quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ESCRITA AMIGA–[Pouco sabemos sobre a praceta das amoreiras], Fernando Gandra

 

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Fernando Gandra na Culsete em 23 de Abril de 2011, Dia Mundial do Livro

Há quanto tempo não tínhamos o prazer de ouvir ou ler um poema inédito de Fernando Gandra? Há muito que  desejamos conhecer a sua poesia mais recente, já que  os seus livros de poemas datam das décadas de 1970 e 1980. Vamos sabendo que os escreve e guarda cuidadosamente, mas isso pouco nos consola. Queríamos muito saber o que diz o poeta após ter escrito e publicado O Sossego como Problema.

Ontem, a meio do dia, Fernando Gandra entrou na Culsete com uma folha A4 manuscrita, um sol  de afetos a iluminar e aquecer a tarde sombria e húmida. Trazia um poema para nos oferecer, dedicado a Manuel Medeiros. Leu-o em voz alta e fez-se um silêncio bom na livraria, um silêncio de escuta e partilha. Ouvir um poeta dizer a sua própria poesia é sempre um momento especial e único. Que sorte para os presentes! Momentos assim são dos mais preciosos que se vivem na Culsete. Esse clima não o podemos transpor para aqui. Deixamos apenas o texto, pleno de sentidos, e o nosso muito obrigado a este AMIGO.

Pouco sabemos sobre a praceta das amoreiras.
É que nesta praceta não há nada,
nem uma loja, nem restaurante com mesas postas,
nada.
Podia haver medo, indiferença ou aflição.
Mas, não: nada.
Nunca ali ninguém chora ou ri.
O facto mais saliente é que há manchas
de humidade nas paredes.
Ali é sempre noite, profundamente noite.
Mas pouco ou nada sabemos de uma noite assim.
Se há afagos, murmúrios
onde os lábios se completam uns aos outros.
Lábios? Eu disse lábios
ou disse lume ou disse cinzas?
Só sabemos que o silêncio é uma curiosa substância
onde o nada como é seu dever e natureza
permanece quieto.
Alguém desceu à cave. Acendeu a luz.
E pensou: e o mar? E o mar?
Sim, o mar sadino?
Para sairmos ou entrarmos na praceta temos que atravessar
arbustos tristes, pinheiros e sobreiros
onde têm residência habitual pombas encolhidas
que nunca tão tristes viste.
Mora aqui alguém?
Aqui só mora ninguém
no seu mais sincero sono.

Fev.2014
Fernando Gandra

Fernando Gandra - poema dedicado a Manuel Medeiros

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