vida de jornalista, empresário e livreiro, através das instituições por onde passou a partir de 1967, as revistas Missão e AZ, as empresas Nosso Tempo, Ulissarte, Culdex e Culsete. Muitos são pessoais e íntimos, outros são institucionais ou dão a ver muitos dos aspetos de vida e mentalidade do Portugal de então. Muitas das pessoas que assinam alguns desses documentos são gente que já ocupou ou ainda ocupa lugares de destaque no seu mundo, o eclesiástico, o jornalístico, o cultural, o empresarial. Muitos dramas, muita amizade, algum despeito, alguma decepção, sonhos diversos, propostas e enredos habitam este património riquíssimo que ficará guardado e devidamente preservado até ter um destino condigno que o possa tornar público.
Contudo, tenho encontrado certos documentos que considero dever mostrar, já que deixam perceber a verdadeira dimensão de um país onde governantes e executores pequeninos impunham coisas pequeninas a todo um povo. Às vezes precisamos de avivar certas memórias do passado para não nos deixarmos atirar para atitudes semelhantes.
Decidi mostrar hoje a cópia de um auto de apreensão de três exemplares de dois livros (um de O Partido Comunista, de George Marchais, e dois de A Nova Esquerda na Europa, da coleção Cadernos D. Quixote). A apreensão foi feita em 27 de Março de 1972 pelo comando da Polícia de Segurança Pública de Setúbal na livraria Culdex, a antecessora da Culsete. O “indivíduo presente” no momento da apreensão, que teve de assinar o auto, foi José Francisco Costa, então a trabalhar na livraria. Atualmente é professor do ensino superior em Bristol, nos Estados Unidos, sendo autor de diversos livros, a maioria de poesia. O encarregado da apreensão foi o guarda Manuel do Carmo Passos, tendo como testemunha o colega João Filipe Júnior. Triste memória biográfica para estes dois indivíduos, a descoberta desta cópia do auto de apreensão. Triste memória para nós todos, esta de durante várias décadas um editor não poder editar tudo o que queria, um livreiro não conseguir vender todo o que pretendia e um leitor ter de comprar certos livros às escondidas, “pela porta do cavalo” ou “por debaixo do balcão”, como então se dizia.
Aqui ficam as imagens da frente e verso deste auto de apreensão.
F.R.M.

Apreensão de livros pela PIDE 1    Apreensão de livros pela PIDE 2

1 comentário:

  1. Para que continuemos a cultivar a memória. Muito interessante esta abertura do espólio documental ligado à Culsete, à Culdex e à actividade com o livro da Fátima, do Manuel e de todos quantos colaboraram na ventura do comércio da leitura.

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