sexta-feira, 16 de maio de 2014

Miguel de Castro: 16 de Maio, 2009 - 2014

 

jasmin na culsete

Miguel de Castro na Culsete, em 25. Março. 2000, na apresentação de Na Outra Margem da Guerra, de Ascênsio de Freitas

 

Já lá vão cinco anos que deixámos de poder ouvir a voz funda e meio grave de Miguel de Castro, mas dentro de nós ela continua a ecoar clara, sarcástica umas vezes, outras emocionada. Cinco anos? Parece que foi há meia dúzia de meses...
Em 2012 assumimos o propósito de viver o 16 de Maio como o DIA MIGUEL DE CASTRO. Aqui estamos a confirmá-lo, quando passa a primeira data redonda sobre a sua morte.
Vamos lê-lo juntos? Ler um poeta é trazê-lo para junto de nós. Ler um poeta é deixar-nos ir para o outro lado de nós, mais íntimo e simultaneamente mais livre para os outros, mais sensível, mais aberto ao fio estético da vida.
No final poderemos todos repetir com Sebastião da Gama:
“Já Bocage não é…
e Setúbal morria à míngua de poetas.
Oh! Miguel de Castro, poeta que vieste
matar uma sede de mais de cem anos.”

Vamos partilhar aqui alguns poemas de diferentes épocas, temáticas e formas, deixando ver a versatilidade do poeta, lado a lado com a permanência de motivos e temas. Primeiro um inédito, dedicado a Manuel Medeiros:

No ardor do verão

O suicídio talvez seja a opção
ao rés do mar    no ardor do verão

deitado à sombra do chapéu de cor
dar um tiro na boca é o melhor

Depois que venha a grande maré-cheia
furtivamente pelo chão de areia

levar-me sobre as ondas    marinheiro
navegando à bolina e sem veleiro.

Agora este, de Terral (1990):

Nos vidros

Rente nos vidros
De olhar o rio

A noite chega
Como um navio.

O próximo está incluído no livro De silêncio e de Formas, uma compilação de alguns inéditos editada em Novembro de 2013:

Três poemas onde o amor acontece
2
Não sei de mim. Não sei nada.
Aconteceu – e eis tudo!
Tua boca de laranja
Aberta na madrugada.
(beijo e líquido veludo…)
Povoa o sonho que durmo
Na cama larga e vazia…
Foi tudo tão de repente!
E porque assim acontece,
Trago a morte no meu corpo
Trago o meu corpo doente.

Recuando ao seu primeiro livro, Fruto Verde (1950), encontramos o motivo que serve de título ao segundo:

Poeta   (Ao Dr. João de Barros)

Vive na mansarda
Como sonhos desafinados nos seus dedos.
Com névoas e perfumes e segredos,
Magro e iluminado…

Vive a fabricar estrelas
E deita-se com elas
Contente de ter virado…

Não o prendem cadeias
Nem algemas…
- É livre e grande como os astros!

… E não tem quem lhe compre os seus poemas!

De Mansarda (1953) leia-se

Hoje foi dia de procissão

Hoje foi dia de procissão.
Andaram com o Senhor morto às costas,
a mostrá-Lo a todos – e a cidade
inteira ressuscitou para O ver no caixão,
passeando como um Príncipe,
com velas acesas, música e comitiva.

Foi um grande espectáculo gratuito.

O poema seguinte está incluído n’ Os Sonetos.

Azul

Um céu de seda azul e porcelana.
A preguiçosa luz pelos telhados.
Olho o fulgor do rio incendiado
Até ao estuário onde começa

O atlântico mar encabritado.
Na descalça manhã de primavera
As gaivotas soletram pios loucos
Mas o calor está longe de chegar.

Qualquer dia vou passear contigo
Nas areias da Troia aqui tão perto
Procurando conchinhas nacaradas,

Despojos que as marés rolam na praia…
Por giestas em flor amar-te nua
Como um tritão que te roubasse ao mar.

Não podíamos deixar de incluir nesta breve passagem pelos livros de Miguel de Castro a quadra com que encerra Sinfonia do Cu (1993), porque poesia é sempre poesia, mesmo quando a temática é mais ou menos libertina, ou mais ou menos…

Eu ajudo

O meu amor só me quer
Com fartura de dinheiro.
Faça do cu mealheiro,
Eu ajudo o que puder!

Ao fechar os seus livros temos de concordar com aqueles que afirmam que ler Miguel de Castro vale sempre a pena!

 

Poema de Miguel de Castro dedicado a M. Medeiros (15.10.85)

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