quinta-feira, 6 de março de 2014

ESCRITA AMIGA - A noite enlouqueceu o silêncio e ecoou em voz comprometida, Esaú Dinis

 

A Noite Enlouqueceu o Silêncio - Capa

 

A propósito da recente publicação de A Noite Enlouqueceu o Silêncio (Lisboa / Setúbal, Dezembro, 2013), pequeno livro de poemas de Resendes Ventura (Manuel Medeiros), em edição Muito cá de casa/DDLX, recebemos o texto de Esaú Dinis que aqui transcrevemos. O pequeno livro assinala os 50 anos de publicação de Passos de Viagem (Ponta Delgada, 1963), coletânea de estreia de Manuel Pereira Medeiros, que  assinou então como Manuel Pereira. Os poemas compilados no livro editado em 2013 foram escolhidos por F.R.M., que conhece a obra do poeta, publicada e inédita, como ninguém.

 

  ‘…que apuramento de palavras, de frases,
de  anúncios, e aquilo acendia no silêncio,”
Herberto Helder, Servidões, p. 9.

- Qual é o sentido do trilho?
- Não sei. Cada trilho conduz a mais do que um sentido.”
“Quem não apaga a meta não vê nada do
que está entre o início e o fim do caminho.”
Tolentino de Mendonça, in: ‘O estado do bosque’, p. 9 e 31

Acabo de reler o pequeno poema de Resendes Ventura (Manuel Medeiros), ‘A noite enlouqueceu o silêncio’, que dá título ao opúsculo, aparecido em dezembro último, já depois da morte do autor.

Tem apenas três linhas, onze palavras, dois pontos e uma interrogação: ‘A noite enlouqueceu o silêncio./Amaram-se./Quem neste sono adormeceu depois?’

Publicado postumamente, a surpresa está no facto deste poema, e outros três, estar datado de 1987, porventura à espera de ocasião.

Foi esta. Vamos aproveitá-la para abrir as páginas deste opúsculo, 15x14cm, que soma 23 curtos poemas.

Edição cuidada, em tons outonais, é consentânea com o caldear a perda recente e a vontade de mais uma homenagem, a juntar às que se multiplicaram a celebrar os 40 anos da Culsete e o livreiro poeta Manuel Medeiros.

Apesar da passagem de 26 anos, sobre a data de escrita, o poema ‘A noite enlouqueceu o silêncio’ dialoga bem com o mais recente, datado de 2013, com o título ‘Em Moribundeio’.

Tenho de confessar que a leitura deste último me atingiu pungentemente, pela serenidade de quem, ao escrevê-lo, conjugava ‘in actu’, e por antecipação, na primeira pessoa do singular, aquele insólito verbo moribundar/moribundear, em total consciência, corpo e alma, e em invocada ‘plena liberdade’ (‘Quadras do quase acabar’).

No blogue ‘Chapéu e Bengala’, de 30 de agosto de 2013, Resendes Ventura, mas assinado também por Manuel Medeiros, pelo Livreiro Velho e pelo Velho Livreiro, explicam-se em uníssono: ‘Moribundear é ondear entre cá e lá, para a frente para trás, para baixo para alto. Mas sem ficar lá nem segurar cá – Moribundeio.’

No mesmo blogue, igualmente claro e direto, explicita o seu entendimento: ‘Pedir-me mais um pouco de coragem/para a verdade inteira da viagem/Que sempre se promete a mais um passo/Simples saber o que sou e o que faço/e transmitir nos olhos em abraço/tanto sentir que estou só de passagem’, como se vivenciasse toda a poesia de entrega do seu primeiro livro Passos de Viagem.

No poema, coincidem a permanência em palco do ator e a interrogação vital que sempre o inquietou, sem chegar à dramatização: ‘Como sem sair do palco/o ator pode comportar-se/em peça acabada?’

A compatibilidade entre os dois poemetos é patente. Mas ela alastra aos demais, que encontram complacência a dois, a três, ou mesmo em agrupamento alargado, como se uma coerência cruzasse todo o livrinho, em várias diagonais possíveis, não obstante os anos que cronologicamente os separam. (Naturalmente, parto dos poemas datados, sabendo que há seis que não têm referência temporal.)

Tal consonância subterrânea vislumbra-se à superfície, nas temáticas recorrentes, na persistência de algumas palavras, no tom despido e direto, na crueza de situações e na economia de cada verso e frase.

É o caso da abordagem de referências como silêncio, noite, loucura, enlouquecer, amor, sono, vida, sonho, morte, destino, liberdade. Mas também coerência emotiva, mesmo que enxuta, perpassa nas ondas, no mar, até no calhau rolado, não esquecendo o vento, a montanha, a estrada e o mundo. E, como seria de esperar, estão lá explícitas: palavra, livro, braços, ossos, olhos, como ferramentas do autor, na sua oficina de ‘Livreiro Velho’, que sempre se assumiu como ator e agente do fazer.

Sem ter querido compulsar a obra poética publicada em vida, diria de memória que, desde o princípio e pela estrada da vida (longa estrada, diz um poema), incluindo a invocação equidistante e consentânea do passado, futuro e presente, vislumbram-se referências e problemáticas existenciais.

Na verdade, a banalidade frugal do dia-a-dia, esconde, no mesmo acto de revelar, uma transcendência que me atrevo a qualificar de espiritualidade laica, ou de religiosidade implícita de humanidade comprometida. E tal acontece sem se prender em teias ideológicas.

Nos dois poemas, que coloquei em diálogo, são reconhecíveis temáticas existencialistas, o ‘hic et nunc’ persistente, sem negarem o seu substrato ontológico, como continentes do silêncio e da morte, da loucura e do destino, do tempo, do saber e do ser.

Aparecem por vezes cruamente, outras envoltas em roupagem travestida de trivialidade, mas sempre indiscutível convite a abrir a porta à decifração.

Com o propósito de quase justificar o que fica escrito, e com o propósito de explicitar o facto da coerência se estender ao conjunto do livro, transcrevo excertos de quatro poemas:

‘Viver mais não me dá jeito
posso dizê-lo à vontade
que a vida que tenho feito
permite essa liberdade’
(in: Quadras do quase viver, 2008, p.15)  

‘Nem que a verdade seja o meu passado
nem que o futuro seja o que me resta
negarei ao presente a plenitude’
(in: Imprevista hora,1993, p.5)

‘Tal como sou eu sou.
Ninguém pode ser mais.
O resto é como vivo.´
(in: Tal como sou eu sou, s/d, p.12)   

‘e enquanto a menina come
no colo de sua mãe
na tarde corre uma asa’ 
(in Rua de aldeia, s/d., p. 21)

Também com idêntico propósito exemplificativo, transcrevo cinco micro poemas:

Muito longa
longa estrada
muito longa estrada
a longa estrada
em minha frente
longa
muito longa!
(Longa Estrada, s/d. p.17)   

‘As pedras do meu xadrez
não sei como hei de jogá-las
foi tempo de serem coisas
inda só me saem falas’
(Xadrez, s/d. p.18)

‘Entre mim e o meu silêncio
desperta cada dia a voz comprometida que me abraça
e me situa’
(in: Entre mim e o meu silêncio, 1988, p. 19)

Palavras, frases, falas, coisas, silêncio, lume, liberdade, destino, estrada, gravetos, tudo, são pedras do xadrez em que Manuel Medeiros joga, em cada dia, a sua ‘voz comprometida’.

Tomo a palavra na pele do amigo que, ao longo dos anos, desde 1951 até ao fim, encontrou em Manuel Pereira o caminheiro que segue à frente, o guia de muitas vivências e reflexões, o grilo que alerta, o cúmplice que despoleta o ser capaz e valer a pena ir mais além, nos já lembrados ’passos de viagem’.

É assim que o recordo, de olhos abertos, um ar de desafio trocista nos lábios, onde pairava distraído um sorriso subtil, entre a complacência e o despertador, sempre espevitando a resposta, talvez com a presunção de quem fala para o amanhã ou para a posteridade, e depois estarmos, simplesmente, a falar de coisas comezinhas como dois camaradas.

E, certamente na companhia de muitos, fico à espera da preparação de um livro síntese, recolhendo a nata do que foi produzindo, publicado ou não, prosa e verso.

Manuel Medeiros, desde jovem e até ao fim, produziu muita letra e pensamento, boa escrita e poesia, pelo que mereceria que alguns dos seus melhores poemas e textos tivessem sido, mais vezes, antologiados e difundidos, tanto na pertença ao espaço da produção açoriana, como no âmbito da literatura nacional, transcendendo o arquipélago.
 
Para esta função de obra-testemunho, serão úteis todos os contributos, incluindo aqueles que se debruçaram sobre a sua obra, dos mais próximos àqueles que podem ter um olhar distanciado, e todos ajudassem a entrarmos na sua oficina de escrita, sempre íntima quanto refletida, inspirada a partir do rés-do-chão do nosso pão-nosso-de-cada-dia, cruzada de angústia e superação, mas sempre comprometida e aberta a outros horizontes.

Independentemente do que vier a lume, o que já conheço, desde o Pensamento [suplemento literário do jornal diário A União, editado pela Diocese de Angra nos anos 1950], Passos de Viagem, Mãe D’água, Papel a Mais e o que oferece este livrinho póstumo, já contêm suficientes desafios e propostas para que valha a pena voltar, uma e mais vezes, à sua poesia.

Certamente, o silêncio acender-se-á em ecos, o caminho em trilhos, o enigma em sentido, a vida, esquecida a atração da meta, será sobretudo passagem entre margens. E a noite, grávida de silêncios e vozes, iluminar-se-á.

Queluz, 28 de fevereiro de 2014

Esaú Dinis

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